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É estranho pensar que ao cair da escuridão algumas coisas se tornam mais claras. Que a noite só faz sentido se existir o dia, se os opostos se completarem, se existir a outra metade. Que às vezes os sentimentos são algo o qual não podemos enxergar, tal qual o vento, só podemos sentir. Que algumas coisas tem nexo sem nem precisar ter sentido, que se entendem sem explicações. Que existem algumas coisas que não precisamos saber para que exista, somente viver.


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CAPÍTULO 1


A noite estava escura, a lua refletia na água que me cercava, estava tudo realmente muito lindo, se não fosse o fato de eu estar sem ninguém, e ainda com a insegurança do que seriam meus próximos meses. Não sei o que eu tinha na cabeça quando resolvi aceitar ir morar sozinha. Estava escorada na beira da grade do navio, olhando o mar e vendo a minha vida se distanciar cada vez mais, mas era hora de olhar em frente e aceitar a minha vida nova. Saí dali, não agüentava mais ficar pensando naquilo tudo. Fui até meu quarto e dormi, no outro dia chegaria até Veneza e conheceria minha nova casa por um bom tempo.
(...)
A noite havia passado meio que se arrastando. Enfim a manhã havia chegado. Levantei-me, troquei a roupa, peguei minhas malas. Saí de lá e já estávamos no porto. Desci do navio, há dois dias não sentia terra firme. Peguei um táxi, dei-lhe o endereço. Pude perceber que as ruas eram estreitas, e que estava cercada de água, o que particularmente me encantava. Não fazia idéia de como era a minha a minha casa, meus pais resolveram tornar isso mais uma surpresa, já não bastava o fato de ter tudo como forma de surpresa. Só para constar, soube que iria para Veneza dois dias antes de sair do Brasil. O dia estava nublado, o calor abafado invadia cada canto do carro. Ele era espaçoso, mas era impossível deixar as janelas fechadas, embora não fizesse diferença alguma, se não o costume de achar que janelas abertas amenizavam o calor. Algum vento abafado se manifestava, balançando meus cabelos soltos.
Meu pai havia decidido que seria bom para mim passar um tempo sozinha, pois já tinha 18 anos e sempre havia vivido e dependido de meus pais para tudo. O táxi estacionou em frente à minha nova casa.
- Obrigada. – Dei o dinheiro e desci do táxi, recebendo um sorriso agradecido do senhor bigodudo.
Passei a observar meu novo lar. Era um sobrado, com sacada, verde oliva com branco. Toquei a maçaneta de ouro velho e entrei. Móveis clássicos de madeira escura em uma sala/cozinha dividida por balcões. Logo após, um banheiro, um pequeno corredor e uma escada. Subi com minhas malas. Na parte de cima, uma peça vazia e uma suíte, no caso meu quarto. Larguei minhas malas sobre a cama, arrumei tudo em seu devido lugar. Há um tempo atrás não sabia o que era organizar uma gaveta, mas conforme o tempo foi passando, me tornei bem organizada. Fui até o banheiro, tomei uma ducha, coloquei uma roupa confortável, peguei minha bolsa e desci. Iria ao supermercado, precisava abastecer a geladeira.
As ruas eram pequenas e a cidade também, mas repleta de pessoas e pontes. As pessoas eram bonitas, com feitio italiano, claro. Todos pareciam bem simpáticos, um povo bem receptivo. Cheguei ao supermercado, e fui olhar as prateleiras. Tinha bem mais coisa do que no Brasil, contando com algumas que não fazia idéia do que seriam. Peguei o básico. Café, leite, frutas – não, eu nunca gostei, mas o que iria colocar em uma tigela em cima da mesa?- legumes, verduras e todo aquele leque variado de coisas para comer, incluindo bolachas recheadas, balas e chocolate. Paguei, ainda com um pouquinho de dificuldade de falar algumas coisas na língua.
Ah, enfim, a história dessa viagem começou quando eu ganhei um curso de italiano e acabei gostando. Terminei-o, e como presente de finalização do colegial, passaria uns tempos em Veneza. Era minha oportunidade perfeita para começar a ser independente e fazer o que eu mais gosto: Não dar satisfação de nada para ninguém. Agora eu era uma poliglota, falava fluentemente português, inglês, italiano e um pouco de espanhol.
Cheguei em casa tapada de sacolas, não sei como conseguia caminhar. Estava animada por minha nova vida, e ansiosa para conhecer meus vizinhos e vizinhas. Principalmente os vizinhos.
Coloquei as coisas nos lugares, tirei meus tênis surrados, me atirei no sofá e liguei a TV. Enfim, um momento de descanso. Desde que saí de casa, não havia parado.
Passei o resto da tarde assim, vendo TV e mais nada. A noite enfim caiu, coloquei meu lenço no pescoço, meus tênis e saí para conhecer o centro quando a escuridão
Era tudo muito, muito lindo. As luzes davam um ar misterioso à velha cidade, que deveria ser cheia de histórias, que eu estava ansiosa para saber. Entrei em um café muito bonito. Bem planejado, um ambiente aconchegante e com um cheiro delicioso. Fotografias muito bonitas e bem tiradas cobriam a parede. Seja lá quem fosse que fotografou, era genial. Pedi um capuccino e o tomei observando a noite por lá. Saí de lá e já eram por volta de 23h30, fiquei vendo as pessoas passarem e tomei 3 cafés, eram deliciosos.
Voltei para casa a passos lentos, sossegados. Pude observar que após as 23h quase todas as pessoas sumiam, as casas estavam todas fechadas e as luzes apagadas. Os corredores eram estreitos, o vento na água fazia um som muito agradável. Em cima da água, uma leve neblina pairava, a lua refletia nas ondas que o vento fraco fazia, tudo isso mais a luz amarelada das lâmpadas da rua, um cenário perfeito para um romance misterioso.
Nunca fui garota de muitos namorados, mesmo que tivesse algumas quedinhas passageiras por alguns garotos que por acaso nunca prestavam. Sempre fui de sonhar com o romance perfeito, a história da cinderela, Romeu e Julieta, Bela Adormecida. Ou até com aquelas histórias de cavaleiros misteriosos e damas vulneráveis. Aquele garoto que viria para mudar a minha vida, que me traria paz e confusão, que me daria os opostos perfeitos, o equilíbrio. Agora sabe por que eu me taxo de sonhadora. Aquele pelo qual não me importaria mais nada, que só me importasse estar com ele.
(...)
A minha cama era macia e quentinha. O sono era pesado e recarregador. Meus sonhos eram agradáveis, estava tudo nos conformes. Só até a campainha tocar. Fui até o banheiro parecendo um zumbi. Dei uma arrumadela básica nos cabelos, coloquei um roupão de seda e desci as escadas, cambaleando no último degrau. Abri a porta e um clarão me fez fechar os olhos, a casa toda estava escura, me assustei.
- Bom dia! – Um ser sorridente falou.
- Ah, oi. – Sorri.
- Trouxe isto para você! – Era uma garota, estendeu algo redondo na minha direção.
- Ah, nossa, uma torta! – Estranhei ela me trazer a torta – Mas por que você está me trazendo uma torta?
- Posso entrar?
- Ah, pode. – Cocei o olho e abri a porta.
- Enfim, sou sua vizinha, e pelo que vejo você não é daqui. – Ela sorriu confortantemente.
- É, não sou mesmo. – Ri, já me acordando – Sou brasileira.
- Nossa, que divertido! Eu sou Viola Tornetti. Eu...
Viola Tornetti, 19 anos. Meio loira, cabelos castanhos claros lisos, olhos esverdeados e um sorriso bonito. Simpática, sorridente, um pouco inocente em certos pontos. Vive em Veneza sozinha há um ano e meio, morava e nasceu em Gênova. Faz faculdade de jornalismo e está no 1º ano.
- Hum! Prazer conhecer! – Apertei a mão dela – Eu sou , tenho 18 anos e sou brasileira. Vim para cá com a intenção apenas de me tornar pelo menos em parte independente. Eu começo a faculdade quando voltar ao Brasil.
- Que bom! E sobre a torta, é um costume nosso receber nossos novos vizinhos com agrados!
- Vejo que as pessoas por aqui são bem receptivas.
- Até demais! – Sorriu simpática, mostrando duas covinhas.
- Mas o que se faz nessa cidade?
- Olha não muita coisa. Enquanto tem sol pode-se passear!
- Mas e a noite?
- Poucos saem pela noite, guarda muitas lendas e é bem misteriosa.
- Pude perceber ontem!
- Você saiu? – Ela abriu uma pequena boca de surpresa.
- Sim, algum problema?
- Não sei, é estranho.
- Hum... Não sabia! – Ri.
- Enfim, você tem jeito de quem gosta de programas culturais.
- Realmente tenho uma sincera e secreta vontade de saber mais sobre Veneza.
- Você está livre pela tarde?
- Sim!
- Gostaria de fazer um tour?
- Certamente! – Sorri, enfiando o dedo indicador na torta e lambendo.
- Er... Só para constar que aqui nós comemos com talheres. – Ela pareceu instantaneamente envergonhada.
- Não tem problema em me alertar, você sabe, fome. – Ri alto.
Ficamos por uns tempos conversando, e ela foi para casa. Foi agradável conhecê-la, ela era simpática e sorridente, e já havia me ocupado pelo menos por uma tarde que eu passaria vendo TV.

CAPÍTULO 2


A hora do almoço chegou, e eu fiz minha especialidade: Massa instantânea com suco. Comi de qualquer jeito, estava sem fome, a mudança de horários me afetou em parte, mas era só para não passar em branco. Coloquei uma calça mais curta jeans, meu tênis de guerra, uma blusa de ombro caído branca. Prendi meus cabelos em um coque bagunçado, e coloquei minhas argolas. Poucos minutos depois ela chegou. Lá o dia começava tão cedo quanto terminava. Saímos. O sol estava forte, e tornava a cidade colorida e animada. As pessoas se cumprimentavam na rua, conversavam alto, sorriam. Fomos primeiro pelos corredores mais antigos, onde as casas eram mais preservadas, ela me contou as histórias dali. Fomos para a calçada principal, onde ela me explicou a arquitetura de todos os prédios realmente importantes. Fomos ao museu da cidade, que convirei que foi muito interessante, aquela cidade era muito mais complexa do que aparentava ser.
- Agora nós vamos a algo mais atual!
- O que?
- Uma mostra fotográfica de um amigo meu, e ele é bonito.
- Bom saber! – Ri baixo.
- Você tem namorado?
- Não... Não tive a sorte de encontrar alguém ainda, e você?
- Namorei um e outro, mas nada de bom.
- Imagino, mulheres são azaradas... Homens que tem sorte.
- Exatamente!
Rimos alto e seguimos conversando bobagens até chegar ao prédio onde estava acontecendo a mostra. Entramos, e instantaneamente passei a observar as paredes cobertas de fotos lindas e que realmente faziam sentido, diferente daquelas que as pessoas fotografam interruptores e chamam de obra de arte. Paisagens, flores, rios, pontes, fotos misteriosas.
- Venha, lá está ele!
Olhei ao longe um garoto cercado por flashes e pessoas o entrevistando. Pelo visto era bem conhecido. E bem bonito.
- Quem é ele?
- Lorenzo D'Argento, ele...
Lorenzo D'Argento, 20 anos. Moreno, olhos azuis, e um sorriso fofo. É americano, mas sempre fez tudo por lá há uns bons 15 anos. É extremamente falante e cheio de idéias. Está no 3º ano da faculdade de arquitetura, planejou o ambiente de um dos mais conhecidos cafés da cidade. Fora isso é fotógrafo, e é excelente no que faz.
Chegamos até ele, que saiu de perto dos fotógrafos para falar conosco.
- Oi Lore! – Viola abraçou-o.
- Viola, sabia que viria! – Sorriu bonito.
- Lorenzo, quero que conheça minha nova vizinha e amiga, !
- Olá! – Estendi a mão.
- Olá !
Assustei-me, ele me puxou para perto e me deu três beijos e um abraço apertado. Fiquei com cara de nada.
- Lorenzo, ela é brasileira, não conhece nossos costumes.
- Ah, me desculpe , não sabia... – Ele corou – Mas enfim o que achou das fotos?
- Realmente muito lindas, fazem bastante sentido! Sinceramente adorei, principalmente as da ala três! – Apontei para a parte em que havia fotos de praias.
- São as minhas preferidas!
- Vejo que as dela também! – Viola deu uma risadinha.
- Bom, a mostra termina às 16h. Depois do fim querem tomar um café?
- Ok! – Disse sorrindo animada, o que fez eles me olharem – O que? Não me olhem como se eu fosse esfomeada.
- Chiara não vem?
- Não... Não pôde! Disse que na próxima virá!
- Ok Viola...
Os dois riram, fiquei sem saber, Viola e eu fomos caminhar enquanto esperávamos o tempo passar.
(...)
Chegamos até um café de beira para o canal principal. Ficamos observando o movimento em silêncio, até que Lorenzo deu um grito.
- VOCÊ! – Ele gritou e apontou para mim.
- Eu não matei ninguém, juro. – Falei calmamente, bebericando meu café e fazendo uma careta cômica pelo sabor amargo.
- Eu tenho fotos de todos os meus amigos quando eu os conheci. Quero uma sua e...
- Calma! – Viola ria do amigo que se atropelava nas palavras.
- Eu topo! – Ri, adorava câmeras.
Viola ficou tomando café observando ele me levar até a beira do canal com uma câmera em mãos. Mandou-me olhar para o horizonte, e eu o fiz. Fez um ângulo estranho e tirou uma foto.
- Perfeita! – Ele sorriu, vendo sua Polaroid imprimir a foto.
Voltamos para a mesa. Ele tirou uma caneta do bolso da pólo azul que usava.
- Assine aqui!
Virei a foto e assinei.
- Ótimo, vai para o meu álbum! – Ele sorriu animado.
O celular tocou e ele atendeu.
- Vou indo gente, estão me chamando por uma foto que vão leiloar, porque vocês sabem, eu sou famoso! – Ele bateu no peito chamando atenção para si.
- Ok, vá! – Viola riu vendo o garoto sair aos galopes pelo café e largar o dinheiro em cima do balcão ao lado da conta de todos os cafés.
- Ele é sempre assim? – Eu ri.
- Sempre, até quando tem de ser sério! – Ela piscou e continuamos com o nosso café.
(...)
A noite caiu levemente junto com um ventinho meio frio. Cheguei em casa com Viola, que foi para a sua, ao lado da minha. Vi TV, tomei um banho, jantei. Coloquei uma jeans comprida, tênis e uma jaqueta, peguei minha chave, coloquei o celular no bolso e saí de casa, pronta para desbravar a noite de Veneza.
Eram 23h30, ou seja, sinônimo de cidade vazia.
La vieja ciudad, vestida de luces, de espuma de mar, de amores y cruces.
Era tudo vazio a noite. O vento batia pelos becos e esquinas dos pequenos corredores, dando a ouvir um assovio leve e em parte assustador. Não entendia a causa a qual fazia as pessoas não saírem de casa. Lendas urbanas não me eram suficientes ao ponto de me impedir de sair. Mil vezes a noite ao dia, é pela noite que as coisas acontecem, por mais que lá isso se parecesse totalmente errado. Segui a caminhar por pontes e calçadas claras e escuras. O que mais me chamava atenção era o fato de existir água por todos os lados, dando um ar misterioso e extremamente atraente ao lugar. Aquilo me trazia uma paz enorme na alma, uma tranqüilidade, uma sensação que eu só sentia às vezes e que eu nunca soube explicar. Caminhei mais e mais, por entre casas e corredores, pontes e canais. A cidade estava deserta, literalmente, desde que havia saído de casa não via nada, sendo que já eram 00h. Passava por entre duas casas até que ao longe avistei uma pessoa, encostada na grade negra de uma calçadinha, observando o horizonte, a lua. Escondi-me atrás da beira de uma casa, a observar.
Tinha cabelos negros como a noite, mas brilhantes como a lua. Eram meio curtos, e isso se encaixava perfeitamente ao resto de seu corpo. Usava um casaco preto de corte reto atrás, uma jeans escura e um tênis que não pude ver como era. Tinha um quadril bem definido, coxas bem torneadas para um garoto.

CAPÍTULO 3



Na intenção de vê-lo melhor, resolvi sair de trás de onde estava e passar para o outro lado. Saí lentamente, em passos abertos, procurando não chamar atenção. Tudo ia perfeitamente, ele só ameaçava olhar para trás, mas nada que me preocupasse. Até que dei um passo errado e pisei em um graveto, que quebrou e estalou. Ele olhou para trás instantaneamente, com uma expressão de susto. Certamente pôde me ver. Como impulso, corri e me escondi atrás da casa. Devagar fui voltando para minha primeira posição. Mesmo que fosse rapidamente, pude “fotografar” o rosto dele com a minha mente. Era branco, uma cor clara. Seus olhos pareciam escuros mas esverdeados, de um formato bem desenhado e olhar fugaz. O maxilar bem marcado, com um nariz de traços leves. E sobre a boca sem comentários. A boca dele era linda, como nunca vi igual. Seu cabelo lhe caía levemente sobre a testa, com sobrancelhas bem expressivas.
Penso que se tive tempo de ver tudo isso, ele deve ter me visto congelada observando-o. Após minha reflexão sobre as graciosas formas do garoto, pude observá-lo olhando a noite novamente. Parecia calmo e despreocupado. Fiquei ali vendo seus movimentos. Ele se virou de frente para onde eu estava e se apoiou com os cotovelos na grade, pude confirmar tudo que pensei. Era lindo. Olhou para a lua e sorriu, voltando a virar-se para a água. Ah, o sorriso. Era perfeito, os dentes alinhados. Um sorriso límpido, branco e encantador, ao mesmo tempo parecia pensativo, introspectivo e fechado.
Resolvi tentar passar para o outro lado novamente. E outro passo em falso, quando ele se virou e me viu parada. Senti meu corpo aquecer e quando dei por mim estava correndo e entrando pela rua ao lado de onde ele estava. Corri sem parar e cheguei até em casa. Fechei a porta, encostei-me a ela. Era 01h30 da madrugada. Marquei o horário na minha cabeça, troquei de roupa e dormi.
(...)
Almocei e saí. O dia estava bonito. Bati na porta da casa de Viola, no dia anterior tínhamos combinado de sair para fazer nada por aí, melhor do que fazer nada em casa.
- O que vamos fazer? – Sorri.
- Chamei todos para a praça central, quero que você conheça todos os meus amigos, agora seus também! Você conhece alguém por aqui?
- Não, só você e o Lorenzo por você! – Eu ri – Enfim, estava sozinha até a sua torta bater na minha porta.
- Ah ok então! Vou lhe apresentar aos seus novos companheiros!
Saímos conversando e rindo, enquanto ela me falava sobre o que costumavam fazer e como se divertiam por lá. Chegamos até a praça, até duas pessoas meio conhecidas, onde eu só havia visto Lorenzo e Viola até aquele momento.
- Bom Chi, essa é a , ela é brasileira e eu a descobri na casa na frente da minha.
Todos me deram um oi coletivo.
- Bom este é Lorenzo que você já conhece. Esta é a Chiara, ela...
Chiara Bardelli, 17 anos. Morena, cabelo negro e ondulado, olhos extremamente verdes, usa aparelho nos dentes. Alta, é a maior de todas, que são baixinhas. É a menos centrada, mais brincalhona, e às vezes é um pouco bipolar. Pinta quadros fantásticos e está no 3º colegial.
- Prazer! – Estendi a mão.
Ao invés de receber um aperto de mão gentil, fui novamente esmagada, causando risadas no Lorenzo e na Viola, que explicaram para ela o fato da falta de costume.
Sentamos em dois bancos de concreto e passei a observar que aquilo parecia totalmente comum por ali. Pessoas se reuniam pela tarde para jogar conversa fora e rir um pouco. Enquanto conversavam e fofocavam sobre coisas que não me faziam sentido algum, me fixei a um grupo e que se encontrava na beira de um café dos mil que havia lá. Fiquei observando um rapaz alto e de boa postura, até que Viola me cutucou.
- O que tanto olhas?
- Aquele grupo lá...
- Ah... Como imaginei. – Ela riu de canto – São os mais influentes da cidade, os ricos e poderosos. Vejo que você observa o Tommaso.
- Tomate?
- Não, Tommaso! – Ela riu – O seguinte...
Tommaso Vasallo, 21 anos. Moreno, alto, forte, de olhos verdes e um sorriso memorável. É rico, filho de uma das famílias mais ricas da cidade, é natural de lá. Faz faculdade de direito e está no 3º ano. É o típico bom partido, disputado mas um pouco egocentrista.
- Nossa, me chama bastante atenção.
- Chama atenção de todas! Mas pertence a poucas. Só soube de uma garota pela qual ele caiu de amores, literalmente. Ela deixou-o na noite em que faziam 1 ano de namoro, por um garoto que não sabiam de onde havia surgido, tampouco sabiam quem era. Depois, sumiu.
- Nossa. – Observei-o ignorando uma garota.
- Depois se tornou o que é, e desde então nunca mais se soube de casos com Tommaso.
- Uau, me parece bem atrativo ser uma exceção!
- Boa sorte então! – Ela riu e continuamos com a nossa conversa animada de banco de praça, o que lá tinha um significado bem diferente.
(...)
Cheguei em casa com um sorriso estampado e ainda sob o efeito das risadas constantes que eles me fizeram dar. Era realmente um grupo de amigos mesmo, se ajudavam no que fosse necessário, e acima de tudo eram muito animados. Tomei um banho, fiz um jantar caprichado. Comi e me senti uma bola. Esperei até as 23h30 no notebook, peguei a chave e saí de casa. Fiz o mesmo caminho do dia anterior, consequentemente cheguei ao mesmo lugar. Encostei-me atrás da mesma casa de susto ao ver que ele estava lá novamente. Estava sentado, apoiado na grade, de lado para mim e de lado para a água. Segurava um violão, e procurava inspiração, tocava uma melodia sem letra. Parecia esperar que a letra aparecesse em sua mente para colocá-la, como se fosse cair do céu. A melodia era muito bonita, principalmente tocada por ele. Suas mãos faziam um ritmo perfeito, e seu rosto era esperançoso, eu não sei explicar, me hipnotizava. Algo nele me importunava, tinha um ar misterioso, talvez pelo fato de sair pela noite, coisa que raras pessoas faziam, até aquele momento somente eu e ele. Ele me chamou atenção de um jeito que ninguém até aquele dia havia chamado, algo rápido e intrigante.

CAPÍTULO 4



Y tu, como la brisa de noviembre, como todo el mar llevándome.
Sentei-me a observá-lo fixamente. Não conseguia me controlar. Podia me imaginar em seus braços, não me importava como fosse. Minha mente era fértil e sem barreiras, não escolhia o que pensar e a hora de pensar. Não via limites para os meus sonhos, a realidade e a imaginação se misturavam em viagens sem fim. Sorri de canto ao perceber que ele o fazia. Uma série de calafrios percorreu a minha espinha ao sentir um vendo gélido entrar por de baixo da minha blusa. Onde eu estava encanava muito vento, mas não podia sair dali. Ele se virou de costas para a água, de frente para onde eu o espiava. Era impressionante como estava compenetrado ao ponto de não me ver ali. Agora tocava uma melodia composta de tons altos e baixos, passando um sentimento de inconstância. Ficou sério, e observava as estrelas. Levantei o rosto na intenção de vê-las também, e talvez entender o que se passava na cabeça dele. Um vento frio voltou a balançar-me, só que mais forte, fazendo um ruído macabro que chamou a atenção dele. Ele olhou para onde eu estava, e eu achei que não havia me visto, até o momento em que percebi o olhar dele fixo. Dei-me por conta que meus cabelos estavam soltos, e com o vento, apareceram ao lado da parede. Ele havia parado de tocar, e eu, congelado por ali mesmo. O vento parou e os meus cabelos voltaram à posição inicial, ou seja, bem longe da visão dele. Vi-o levantar, não sabia o que fazer. Aproximou-se mais, o vi chegar bem perto. Virei-me de costas para ele, ainda estática. Senti o vento oposto me trazer um perfume doce. Um arrepio me percorreu de cima a baixo quando senti o calor da mão dele se aproximar do meu braço gelado e não sei por que, mas corri até desaparecer.
(...)
- Bom dia !
- Bom dia Viola... – Disse ainda sonolenta – Entra!
Abri a porta e Viola entrou. Eram 9h da manhã e eu só havia dormido míseras cinco horas, e além de tudo, ainda estava meio perturbada com o fato de ter me perdido, digo, me trocado um pouco de ruas quando fui fugir do... Enfim, Dele.
- Por que você tem tanto sono assim ?
- Ah eu...
- Não me diga que...
- Que o que?
- Que você anda saindo de noite.
- Eu não resisto...
- Ok, estou avisando, a noite guarda mistérios.
- Isso já não lhe parece suficiente para entender porque eu não resisto? – Ri.
- Depois não diga que eu não lhe avisei.
- Ah Viola, você deveria perder essa coisa que você tem contra a noite vazia... Ela é tão calma, e não é perigosa, pelo menos por aqui não.
- Mas você não sabe da lenda?
- Não creio que você acredita em lendas! – Bati com a mão na testa.
- O que tem? Você não?
- Obviamente não Viola! Os únicos monstros que assombram as cidades são os próprios humanos.
- Mas e o...
- Não sei como as pessoas aqui crêem nisso... – Interrompi-a – Parar de sair por causa de algo que provavelmente foi inventado.
- Você não tem medo de ver uma dessas coisas não identificadas?
- Er... Teria se elas realmente existissem. Mas, elas não existem.
- Você já viu alguém na rua?
- Não... Er... Já.
- Hum... Quem? – Ela deu um sorriso maldoso.
- Não sei! Mas essa foi a segunda noite em que eu o vi, no mesmo lugar.
- Ah, e suponho que hoje você vá lá de novo...
- Você é genial.
- Ai Deus.
- O que?
- Ele pode ser... Ele! – Ela abriu a boca.
- Ele quem Viola, ele quem?
- Reza uma lenda média que...
- Média? – Ri.
- Não é nem nova nem antiga, então... Não me interrompa nem corte meu clima. Reza uma lenda média que pelas noites em Veneza, um ser não identificado ronda. Houve um tempo, que uma série de mortes consecutivas aconteceu, todas na freqüência semanal. E por acaso, todos os corpos foram encontrados no fundo do canal principal, grudados na beira da Piazza Negra.
- Onde fica essa... Piazza?
- Aqui perto... Ela é quadrada e dá de beira ao canal principal. Enfim, deixe-me continuar. Uma pessoa anonimamente contou aos moradores sobre o que acontecia, e de boca em boca foi se espalhando. Era um homem, digo, um garoto, com por volta de 19 anos, maravilhosamente bonito. Era como se hipnotizasse as garotas, as beijasse e matasse na água, com as mais variadas marcas de tortura. Essa pessoa anônima, mais tardamente se internou no hospício, por dizer ser perseguida. O que mais intrigou as pessoas foi o fato de todas terem entre 16 e 20 anos, e serem realmente bonitas. Não se sabe o que ele é até hoje, e há um bom tempo ele desapareceu. A sobrevivente do hospício disse que ele está voltando, que está na hora de recomeçar a banhar o canal com sangue. Depois de dizer isso, ela se suicidou.
- Isso não seria um serial-killer?
- Não sei, mas é sobre isso a minha matéria de conclusão do 1º ano, que estou organizando.
- Nossa como alguém pode acreditar nisso?!
- Tenho recortes de jornais!
- Isso não me diz nada! Essa Piazza é “perigosa” de dia?
- Não!
- Vamos comer e você me leva até lá.
Comemos falando sobre qualquer coisa que pudesse ser falada. Peguei um casaquinho.
- Vamos?
- Eu tenho medo.
- Deixe de ser boba Viola.
Fomos indo por um caminho que eu já conhecia. Chegamos onde eu havia ido às últimas noites, e não havia reparado na placa da parede, onde dizia Piazza Nero. Também se reparasse não faria diferença alguma, não sabia da “lenda”.
- É aqui?
- Sim! É um lugar macabro de dia, imagine de noite!
- Olha, terei de dizer que não concordo com você.
- Oh meu deus, não me diga que você veio aqui.
- Duas noites consecutivas, três com a de hoje.
- Você viu alguém aqui?
- Sim, o garoto que não saiu da minha cabeça nos últimos dois dias.
- Como ele era? – Ela sentou-se ao lado da grade, com uma cara espantada.
- Olha Viola, difícil de descrever. Uma beleza particular, todo bem desenhado, muito bonito.
- Ele fez algo com você? Falou? Pulou? Tentou te matar?
- Não, só me viu espiando ele, mas quando foi tocar meu braço eu corri e me perdi.
- Você não vai vir mais aqui, vai?
- Já disse que hoje vou! Ah Viola, não seja inocente, ele deve ser apenas mais um adolescente americano sem crenças.
- Mas e se for ele?
- Não sou suficientemente bonita para ele me matar, então de primeira não corro riscos. E outra que vai saber se ele não quer só alguém para conversar?
- Não brinque com isso !
- Não estou brincando, só não tenho medo! – Ri.
- E se você morrer?
- Morri oras, você vai me ver boiando e ter uma matéria para o seu jornal! – Disse sarcasticamente e ri.
- Ah, já sei, ele nem vai querer matar você, acho que vai ver em você a versão feminina dele.
- Se for ele mesmo... Eu topo! – Dei um sorriso malicioso e encantado.
- Como você não tem medo?
- Às vezes para viver a vida temos que ter um pouco de sangue frio. – Sorri e me levantei – Prefiro ficar aqui à noite, vamos indo?

CAPÍTULO 5

A tarde passou... Rápido. Dormi meio perturbada, sonhos estranhos me incomodavam. Primeiro ele me matando, depois me torturando, e depois eu vendo a lua sumir por dentro da água. Confesso, não foi tão ruim tendo o rosto dele na minha frente. Acho que Viola tinha razão, eu sou uma sub-humana com sangue congelado. Enfim, me levantei às 21h. Preparei um jantar caprichado e me entupi de comida, como sempre. Arrumei tudo, e quando terminei já eram 23h15min. Coloquei um chapéu, e uma jaqueta de couro marrom, combinando com o meu acessório de cabeça (lê-se chapéu). Peguei a minha chave e coloquei um canivete no bolso. Não eu não tinha medo, mas sabe... Precaução.
Saí de casa, e como se pode imaginar, tudo vazio, como sempre. Fui a passos lentos. Ok, não era tão sangue frio assim, estava um pouco assustada. Cheguei até a Piazza, e estava vazia.
- Droga! Logo hoje que eu queria ver ele. – Pensei.
Senti o vento bater nos meus cabelos, gelado, sem dó algum. Noite de lua cheia, sem ruídos, silenciosa em sua imensidão. Imaginei-me com ele, observando tudo aquilo, e se nunca mais iria vê-lo, ele poderia ser apenas um garoto viajando, ou até alguém que resolveu ter medo de sair de um dia para o outro. Não senti tanto medo estando ali, mesmo sozinha, me sentia até bem, não sei explicar. Fiquei olhando para a água negra, que refletia a imagem do meu rosto, meio distorcido, mas ainda reconhecível. Coloquei as mãos nos bolsos, continuei a observar a água e a imagem da lua. Olhei para trás e não havia ninguém, nem sinal dele. De qualquer forma continuaria indo lá a fim de esperar que ele aparecesse novamente. Olhei para a água, e fiquei observando. - Bonita a escuridão, não acha? Reflete seus olhos tão bonitos quanto são.
Oigo tu voz, en el silencio. Cuando estoy solo te siento llegar. Vienes aún, entre las sombras.
Senti um calafrio percorrer desde meu pé até a minha cabeça. Os meus olhos se fecharam, apertei os punhos. Aquela voz doce ecoou na minha mente, e o calor da boca dele perto do meu pescoço arrepiou meu corpo inteiro. Não pude pensar se ele era um maníaco ou algo do tipo, um monstro ou uma pessoa normal. Uma onda quente percorreu meu corpo, senti sua mão tocar minha cintura, e uma respiração quente próxima ao meu pescoço. Não sabia o que estava havendo comigo, sentia meu estômago revirar e algo tomar conta da minha mente, me deixando insana e com o coração acelerado, sem me dar conta do risco que corria, me deixando envolver por um estranho. Como impulso me virei de frente para ele, ficando sem querer com os rostos colados. Senti os seus lábios tocarem docemente nos meus, e de novo, não sei por que, corri até desaparecer.
Corri por ruas conhecidas, cheguei até o centro. Joguei-me em um dos bancos de concreto que havia na praça e fiquei pensando. O que ele fazia comigo? Dois dias que eu via ele, três com aquela noite, e ele já me dominava daquela forma! Parecia magia, algo inexplicável, sem nexo, mas com sentido. Eu estava me sentindo extremamente estranha, era como se algo me atraísse nele, tipo um imã, ou quem sabe somente o fato de eu não saber absolutamente nada sobre ele.
(...)
- Alô? Ah, desculpa Lorenzo, já abro a porta para você!
Desliguei o telefone e desci as escadas do jeito que estava, abri a porta e puxei-o para dentro, não queria ver claridade.
- , desculpe chegar assim, me sentindo o amigo íntimo.
- Não há problemas, você é meu amigo agora, tem direitos! – Ri.
- E desculpe perguntar, porque você não atendeu a campainha e está toda descabelada?
- Eu estava dormindo! – Eu ri.
- São 13h. – Ele fez uma careta.
- Isso não quer dizer nada!
- Enfim vá se arrumar, vamos encontrar a Viola e a Chiara para comer em um bistrô aqui perto.
- Isso foi uma ordem?!
- O que você acha?!
Levantei-me do sofá aos risos e fui me trocar. Coloquei uma roupa decente, fiz uma higiene básica, peguei minha bolsa e desci, me deparando com Lorenzo rearmando as flores na mesa de centro. Saímos e fomos rindo e conversando até chegar onde Viola e Chiara estavam, no caso, no banco de concreto em que eu me lamentei pela noite. Fomos indo até o bistrô. Chegamos lá, era bem tematizado, com fotos, pinturas, risadas, café e comida. - Eu quero um suco desses coloridos, uma torrada, uma porção de batata frita, um pão de queijo e...
- Só! – Viola riu dispensando o garçom gordinho que nos atendia.
- Você acabou com a minha comilança. – Fiz uma cara triste.
- Para que tanto ? – Ela riu – Não me diz que...
- Deixe para depois. – Cochichei e puxei assunto com Chiara para disfarçar.
Comi tudo, sem deixar nem uma migalha para contar história, o que deixou todos meio perplexos.
- Como você fez isso? – Lorenzo estava boquiaberto.
- Fome, conhece? – Falei, arrancando risadas dos três.
- , preciso te contar o que a minha avó mandou te dizer! Venha!
Viola me puxou pelo braço do jeito mais indiscreto possível, me impressionei com o fato de os outros não se darem conta.
- Conte-me.
- Viola... Você vai me matar.
- Se ele não fizer isso antes...
- Ah, pare de bobagem! – Ri – Enfim...
- O que houve?
- Eu cheguei lá e não havia ninguém... Aí eu estava olhando a água e ele apareceu do nada e falou ao lado do meu pescoço “Bonita a escuridão, não acha? Reflete seus olhos tão bonitos quanto são.”
- Ele te acha bonita! Ai meu deus! Ele vai te matar! Temos que tomar providências e...
- E eu não terminei. – Sorri amarelo – Ele me tocou, e eu sinceramente não me importo de morrer se for com ele falando no meu ouvido.
- Viu e ele ainda te hipnotizou! É ele, tenho certeza!
- Não me senti em perigo perto dele, principalmente quando ele tocou os lábios dele nos meus.
- Eu não acredito que vocês se...
- Eu saí correndo.
- É a última vez não é?
- Da minha parte não.
- Você sabe...
- Não me importo de me arriscar, ele é bonito e tem uma voz doce, idem o perfume.
- Nossa.
- Se você o visse ia saber o que digo. Mas melhor não, não quero outra olhando para ele. – Fiz careta.
- Nossa.
- Ele é muito bonito para ser um cereal quiler. – Ri.
- Oks, se você se sente bem, quem sou eu para impedir?
Entramos rindo, enquanto ela inventava umas falas para a avó dela. Voltei para casa acompanhada de Viola, que ficou o caminho todo me indagando sobre ele.
- Como ele é?
- O seguinte, ele é mo...

CAPÍTULO 6



Parei de falar ao ver que ela havia sacado um bloquinho de dentro da bolsa, junto com a caneta.
- Você não vai anotar não é?
- Vou! Preciso da descrição dele caso você seja a próxima vítima, eu vou fazer sucesso.
- Ai Deus! – Bati a mão na testa – Anota então. Ele é moreno, de estatura mediana, um sorriso maravilhoso, olhos escuros, mas esverdeados, tem um perfume doce, e os lábios macios. Ele é quente.
- É claro que ele é quente, ele é vivo. Ou não!
- Falei cogitando a opção de ele ser um extraterrestre. Deixe-me ver... Ele toca violão, e gosta de olhar as estrelas e pensar.
- Vou te fazer umas perguntas.
- Ok.
- Você viu algum objeto brilhante nele, que se parecesse com uma faca?
- O anel dele. E não parecia uma faca.
- Ele tinha um olhar maligno?
- Nem um pouco.
- A voz dele é robótica?
- Por favor, não exagere! – Eu ri.
- Ok, peguei pesado. Ele não falou mais nada?
- Não, só aquilo.
- Então ele já havia te visto para ver seus olhos, não é?
- Não sei.
- A não ser que ele tenha visto na água... – Ela riscou a frase no bloco – Você viu algo que diga quem ele seja?
- Não, não faço idéia de quem seja.
- E ele beija bem?
- Você vai anotar isso?
- Não, curiosidade mesmo. – Ela riu.
- Eu fugi. – Baixei o rosto fazendo careta.
- Ah é. Enfim, você acha que em porcentagem, quantas são as chances de ele ser o assassino?
- 0,01%.
- Ah ok então, vou pra casa fazer minha matéria antes que você morra. Tchau.
Ela se virou e saiu, às vezes era um pouco... Estranha.
(...)
Cheguei em casa, liguei o notebook e fui falar com as minhas amigas. Eram três dias que eu estava lá e já estava me remoendo de saudade, embora tenha conhecido pessoas bem legais. Falei com a minha grande amiga pelo MSN. Ela me faria uma falta incontável. Estava fazendo faculdade de engenharia, enquanto eu estava fazendo nada em Veneza. Tive uma idéia para o próximo dia. Fiz macarrão instantâneo e comi sem pressa, precisava matar tempo até as 23h15. Vi TV e troquei a roupa. Coloquei um vestido de cetim bege com flores, que deixava meu pescoço e costas quase a mostra. Peguei minha chave e pela quarta noite, saí.
A noite estava quente, o vento fraco estava extremamente abafado. Resolvi fazer um caminho diferente, mais vazio, mas bem mais iluminado. Não que tivesse medo de estar sozinha, mas pelo fato de variar apenas. As casas pareciam quase todas iguais, mas se prestássemos atenção, cada uma tinha detalhes peculiares. Descobri passagens novas, lugares extremamente lindos, mas no caso, só me importava um. Fiz uma passagem por entre duas casas, cheguei até a Piazza.
Todos tenemos miedo y ganas, de esta locura. Hay más de una oportunidad.
Estava vazia e misteriosa como sempre. Tinha uma atmosfera de filmes, um cenário dos mais estranhos sonhos de alguma mente meio perturbada. Apoiei-me na grade negra, fiquei olhando o céu. Não havia percebido, a vista dali era realmente linda. À frente, uma casa, e acima, o infinito. Entendi como em um estalo porque o nome era Piazza Negra, pois era mais bonita pela noite, e se tornava negra se as luzes estivessem apagadas, e não porque ali poderia ter sido o cenário de um dos capítulos mais negros de Veneza, o qual ninguém realmente sabe se existiu. O vento balançou um pouco o meu vestido, senti a brisa quente tocar minhas pernas. Ouvi alguns ruídos de passos e olhei para trás. Um vulto correu por entre as casas. Senti um pouco de medo, confesso. Ninguém é inteira coragem. Ouvi passos mais altos. Resolvi olhar quem era, mas não vi ninguém, só ouvia passos. Voltei para onde estava, e fiquei a observar o céu. Ouvi passos altos, e estes com certeza não queriam se esconder. Senti alguém se aproximar e nem me movi.
- Não precisa fugir. – Aquela voz me disse, baixo.
Senti meu corpo estremecer. Não queria fugir, obviamente, mas achei que deveria. Resolvi por ficar ali e me arriscar. Ele se apoiou na grade ao meu lado.
- Você não vai fugir?
- Acho que não.
- Então ok. Por que você foge?
- Você pode me matar.
- Poder eu posso, qualquer um pode, mas não o faria.
- Bom saber.
- Vejo que você gosta da noite, para sair sozinha e ignorar as lendas.
- Gosto... E para ser sincera não acredito muito.
- Tanto não acredita que achou que eu iria matá-la! – Ele riu.
O sorriso dele era maravilhosamente lindo. Mas ele estava rindo da minha cara, e isso não era lindo. Ok, era sim.
- Ah, dê-me um desconto. Ninguém é tão frio assim.
- Você não é italiana, ou é?
- Não. E você?
- Não, se não provavelmente estaria dormindo a essa hora. Sou americano.
- Acho que americanos em geral são frios com este tipo de coisa, do contrário das pessoas daqui.
- Realmente... Bom ponto de vista.
- Obrigada. – Sorri.
- Enfim, o que te traz aqui?
- Acho que o mesmo que você.
- Hum, acho que não.
- Por que acha que não?
- Você não sabe o que me traz aqui.
- E você também não sabe o que me traz aqui.
- Se você vem pelo mesmo motivo que eu, já deve estar óbvio.
- O que?
- O motivo pelo qual eu venho.
- E qual é?
- O mesmo seu.
- Você me confunde.
- Desculpe.
- Boa noite.
Saí dali, não agüentaria mais ficar do lado dele. Se o motivo dele fosse o mesmo meu, bem, ele tinha nome, e eu não sabia qual, e nem me interessava saber.

CAPÍTULO 7



- Alô, Viola?
- Eu!
- Sou eu, .
- Milagre, acordada antes das 13h!
- É! Fale com a Chiara e o Lorenzo, venham para cá, almoçar aqui!
- Ok, mais tarde estamos indo para a sua casa.
- Você já falou com eles?
- Não, mas eu sei que eles vão. – Ela riu.
- Ok.
Desliguei o telefone e fui até o pátio da minha casa. Era pequeno, mas tinha um buraco na parede, de tijolos. Improvisei uma churrasqueira e me coloquei a assar uma boa carne. Hoje iriam experimentar um pedaço do Brasil. Liguei o som meio alto, um samba. Ok, não era muito chegada em samba, mas queria me sentir um pouco em casa. Umas duas horas depois, eles chegaram, todos juntos.
- Que cheiro bom, o que é?
- Algo do Brasil Lore!
- E que música é essa? – Chiara estava confusa.
- Samba! – Eu ri.
Chegamos até a minha mesinha improvisada também no pátio. Apresentei-lhes o churrasco. Comeram como animais, se entupiram de carne. Depois ficamos rindo enquanto tentávamos dançar fracassadamente o samba, enquanto comíamos brigadeiro de panela.
- Quero morar no Brasil! – Lorenzo dizia se jogando no sofá a fim de descansar.
- Não é só isso lá! Essas diversões são só no domingo!
- Mas pelo menos algum dia ! – Chiara ria.
- Um dia desses fazemos um almoço bem italiano para você ver!
- Combinado Vi!
Ficamos rindo e conversando. Eram ótimas pessoas, bem educadas. Ajudaram-me a limpar tudo, e depois ficamos atirados no sofá vendo TV e conversando para fazer a digestão. Depois, fomos a um café tomar o nosso amado capuccino com bastante chocolate.
(...)
Todos já haviam ido embora, estávamos apenas eu e Viola caminhando pelo centro, enquanto olhávamos algumas lojinhas de roupas em liquidação.
- Viola, falei com ele.
- Falou? – Ela deixou o queixo cair, eu ri.
- Falei! E ele não é um cereal. – Eu falei rindo.
- Um cereal ele não é mesmo, no máximo um serial.
- Tanto faz. Enfim, ele disse que não ia me matar.
- Deve dizer isso para todas! O que mais você descobriu sobre ele?
- Bom, ele é americano, e ele fala complicado.
- Pronto, achou sua metade da laranja.
- Que besteira isso que você disse.
- Eu sei. – Ela riu – O que mais?
- Nada que se pode dizer “Oh que descoberta!”. Mas ele me parece bem inteligente.
- Sim, para ser um serial tem que ter estratégias.
- Viola, minha querida, ele não é um serial.
- Como você sabe? Hein? Hein?
- Ai deus! – Eu ri.
- Ok, acredito em você.
- Que bom!
- Mentira. HEHE – Ela disse e entrou em casa.

Pois é, ele não saía da minha cabeça. Ele era um mistério com pernas, não sei explicar bem. Mas de qualquer forma ele estava tomando conta de mim. E tudo isso em quatro noites que o vi. Imagina depois de uns bons meses... Eu iria estar totalmente dominada.
(...)
A noite caiu, e eu estava na sacada tocando um pouco de violão e pensando na vida. Acho que não me arrependeria de ter ido para Veneza, tudo indicava que seria realmente muito bom para mim. Fui até o meu quarto, abri o armário. Coloquei uma roupa simples, e fiquei revirando as fotos que estavam coladas nas portas, desencaixotei algumas coisas que ainda não haviam sido tocadas, dancei um pouco ouvindo meu iPod. Jantei, arrumei meu cabelo e me preparei para mais uma noite.
Saí de casa, pelo caminho de costume. A noite estava nublada, ao que tudo indicava iria chover. Cheguei na Piazza e lá estava ele, sentado a beira da grade, com seu violão no colo, tocando aquela melodia vazia. Fiquei onde havia ficado quando o espiava, e fiquei somente observando-o. Era tão gracioso, tão gracioso, mas ao mesmo tempo me passava decisão e força. Fui amarrar meus tênis, levantei meu pé e caí sentada no chão, fazendo com que ele me notasse. Ele me olhou e sorriu bonito. Senti meu rosto corar, deve ter percebido que eu estava ali há um bom tempo.
- Boa noite! – Ele disse alto.
- Bo...Boa noite. – Coloquei uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e baixei o rosto.
- Venha para cá, não fique aí sentada! – Ele riu.
Fui até lá meio sem jeito, não sabia o que dizer tampouco fazer.
- Sente aqui! – Apontou um lugar.
- Ok. – Me sentei de frente para ele.
- Me diga, o que faz aqui de novo?
- Nossa, parece que esse lugar é só seu.
- Não é só meu, vejo que é nosso.
Senti meu corpo estremecer de cima a baixo. Ele sorriu e eu entrei em estado de choque.
- É mesmo, só nós gostamos de vir aqui. – Tentei não transparecer a euforia que tomava conta de mim.
- A cidade inteira à noite é só nossa, pode ter certeza. Somos donos de tudo isso, e podemos fazer o que quisermos.
- Nossa, isso me parece bem atraente! – Tentei novamente disfarçar a minha felicidade com um tom sarcástico.
- Exatamente! Tão atraente quanto... – Ele me olhou e tocou a corda mi do seu violão– Gosto daqui por isso, de noite existe um mundo, ao dia outro.
- Percebo...
- As coisas por aqui são diferentes de qualquer outro lugar do mundo... Quem vem e vai, sempre quer voltar.
- Pelo pouco tempo que estou aqui, posso afirmar que concordo.
- Posso ver pelos seus olhos que você vive de dia... Mas é pela noite...
- Que as coisas acontecem. – Completei a frase dele.
- Como você sabe que eu iria dizer isso?
- Realmente não sabia, mas é assim que sempre pensei.
Y cada mitad, se acerca a su modo.
- Quem espalhou lendas era sábio...
- Por?
- Por gostar de ter a noite só para si, como nós. Às vezes o que queremos se encontra em nós mesmos.
- Ou talvez se encontre em nós, mas para isso, nós precisamos nos encontrar.
- Em um reflexo.
- Em algo...
- Em alguém.
Estávamos nos olhando fundo nos olhos um do outro, calafrios me percorriam o corpo.
- No infinito. – Olhei para o céu sem lua, sem estrelas, apenas nuvens.
- Onde só uma coisa pode alcançar...
- Nós. – Falamos em coro.
Ficamos nos olhando, e gotas começaram a cair do céu. Levantei o rosto, na intenção de senti-las tocar minha pele.
- E as portas do céu se abrem... – Ele olhava para o céu.
- Mas até lá, é só escuridão.
Levantei-me, e fui indo por entre as casas, olhei para trás, continuei séria, e sumi por dentre as casas.

CAPÍTULO 8


- Bom dia! – Lorenzo entrava em minha casa.
- Bom dia Lorenzo! – Disse coçando o olho.
- Vou te acostumar a acordar cedo! – Ele riu.
- Nem tente. – Fiz uma careta de garota má, fracassada.
- Vamos direto ao assunto.
- Não fiz nada, juro.
- Mas vai fazer. – Ele fez uma cara de psicopata.
- Deixo bem claro que não vou matar ninguém, nem roubar, nem estuprar, falando nisso estou com fome.
- Nossa. Eu só ia te convidar para me acompanhar no coquetel de uma mostra que fui convidado.
- Hum... Isso eu posso fazer! – Eu ri.
- Viola e a Chiara não vão poder ir junto, Viola está fazendo um projeto, e Chiara tem que terminar uns quadros.
- Ok! Quando é?
- Amanhã! Roupa social. Vestido, salto e todas aquelas frescuras.
- Feito!
- Certo, então vou indo, tenho de terminar algumas fotos e... – Lorenzo começou a dar uma lista de coisas e encher sua mão de asteriscos.
- Ok, acalme-se. – Eu ri da situação dele.
- Tudo bem, me acalmarei. Mas...
- Sem mas! – Ri.
(...)
Almocei, peguei minha bolsa e saí. Varei as lojas em busca de um vestido para o coquetel e não achei nada. Comprei um sapato e uma bolsa. Cheguei em casa, abri o armário, e bem no fundo, achei um vestido que eu nem lembrava da existência. Era vermelho, curto e com alguns brilhos delicados, e acima de tudo não era vulgar, mas delineava bem o corpo.
A campainha tocou, e obviamente eu atendi. Era Viola. Ela me arrastou até a sorveteria.
- Pode ir contando.
- Bom... Eu conversei com ele.
- E aí?
- Precisa responder?
- Sobre o que falaram?
- Sobre algo que ambos temos em comum, gostar de noite.
- E como ele foi?
- Extremamente hipnotizante. Completei uma frase dele, falamos em coro. Acho que talvez tenhamos alguns pontos em comum.
- E qual o nome dele?
- Não faço idéia.
- Você vai hoje novamente?
- Vou, que dúvida! – Ri.
- Mas , você não pode se deixar envolver por alguém que vive na noite!
- Por quê? Eu me torno como ele!
- E se ele, por exemplo... For casado?
- E se eu fosse casada?
- Você me confunde...
- Exatamente. É isso que eu gosto nele.
- O que isso tem a ver?
- Muita coisa...
Fiquei a observar o meu sorvete derretendo, era de chocolate com flocos. Não que isso fizesse alguma diferença, mas eu gosto.
- Mudando de assunto... Você vai à mostra com o Lorenzo?
- Vou! E que projeto você vai fazer?
- O da sua morte!
- Viola, ele não é um serial! – Eu ri da insistência inocente dela.
- Vai saber! Amanhã é o dia da sua morte, tenho que estar com tudo pronto.
- Está bem, está bem, tenho que comprar meu caixão. – Ironizei.
- Quer ajuda? – Os olhos dela brilharam – Conheço uma funerária com caixões lindos e...
- Viola, se mata! – Ri e peguei dinheiro na minha bolsa e fui pagando a conta.
(...)
Cheguei em casa ainda rindo das bobagens da Viola. Eram 19h, havíamos ficado no centro, caminhando, fora a hora em que ela me levou na funerária, e eu só fui porque se não ela não calaria a boca nem se fosse virada de cabeça para baixo. Jantei e assisti um filme, comendo chocolate até não agüentar mais. Nem prestei atenção no filme, minha cabeça estava na Piazza, no que viria a acontecer alguns minutos depois. Desliguei a TV sem nem terminar e coloquei uma roupa normal. Arrumei o cabelo de um jeito diferente, me olhei no espelho. Chequei o relógio e saí. Fui caminhando lentamente, fazendo caminhos diferentes, por outras passagens, pois realmente haviam milhares delas lá. A lua estava cheia, iluminava muito bem as ruas. Em razão disso, algumas luzes estavam apagadas, sendo somente as ruas, a água, e a luz da lua. Uma imagem realmente muito linda, que com certeza nunca seria apagada da minha memória, em vista também do que aconteciam nessas noites.
Cheguei até a Piazza, ele estava lá, apoiado com os cotovelos na grade, de frente para mim, e na sua mão, um lenço negro.
Y aprendí a quitar al tiempo los segundos, tu me hiciste ver el cielo aún más profundo.
- Boa noite senhorita. – Ele deu um sorriso de canto.
- Boa noite...
Hesitei um pouco, mas ousei e me aproximei sem que ele me pedisse. Parei ao lado dele, mas de frente para a água.
- A noite está linda, não acha?
- Sim... – Olhei para o céu.
Senti um vento fraco me trazer o doce perfume que ele tinha. Fechei os olhos e somente aproveitei o aroma. Senti sua mão gelada tocar minhas costas quentes acima do meu quadril, deslizando suavemente e levantei mais o rosto, na intenção de esquecer do mundo naquele momento.
- Você vê aquela estrela?
Abri os olhos, pude vê-lo perto. Olhei para o céu, e vi uma estrela realmente brilhante.
- Vejo.
- Ela é tão... Brilhante.
Pude ver em seus olhos o reflexo da estrela.
- É linda.
- E é tão primitiva, tão simples... Mas às vezes coisas simples – Ele pegou o lenço e estendeu-o em frente ao céu – Podem se tornar coisas com um enorme significado.
Ele fez alguns movimentos precisos com as mãos e em instantes, o que era um simples lenço, se tornou uma bela rosa negra.
- Para você. – Ele estendeu a rosa em minha direção.
Não consegui balbuciar uma sequer palavra. Tive capacidade apenas para estender a mão trêmula e pegar a rosa, olhando-a. Senti seu perfume, tão doce quanto o dele. Olhei para ele, respirei fundo, ainda encantada.
- Obr...Obrigada.
- Ela é tão negra quanto a noite, e fica tão linda quanto quando perto de uma estrela.
Só consegui sorrir. Ele realmente tinha algo o qual não sei explicar, ele era hipnotizante, encantador. Um cavalheiro. Uma garça vôou raso na água, e eu como pode-se prever, me assustei, apertando meus próprios braços.
- Não tenha medo, você não está sozinha. – Ele sorriu e segurou minha mão que estava apoiada na beira da grade.
- Mas ela estava vindo na nossa direção...
- Se você não demonstrar perigo, ela vai não vai lhe fazer mal algum. – Ele falou baixo, e subiu sua mão por meu braço, chegando até meu ombro.
- Isso é o que você acha... Talvez não saiba nada sobre ela.
Segurei sua mão e coloquei-a na grade. Segurei a rosa, sorri para ele, e desapareci por entre as passagens, como sempre fazia.

CAPÍTULO 9



O dia estava ensolarado, quase sem vento. Eram 16h e eu recém havia acordado. Desci as escadas saltando pelos degraus, terminando minha trajetória pelo corrimão. Caí sentada no chão, mas pouco me importava. Abri todas as janelas, dando um bom dia gritante ao mundo. Parei ao lado da mesa, onde ao centro estava um vaso com água e a rosa. Suspirei e respirei fundo. Pude sentir que os meus olhos brilhavam, algo que não acontecia há um bom tempo. Não sabia se era bom... Talvez fosse, ou não. Mas o que mais queria? Longe dos meus problemas, com novos amigos e um novo mistério. Isso sim me era bom.
Comi alguma coisa aleatória que encontrei na geladeira. A mostra começa às 18h, tinha de começar a me arrumar. Corri para o quarto, coloquei o vestido. Não o usava há bons 5 anos, mas era impressionante como cada dia parecia ficar melhor. Separei um par de sandálias de salto fino pretas, e uma bolsa discreta. Comecei a arrumar meu cabelo, fiz uma espécie de trança bagunçada misturada com um coque. Se tinha uma coisa pela qual eu era conhecida, era por fantásticos penteados acidentais. Comecei a fazer a maquiagem, preta, bem básica. Me dei por conta da hora quando a campainha tocou. Dei uma última checada, peguei a bolsa e desci correndo. Abri a porta e lá estava Lorenzo, de terno e gravata, com o cabelo colado na cabeça.
- Wow. – Ele disse me olhando de cima a baixo.
- Estou exagerada demais?
- Não, está na medida certa. – Ele sorriu e me estendeu o braço.
Encaixei meu braço no dele e fechei a porta. Fomos a pé mesmo. Todos nos olhavam, mas não estávamos nos importando muito. Já era pôr do sol, o fim de tarde estava realmente muito lindo. Acho que ambos não tínhamos todos os parafusos na cabeça, sapateamos metade do caminho, na outra pulamos. Chegamos na esquina do local e parecemos nos transformar em pessoas totalmente sérias. Fomos recebidos por um homem, que falou sem parar sobre algumas coisas sem importância.
As pessoas estavam todas arrumadas, com taças em mãos. Olhavam fotos, conversavam, eram fotografadas. Fomos até um grupo de pessoas, onde todos o cumprimentavam e faziam-lhe propostas, enquanto eu só ria e comia os petiscos que passavam em bandejas.
Fiquei observando as pessoas enquanto Lorenzo explicava sobre as suas estratégias de sucesso entre outras coisas. Ao longe vi Tommaso, acompanhado de pessoas bem vestidas. Tinha uma cara de metido, mas não deixava de ser bonito, e com certeza não chegava nem perto do... Enfim. Tommaso chegou no grupo onde eu estava.
- Boa noite a todos! – Ele abriu um sorriso enorme.
- Boa noite! – Respoderam todos em coro.
Ele começou a cumprimentar Lorenzo, e conversar com os empresários e as pessoas que ali estavam. Tinha uma boa perspectiva sobre as coisas, sabia um pouco de tudo, e falava de um modo culto. Pude perceber que não tirava os olhos de mim, o que era ao mesmo tempo que agradável um pouco incômodo, visto que todos ali estavam percebendo. Sentindo que ele não pararia resolvi tomar parte.
- Vou tomar um ar Lore, volto já! – Ele sorriu e acenou positivamente com a cabeça.
Sorri para todos e fui indo em direção ao terraço. Pude ouvir comentários do estilo “ É sua nova namorada?” e coisas do tipo. Segui de cabeça fria, o que os outros falavam realmente não me importava. Cheguei no terraço, a noite já havia caído. Aquelas estrelas me traziam várias sensações, coisas que eu não sabia bem explicar. Estava em parte concentrada em meus pensamentos até sentir alguém tocar minha cintura. Me virei e era ele, Tommaso Vasallo, em pessoa.
- Boa noite! – Ele sorriu.
- Boa noite! – Respondi no mesmo tom de voz, sorrindo também.
- Você é...?
- !
- Sou Tommaso, prazer! – Ele sorriu e estendeu a mão.
- Prazer! – Apertei a mão dele.
- Você é namorada do Lorenzo?
- Não não! – Ri – Somos só amigos.
- Achei que namorassem, mas então... O que faz da vida?
- No momento nada! – Ri – Faz pouco tempo que cheguei em Veneza.
- Hum... Então você é de onde?
- Brasil!
- Nossa! Sempre quis ir para lá!
- É lindo. – Sorri – E você, faz o que?
- Faculdade de direito!
- Hum, parece bom.
- Não me leve a mal, mas você é muito bonita. – Ele sorriu.
- Ah... Obrigada. – Fiquei meio sem jeito.
- Quer entrar e tomar alguma coisa?
- Pode ser! – Sorri.
Entrei ao lado dele no salão, e boa parte dos olhares femininos se voltaram para mim. Estava ao lado de um dos mais ricos, bonitos e desejados homens da cidade, sendo que eu nunca fui nada de mais. Sentamos em um dos bancos prateados à beira de um balcão. Começamos a conversar sobre tudo, pude perceber que não era tão metido e nem fechado como diziam. Um homem acenou chamando-o.
- Enfim , vou lá. Nos vemos em breve, para te dizer a verdade te vejo sempre. Nos falamos. – Ele sorriu, me deu um beijo na mão.
Fui até Lorenzo que não escondia nem um pouco sua surpresa.
- Eu vi mesmo? – Ele abriu a boca.
- Depende. – Ri.
- Ele tomou parte em falar com a senhorita e ainda lhe beijou a mão?
- Sim... – Ri meio sem jeito.
- A primeira! Amanhã meia cidade estará sabendo, e depois a cidade inteira. Ele não é de fazer essas coisas, você foi a exceção.
- Nossa... Mas ele é bem conversável, se é que você me entende.
- Sim... Ele parece fechado.
- Mas não é... Ele me elogiou até!
- O que ele disse?
- “Não me leve a mal, mas você é muito bonita.” – Disse fazendo uma cara de garanhão e uma voz masculinizada.
- Vou colocar isso no jornal, você merece!
Ficamos conversando até as 23h, entre pessoas bem arrumadas, flashes e mil propostas. Jantamos, bebemos, rimos. Conheci algumas pessoas interessantes naquela noite, e isso inclui Tommaso. Melhor dizendo, começo de noite, ela estava apenas no início. - Entre! – Lorenzo me indicou uma gôndola.
- Não obrigada Lore, vou a pé.
- Você é louca?
- Não, porquê?
- Andar só pela noite...
- Não, e por favor não me questione.
- As ordens madame, qualquer coisa me ligue!
Ele sorriu e entrou no carro. Caminhei pelo centro, bem vestida. Já estava tudo vazio, as lojas fechadas, as luzes acesas e a noite brilhando.
Parei no meio da calçada, girei de braços abertos. Minha, só minha, a noite me pertencia. Talvez não só a mim, mas não me importava de dividí-la. O vestido era leve, balançava com o vento. Levantei o rosto, olhei para o céu. Levei um susto ao sentir algo tocar minha cintura, mas o vento me trouxe um perfume que de olhos fechados reconheceria. Me soltei tranqüila, estava segura.
Y siento, algo en ti, algo entre los dos, que me hace insistir. Cuando miro en tus pupilas se que Dios no dejo de existir.
Senti-o envolver seus dois braços em minha cintura, me prendendo. Sorri. Me sentia tão bem, não sabia explicar.
- O que faz aqui? – Ele falou baixo, me arrepiando.
- O que você faz aqui? – Dei ênfase no você.
- Estava passando e vi uma pessoa. E por aqui não há mais ninguém que não seja você, pelo menos a meu nível de interesse não.
- Eu acabo de sair de um evento... Estava indo para a Piazza.
- Dê-me a honra de te acompanhar?
- Toda.
Seguimos andando um ao lado do outro, em silêncio. As estrelas brilhavam nos olhos dele, como sempre faziam. Um vento forte soltou meus cabelos, dando um movimento bonito a eles.
- Você está muito bonita hoje. – Ele disse baixo, sorrindo de canto.
- Ah... Obrigada. – Sorri sem jeito.
- Você está sempre bonita, então isso nem vale como um elogio, não precisa agradecer senhorita.
- Er...
- Não fale nada. – Ele tocou o dedo indicador nos meus lábios, como forma de pedir que eu me mantesse em silêncio.
Parou em frente a piazza, no meio de uma ponte. Encostou-me violentamente na grade, fazendo um impacto me estremecer. Colocou uma mecha do meu cabelo para trás da minha orelha, levantou o meu rosto com a mão, delicadamente. Correu a mão por meu pescoço, chegou até a minha nuca, empurrando-me para o lado, deixando meu pescoço a mostra. Senti seus lábios quentes tocarem meu pescoço, me arrepiando inteira, envolvi meus braços sob seus ombros, segurando-o forte. Beijava forte meu pescoço, mordia de leve, me causando as mais diversas sensações, e entre todas a mais forte, o desejo. Semicerrei os olhos, mordi os lábios na intenção de amenizar o que sentia. Com uma de suas mãos me abraçou a cintura, a outra continuava a mexer nos meus cabelos. Milhares de coisas me vinham à mente, e a única coisa que eu queria, que me gritava, era sentir seu gosto, tocar seus lábios.
Como se adivinhasse, ele se aproximou mais de mim, colando nossos corpos que antes já estavam juntos. Tocava agora meu rosto, sua mão era quente e leve. Senti uma energia passar de seu corpo para o meu, mas algo diferente, anormal. Seu rosto se aproximou do meu, senti sua respiração junto da minha, próximas, compartilhadas. Toquei seu cabelo, e seu rosto se aproximou mais ainda.
Seus lábios tocaram levemente os meus. Ouvi um barulho alto, senti um estalo atrás de minhas costas. Me assustei, meu corpo fez menção de cair para trás, no vazio. Os canais de Veneza eram extremamente fundos e imprivisíveis, perigosos. Fechei os olhos e senti-o me segurar, em um ato impulsivo e certeiro. Ouvi o som do pedaço da grade caindo na água e afundando até desaparecer. Abracei-me a ele, ainda um pouco assustada. Me segurou forte.
- Acalme-se, foi só um acidente. – Me abraçou forte, falando baixo.
Senti-me bem ali. Perdia o medo quando estava com ele, ele me protegia. Olhei no relógio, 3h10min da madrugada. Ousei e dei-lhe um beijo no rosto, e como de costume, sumi por dentre as casas.

CAPÍTULO 10



Acordei de susto. Pulei da cama e corri até a janela. Abri e o sol já batia no meu rosto, forte. Eram 14h.
- Já lhe atendo Viola! – Gritei da janela.
Troquei de roupa e desci as escadas saltitante, bati de lado na parede e abri a porta meio tonta.
- Você está viva! – Ela gritou boquiaberta.
- Sim, estaria como?
- Morta.
- Bela conclusão.
- Bela pergunta, isso sim! Você o viu essa noite?
- Vi! E ele teve a oportunidade perfeita de me matar e me salvou.
- O que houve?
- Estavamos em um climinha ótimo que foi cortado no momento que a grade atrás de mim se rompeu e eu quase caí no canal principal. Teria caído se ele não tivesse me segurado.
- E...Ele te segurou?
- Sim, e me abraçou.
- Então ele não é um serial...
- Certamente não.
- Mas pode estar deixando para te matar depois...
- Faz-me rir Viola!
- Você não sabe nada sobre ele, não pode afirmar que não é...
- E nem que é...
- Você não tem curiosidade de saber quem é ele?
- Sinceramente? Não.
- Mas e se...
- Se for, tudo bem, é.
- Ok então... Vamos para a praça encontrar todos.
- Vou pegar minhas coisas e vamos.
Peguei minha bolsa em cima da mesa e saímos. Tentei espairecer o máximo possível, não pensar nele. Tinha que aproveitar o dia, não podia viver só a noite. Chegamos na praça, e lá estavam Lorenzo e Chiara no mesmo banco. Pra ser mais exata todos de sempre nos mesmos bancos, pareciam certos, como se cada lugar pertencesse a um bando de pessoas.
- Bom dia! – Cheguei sorrindo e me sentei ao lado deles.
- Bom dia senhora Vasallo! – Chiara me cumprimentava rindo.
- Porque Vasallo?
- Não se faça de sonsa ! Toda a cidade já sabe de você e o Tommaso! – Lorenzo ria.
- Mas eu nem fiz nada com ele! – Estava meio pasma.
- Mas ele é Tommaso, ! Não precisa fazer nada, é só falar com ele.
- Chiara minha querida, ele nem é nada de mais.
- Você que acha! – Ela riu.
Ficamos conversando por um bom tempo sobre nada. Era muito bom falar com eles, me sentia muito a vontade. Todos ficaram em silêncio, só Lorenzo falou.
- Só observem. – Ele riu.
Senti uma mão tocar meu ombro, e me virei para ver.
- Boa tarde ! – Tommaso sorriu, Chiara babou.
- Boa tarde Tommaso! – Respondi sorrindo.
- Passou bem a noite?
- Sim, e você?
- Também! Enfim... – Ele se abaixou, eu estava sentada – Gostaria de saber se você quer almoçar comigo amanhã?
- Er... Ah... Claro! – Sorri bonito.
- Então ótimo! – Ele falou animado, o que assustou todos inclusive ele – Me passe seu endereço, te pego às 12h. – Falou recompondo seu tom de voz.
Dei meu endereço para ele, que sorriu e voltou para onde estava. Todos me olhavam, e eu já estava com vergonha.
- Eu quero ser você. – Chiara coçava os olhos.
- Nossa, estou poderosa.
- Está mesmo! Tommaso te chamou para... Sair!
- Viola, nem é nada de mais.
- Ele gosta de você, ai! – Chiara se abanava com a mão.
- Vocês que são uns escandalosos e exagerados. – Ri e me levantei – Quem topa ir lanchar comigo? Não comi nada ainda! – Fiz cara de esfomeada.
Todos riram e foram comigo até uma lancheria aleatória das mil que haviam ali. O centro era realmente bem movimentado. Minha cabeça estava meio cheia, precisava comer. Primeiro, ele. Agora, Tommaso. Não podia recusar, era minha oportunidade de “me divertir” de dia, ia tentar levar o que fosse acontecendo enquanto não atrapalhasse meu passatempo predileto. Comi como um cavalo. Não que cavalos comam como eu, mas foi apenas uma comparação. Ficamos falando sobre nada e comendo. Acho que bati meu recorde, tomei 3 capuccinos.
Enfim, saímos de lá, e eu mal conseguia caminhar, me sentia uma bola com pernas.
- , você triplicou de tamanho.
- Obrigada pela sinceridade Viola. – Todos riram.
- Mas é verdade, você é toda magra e agora está uma bolinha.
- Você é muito sensível.
- Obrigada! – Viola sorriu e sentou-se no banco.
Naquela hora eu já estava pensando na noite. Não saía da minha cabeça, estava realmente me infernizando. Ele tomava conta de mim, de cada cantinho escondido. Fazia tão pouco tempo, mas era como se eu o conhecesse a séculos, difícil de explicar, e complexo de entender.
Ficamos ali na praça até mais ou menos as 16h. Chiara não parava de comentar sobre como Tommaso me olhava, e não pude deixar de reparar que ele realmente estava com o olhar fixo em mim. Ela também ficou dizendo que queria ser eu mais de 50 vezes. Nunca ninguém teria desejado ser eu. Minha vida estava realmente do avesso, o que devo convir que era realmente bom.
- Pois é Viola. Minha vida está perfeita.
- Ao que me parece não somente está como é perfeita.
Estavamos voltando as duas juntas e como de costume fazendo um caminho maior e diferente dos que fizemos nos outros dias.
- Não era boa assim não... Eu nunca tive muita sorte, sempre fui muito azarada em certos pontos. Por exemplo o Tommaso. Alguém como ele a um tempo atrás nunca me chamaria para sair.
- Nossa, achei que sua vida sempre havia sido assim.
- Não não, esses últimos dias que tem sido bons mesmo! Faz pouco que cheguei aqui, e sinceramente não quero ir embora.
- Agora você entende porque quem vem não quer ir. – Ela riu.
- Realmente. Vamos ver até quando toda essa perfeição vai durar.
- Pelo menos ele não te matou.
- Poupe-me de seus comentários sobre morte e seriais. Obrigada. – Ri.
- Se você não vier a falecer, eu não vou ter um projeto... – Ela fez uma cara triste.
- Adoro a sua sensibilidade, já lhe disse isso não é?
- Disse, essa deve ser a milhonésima vez.
- Mas então, adoro a sua sensibilidade.
- Percebe-se, sou sensível demais! – Ela sorriu vitoriosa.
- Santa inocência. – Ri.
Chegamos até nossas casas, ficamos vendo TV e falando bobagem na casa dela. Em pouco tempo havia se tornado uma grande amiga, confiava muito nela. Voltei para minha casa, me joguei na cama.
(...)
Saí de casa sorrindo. A noite havia caído, e isso com certeza é algo o qual eu esperei o dia inteiro.
A noite estava linda, o céu limpo, cheio de estrelas, e meia lua. Talvez não a veja inteira, mas sei que está lá, todas as noites. Fiz meu caminho de costume, cheguei até a Piazza. Estava vazia. Sentei-me apoiada na grade, fiquei observando a água. Uma neblina parecia pairar acima de tudo. Joguei uma pedra, ouvi o barulho agradável da batida na água, e a vi afundar até sumir. Fiquei assim por um bom tempo, só observando a noite. Ouvi o som de uma corda de violão, e nisso, perdi minha concentração.
Antes de conocerte el mundo era plano, aunque lo discuta usted Señor Galilei.
- Boa noite senhorita. – Aquela voz doce e séria me soava como música.
- Boa noite. – Falei me virando na direção em que ele estava.
Estava ali a um bom tempo, ao que parecia. Estava sentado em uma janela somente me observando, com um violão e um sorriso a tiracolo. Desceu da janela e foi até onde eu estava. Sentou-se a meu lado.
- Bonita noite, não acha?

- Todas as noites são bonitas por aqui. – Sorri.
- Devo concordar. Não eram há um tempo atrás.
- Por quê?
- Com o tempo você entende.
- Acho que entenderia se...
- Se?
Ele não estivesse lá. Talvez a noite fosse vazia.
- Não sei explicar.
- Acho que existem coisas que não precisam de explicações.
- Há um tempo atrás eu precisava de explicações para tudo. Mas vejo que...
- As coisas mudam. – Ele falou por cima do que eu iria dizer, que no caso era isso.
- Pois é...
Ficamos um tempo em silêncio. Ele dedilhou algumas cordas de seu violão e começou a tocar aquela melodia sem letra, mas que era incrivelmente linda e encantadora.
- Foi você que compôs a melodia? – Ousei interrompê-lo.
- Sim. – Ele sorriu.
- É linda, mas... Não tem letra.
- Obrigada. Essa melodia surgiu sem planos, por acaso. E não vai ser diferente com a letra... Pretendo colocar algo que signifique muito para mim, uma letra que se encaixe no que eu sinto.
- Não sei... Pelo jeito que você se expressa, talvez não seja tão difícil transformar sentimentos em palavras.
- Realmente... Mas se torna difícil quando você não sabe o que sente, ou está experimentando um sentimento desconhecido.
Devia concordar com ele. Eu não sabia o que estava sentindo, nunca havia me sentido assim. Era algo imenso e ao mesmo tempo que confortante, incômodo. Era doce e amargo, desesperador e calmo.
- Compreendo.
- Algo que eu estou certo, é que quando a letra vier, muitas coisas se darão por esclarecidas em mim.
- Questão de tempo.
- Exato.
- Sabe, essa sua melodia é linda, ela inspira algo que me lembra Veneza... Mas falta algo nela, ela está meio... Vazia.
- Falta a letra. A letra completa a melodia e vice versa. Nada é completo sozinho.
Senti sua perna tocar a minha, sem receios, sem vergonha alguma. E obviamente, não iria fugir dali, cada dia mais estava disposta a me arriscar.
- É mesmo... Talvez a noite não fosse nada sem o dia.
- Se não houvesse o dia, a que horas iriamos esperar pela noite? – Sorriu.
- Não teria tanta graça. – Respondi na mesma intensidade.
- Hum... Então quer dizer que tem graça? – Ele deu um sorriso de canto, que me engasgou as palavras.
- Cl...Claro! A noite sempre tem graça, você sabe, estrelas, céu, escuro...
Senti meu rosto corar. Era perceptível que era isso que ele queria, e havia conseguido. Tudo bem, eu havia me entregado naquela frase.
- Com certeza. – Ele riu – A noite sempre tem graça, ainda mais agora.
Corei novamente. Ele sorriu, e eu derreti, mas mantive uma expressão firme. Olhei para o céu, e depois para ele. Sorri, levantei-me, e segui até o meio das casas, como sempre desaparecer. Senti-o me segurar pelo braço. Puxou-me e me abraçou. Segurava firme minha cintura com um braço, e com a outra mão, afagava meus cabelos. Eu poderia morrer ali que não importaria. Seu perfume me deixava sem controle, parecia que me desconectava por inteiro. Seu toque era leve e delicado, ao mesmo tempo forte e certeiro.
- Buona notte. – Ele falou baixo, perto de meu pescoço.
- Boa noite.
Aos poucos me soltou. Sorri, e sumi por dentre as casas.

CAPÍTULO 11



Caí da cama violentamente, fazendo o chão de madeira rangir. Há anos não ligava um despertador e tampouco ouvia aquele som estridente que havia me perturbado por longos 7 anos – no caso do meio do fundamental até o fim do colegial – e que convirei que me irritava profundamente. Num ato impulsivo joguei-o na parede, estraçalhando o relógio. Me levantei cambaleante e tomei uma ducha. Depois, já consciente, recolhi o que restava do relógio, praguejando o momento em que o joguei na parede, agora de horários só meu pulso entendia.
Coloquei uma roupa média, uma blusa, uma jeans e minha sapatilha. Deixei os cabelos soltos, coloquei acessórios. Olhei meu relógio de pulso – agora o único – e desci correndo ao ver que já eram quase 12h, mais precisamente 11h58min.
Fiquei na sala organizando as frutas e olhando o relógio. Exatamente 12h, a campainha tocou. Tommaso havia chegado. Ri sozinha ao imaginá-lo parado em frente à porta cuidando o horário para que no momento que o ponteiro dos segundos passasse pelo tracinho final do seu relógio caríssimo com números romanos ele tocasse a campainha e se mostrasse extremamente pontual. Abri a porta.
- Olá ! – Tommaso sorriu, e isso ele fazia bem.
- Olá Tommaso!
Fechei a porta e saí com ele. Me dirigiu até um carro. Meu queixo caiu por um instante, pude ver o brilho dos meus olhos refletir no negro capô do veículo. Uma BMW. Nada mais, nada menos do que o carro que eu sempre havia sonhado.
- Entre! – Ele sorriu convidativo e abriu a porta do carro para que eu entrasse.
Sentei-me, e ele entrou do outro lado, sentando-se e tomando parte da direção.
- Desculpe perguntar, mas onde nós vamos? – Sorri sem jeito.
- Você verá.
Fomos conversando durante todo o percurso, e devo dizer que ele não é como parece, e como fala bobagens, nossa, é muito engraçado e sabe ser convincente quando quer.
Parou o carro. Abriu a porta para mim, estávamos em frente a um restaurante de uma aparência bem... Cara.
- É aqui! – Ele sorriu enquanto eu saía do carro.
- Nossa, é encantador! – Nem sabia o que dizer.
Entramos, sentamos em uma mesa mais afastada, em uma área aberta, com flores entre outros atrativos. Fizemos nossos pedidos para um garçom bem arrumado, que foi bem educado, também, não fazia mais do que seu trabalho.
- O que achou daqui?
- Muito bonito! – Sorri.
- Que bom... – Ele sorriu-me de volta – Mas enfim, você tem namorado?
- Er... – Não tinha uma pergunta mais indiscreta não? – Não tenho... E você, tem namorada?
- Não... – Ele baixou a cabeça, acho que não esperava que eu rebatesse a pergunta.
- Hum... – Não sabia o que dizer, embora soubesse de sua última namorada.
- A minha última namorada, ela... – Ele respirou fundo – Me deixou por um desconhecido, depois ela sumiu...
- Nossa... – Tentei parecer surpresa – Que insensibilidade...
- Tudo bem que ela tivesse me deixado, mas assim, sem explicações...
- É falta de consideração... – Não sabia o que dizer, e as reticências imaginárias no fim das frases estavam me afligindo – Olha, os nossos pedidos estão chegando! – Mudei de assunto e sorri.
- É! Vamos comer! – Ele sorriu, pareceu mais tranqüilo pela mudança de assunto.
Ficamos ali comendo, conversando e rindo. Algumas pessoas olhavam, mas nenhum de nós dois estávamos nos importando com qualquer coisa que não viesse de nós mesmos. O garçom trouxe um papel que pousou sobre nossa mesa, a conta.
Peguei-a e virei.
- Meu Deus, isso é uma fortuna! – Pensei.
Peguei minha bolsa, fiz menção de pegar minha carteira, mas Tommaso segurou a minha mão.
- Você não pensa que vai pagar, não é?
- Penso!
- Mas não vai, eu não deixo.
- Mas eu...
- Você vai somente sorrir e dizer “ É claro Tommaso, você pode pagar a conta!” – Ele fez uma voz feminina.
- É claro Tommaso, você pode pagar a conta! – Ri.
Ele conseguia me fazer rir, um ponto para ele. Saímos de lá e ele deixou-me em casa.
- Bom, foi ótimo almoçar com você. – Dei o sorriso mais sincero que pude.
- Então se eu lhe convidar para sair de novo você aceita? – Os olhos dele brilharam.
- Claro que sim! – Sorri, dei-lhe um beijo no rosto e entrei.
(...)
- Eu não acredito! Você nasceu com a sua redonda bundinha para a lua .
- Não exagere Viola. Ele nem é nada de mais!
- Ah é, já esqueci que você só tem olhos para o garoto misterioso que completa suas noites vazias. Falando nele, aquela rosa em cima da mesa está murcha já.
- Isso quer dizer alguma coisa?
- Sim, que ela está murcha.
- Santa inteligência.
- Eu surpreendo as pessoas, eu sei!
- Grande modéstia!
- Obrigada. – Ela sorriu – Nem vou lhe perguntar se você vai vê-lo hoje.
- Enfim você está aprendendo! – Ri.
- Não se contenta só com o Tommaso?
- Me diga, você prefere 8 ou 80?
- Depende.
- Exato, eu prefiro 80, mas o 8 é pouco mas ainda conta.
- Você me confunde.
- Estou aprendendo com ele. – Sorri vitoriosa – Mas sendo mais simplificada, o Tommaso não é nem metade do que ele é.
- Nossa. O Tommaso é um deus, o garoto deve ser algo inexplicável.
- Tão inexplicável que eu nem sei explicar. – Ri da besteira que disse.
- Genial.
- Eu sei, obrigada. – Ri.
- Mas você nunca pensou no fato de ele não...
- Sentir o mesmo?
- É.
- Já, até mais do que deveria. Não quero gostar dele.
- Não queria, seja mais exata.
- Viola, eu não posso.
- Você não deve. Mas isso não quer dizer que não possa e que não esteja.
- Mas é muito pouco tempo Viola...
- Assuma, você sente algo por ele.
- Sim, eu sinto, mas não sei o que.
- Sabe mas esconde, está na sua testa, não dá para disfarçar.
- Nossa.
- Viu? Olhe por exemplo a rosa em cima da mesa. Vai se despedaçar daqui a pouco, vai apodrecer se bobear, e vai continuar aí. Quer melhor explicação do fato de você sacrificar seu sono, e das poucas horas que dorme ser atormentada por ele nos sonhos? De correr risco indo todas as noites lá, de ficar aérea?
- Você venceu Viola, eu aceito, eu gosto dele. Mas me condeno por isso.
- Não se condene , somente goste.
Ela foi embora e eu fiquei ali imersa em meus pensamentos. E agora? Eu estava realmente gostando dele, e isso não era nada bom, levando em conta o fato de ele ser algo o qual não decifraria nunca.
(...)
Terminei de comer o meu cacho de uvas verdes. Eram lindas e saborosas, o que me encantava. Troquei a roupa, coloquei meus tênis de guerra, peguei meu lenço, fiz uma trança no cabelo e saí. Noite, minha querida noite. Tão melancólica e misteriosa, vazia e completa, imensa e indecifrável. A única coisa que conseguia fazer naquele momento era comparar o brilho daqueles olhos ao das estrelas, era como se fossem o mesmo. A escuridão me trazia o toque quente das mãos, o perfume doce, algo com um significado imensamente maior do que se pode explicar.
Es poco lo que te conosco y ya pongo todo el juego a tu favor. No tengo miedo de apostarte,perderte si me da pavor.
Parei para pensar... Se ele sumisse, Veneza perderia a graça. Não havia pensado em como ele havia me viciado em tão pouco tempo. Estava em meu caminho rotineiro até a Piazza. Senti como se alguém me seguisse, e raramente, para não dizer nunca, me enganava.
- Alguém está aí? – Gritei.
- Shhh. – Algo me soprou, algumas casas antes.
Olhei para trás na mesma hora, e estava vazio. Ouvi passos.
- Psiu...
Olhei para trás, tudo vazio. Uma onda de medo me invadiu o corpo, não sabia o que poderia ser. Cheguei e parei no meio da Piazza. Senti o ser se aproximar, parou colado em mim. Senti sua respiração ofegante em meu pescoço, e segurei-me para não afrouxar as pernas.
- Mon amour... – Ele falou baixo, me fazendo tremer.
Mantive-me sem palavras, em silêncio. Senti seus braços envolverem minha cintura, entrelaçando as mãos, prendendo-me. Coloquei minhas mãos sob as suas, acomodei-me em seu abraço. Cerrei os olhos, mordi o lábio tentando amenizar o que sentia, o desejo de tê-lo para mim.
- Venha...
Pegou-me pela mão e me levou até a beira da Piazza, apoiamo-nos na grade e ficamos em silêncio.
- Seus olhos estão mais bonitos do que já são por estes últimos dias... – Nos olhávamos pelo reflexo na água.
- O...Obrigada. – Sorri gentilmente.
- Não precisa agradecer! – Ele sorriu me fazendo quase cair dentro da água – O que é belo tem de ser dito.
- Er... Se eu fosse falar de tudo que é belo em você.
Senti meu rosto corar violentamente. Escapou! Sabe o que é fugir? Pois é, eu sei.
- Devo convir que... Que sua ap... Aparência é ótima, de olhos be... Bem desenhados! É isso, olhos bem desenhados! – Gaguejei demais, estava com muita vergonha, e quanto mais tentava concertar mais piorava.
Levantei o rosto e vi que ele sorria. Sentia meu coração bater forte, como se fosse sair pela boca, meu corpo gelou. Segurou-me delicadamente pelo queixo, virando meu rosto para o seu. Senti-o se aproximar, e fiz o mesmo, desejava-o e não tinha vergonha disso. Quer dizer, um pouco. Sua respiração já perturbava a minha, e seus lábios selaram-se nos meus, ainda sorrindo. As bocas estavam unidas, apenas se tocavam, o calor passava de um corpo para o outro.
Nos separamos de susto, olhando para todos os lados.
- Isso foram passos? – Perguntei.
- Foram. – Ele olhava para cada canto.
- Te...Tenho que ir.

CAPÍTULO 12


Acordei e joguei-me da cama, direto para o chão. Senti uma pontada de dor, mas não importava. O pouco de noite que tive, não havia conseguido dormir, perturbou-me o fato de alguém ter nos visto. Queria saber que passos eram aqueles, quem havia nos seguido ou como havia ido parar ali, enfim. E mais uma vez algo havia atrapalhado meu momento. Acredito que as coisas acontecem quando devem acontecer, mas... E outra coisa, não estava nem um pouco disposta a dividir a noite com mais alguém, sempre fui egoísta, ainda mais se tratando de algo maior que balas ou quem sabe chocolate.
Eram 10h da manhã, meu recorde do que se refere a acordar cedo. Tomei um café caprichado, sentei no sofá e fiquei vendo a mesa, com a rosa. Levantei-me, peguei na estante um livro enorme e bem grosso, antigo, meio empoeirado, mas mesmo assim meu favorito “Venecia”. Lembro do dia em que o encontrei, em uma estante do escritório de meu avô, entre os milhões de livros que lá se encontravam. A capa de veludo bordô com detalhes em preto e dourado obviamente chamariam atenção de uma criança de 8 anos, e assim o fizeram. Peguei o livro e li-o mais de mil vezes, mas nunca me cansei. Um romance obscuro e de amor verdadeiro, uma história perfeita, embora sem final feliz. Antes de falecer, meu avô me disse que aquele não era o último livro, que havia outro que o completava, e talvez assim a história tivesse um bonito final, e também que aqueles livros eram únicos, raríssimos e com um valor material e emocional muito grandes. Procurei incessantemente a outra parte, mas nunca a encontrei, e sempre temi nunca conseguir lê-la.
Abri o livro pela metade, coloquei-o sobre a mesa, e entre as folhas coloquei a rosa. Fechei-o. Nunca me desfaria desse livro, e com certeza, ali era o melhor lugar para conservá-la em segurança. A campainha tocou, era Viola. Era impressionante como por ali eu não passava quase nenhum minuto sozinha. Sempre havia uma pessoa para me fazer compania, me fazer rir ou até me acordar.
- ... Você vai querer ver isso.
Ela me estendeu a mão, um jornal, aparentemente daquele dia. Li algumas frases, e observei a imagem. Senti meu coração apertar, realmente, a realidade nunca havia sido muito gentil comigo.
- Eu... Não acredito.
- É ele?
- Não sei Viola, o corpo está virado... Mas ouvimos passos ontem a noite...
Meus olhos se encheram de lágrimas, tentei disfarçar.
- Você não viu nada?
- Não, saí correndo ao ouvir passos... Não pode...
Baixei o rosto.
“Corpo de garoto é encontrado em um beco em Veneza.
O corpo de um garoto de aparentemente 19 anos foi encontrado entre duas latas de lixo em um dos mil becos, perto da Piazza Nero. Parecia ter sido vítima de torturas e foi esfaqueado na zona do peito.”
- Acalme-se ... Não fique nervosa, quem sabe não seja... – Viola me abraçou.
- Se for... Vou embora de Veneza.
- Não! Nem pense em dizer isso! Você tem mais a fazer aqui!
- Viola... É muito mais do que você imagina... De qualquer forma, vou lá hoje.
- É arriscado! Seja lá quem for, o assassino está solto...
- Pouco me importa. E nem tente me fazer mudar de idéia.
(...)
Almocei, e convirei que passei o dia todo meio abalada. E se fosse ele? Tudo bem, eu não tinha nada com ele, embora sentisse algo por ele. Ele é o único garoto por quem senti algo assim, mas se estivesse morto... Não sei o que faria. Sinceramente, seria crueldade da vida comigo. Peguei um papel e meu violão, escrevi uma canção. Era o momento perfeito de colocar tudo que eu sentia para fora, o meu desejo, a minha mente confusa. Coloquei em um pedaço de papel velho tudo que sentia, tudo que poderia sentir. Sempre foi difícil para mim falar de amor, paixão, e nunca vai deixar de ser. Por cima dos sons, sempre foi o jeito mais fácil de mostrá-lo, de expressar e me sentir mais leve. A única outra coisa que me deixava mais leve por aqueles dias, era ele. Era como se fosse uma válvula de escape, alguém que pegava minha dor para si. Senti-lo perto me fazia muito bem, mais até do que eu mesma imaginava.
- Alô? – Atendi o telefone que tocava – Tommaso! Estou bem sim... Ah claro! Até amanhã então! Um beijo.
Desliguei. Acabara de ser convidada para andar de Iate pela tarde do outro dia. Obviamente aceitei. Só esperava ter motivos para sorrir nem que fosse falsamente. Seria bem desagradável sair com ele se as coisas não fossem bem pela noite.
(...)
Fiz a comida do dia anterior descer garganta a baixo mesmo estando sem fome alguma. Estava sentada a mesa, sozinha, como sempre fazia no Brasil. E sinceramente não sentia falta disso. Apertei meus olhos na intenção de não lembrar de algumas coisas passadas que ainda me perturbavam. Ali era somente eu e eu, tinha de me virar sozinha e agüentar, respirar fundo e seguir a minha vida. Além de tudo tinha meus novos amigos, me seriam muito úteis nessas horas, mas naquela não, pois eram 23h25min, provavelmente estivessem dormindo. Coloquei meus tênis, um chapéu, enfiei a chave no bolso e saí.
A noite estava incrivelmente linda. O céu extremamente estrelado, nunca entendi como cabiam tantas estrelas lá. A lua estava redonda e iluminava muito bem cada canto daquele lugar, fazendo até com que algumas lâmpadas da rua estivessem apagadas. Não ouvia algum sequer ruído, estava tudo silenciosamente calmo, ao ponto de parecer até um pouco assustador. Ouvi passos quando cruzava uma ponte, senti minhas mãos gelarem e meu coração disparar. Embora me arriscasse, sinceramente não gostaria nem um pouquinho de acabar minha vida por ali. Apertei a grade com a minha mão, tentando extravasar o nervosismo que começou a me percorrer ao perceber que os passos agora eram constantes. Não consegui sequer ousar olhar para trás, tinha medo do que veria. Tentei afastar os maus pensamentos. Sempre ouvi dizer que pensamento positivo afastava coisas ruins e aquele momento era perfeito para experimentar. Alguns minutos caminhando e os passos ainda me seguiam, cada vez mais perto. Mordi o lábio, nervosa. Senti um gosto predominante de sangue com chiclete de menta, havia mordido-me demais, estava oficialmente com medo. Caminhei mais rápido, cada vez mais aumentava minha velocidade. Fiz umas curvas, e o ser ainda me seguia. Senti o sangue ferver, saí correndo. Pulei um canal extremamente fino, segurei-me na grade, corri mais umas quadras. Cheguei até a Piazza em passos apressados, e como temia, estava vazia.

CAPÍTULO 13



Meu pânico de perder as pessoas de quem gosto começou a me perturbar. Apoiei-me na grade exausta, tanto fisica como emocionalmente. Olhei a para a água negra, que refletia um certo desespero em meu rosto. Estava nervosa, por medo de ser ele no jornal, e por medo de ser seguida e quem sabe morta. Ouvi passos e senti meu coração estalar. Fechei o punho sentindo minhas unhas machucarem minha mão. Olhei para a água, que parecia um grande espelho. Senti alguém se aproximar, fechei os olhos. A pessoa parou atrás de mim, abri os olhos, pude ver o reflexo na água.
Un cielo negro como el agua de tu amor.
Em um impulso, abracei-o o mais forte que pude, e inconscientemente me aconcheguei em seus braços, apoiei a cabeça em seu peito, como uma criança que tem medo de um monstro.
- Você está bem? – Ele mexeu em meu cabelo, que estava amontoado em seu braço.
- Me...Medo. – Foi a única coisa que consegui dizer.
- Vem.
Ele me pegou pela mão, me levou até uma janela que ali havia. Me segurou pela cintura, me levantando e me colocando sentada na janela, sentando junto comigo e me abraçando de lado.
- O que houve senhorita? – Era impressionante como sempre era cortês.
- Bom... – Respirei fundo buscando ânimo – No jornal... O garoto morto, eu achei que era v... Valente!
- Valente? – Ele pareceu confuso.
- Eu achei que foi valente da parte dele sair pela noite... – Desconversei mas não funcionou – Enfim, achei que era você.
- Nossa... – Ele fez uma expressão estranha – Mas não é... – Ele apertou o abraço.
- E...Eu fui seguida. – Senti minha voz estremecer ao falar sobre isso.
- Foi? – Ele arregalou os olhos.
- Sim... Cheguei a pensar que era você, mas achei que não levaria tão a sério ao ponto de me machucar...
- Você se machucou? Está bem? O que você tem?
Sorri de canto ao ver que se preocupava comigo.
- Tive que pular um canalzinho, machuquei um pouco o pé mas não foi nada de mais.
- Ótimo! – Ele suspirou – Quem sabe tenha sido somente impressão...
- Não foi, estou certa de que... – Parei de falar ao ouvir ruídos.
- Não tenha medo, não vou deixar que nada te aconteça. – Ele me envolveu totalmente em seus braços.
Só pude sorrir. Ele me encantava com tudo que fazia, desde o mais simples sorriso, até mesmo seu abraço me deixava descompassada. Cerrei os olhos, só sentindo seu perfume, aquele doce que já citei milhões de vezes. Os passos se tornaram mais constantes, segurei-me forte nele, com medo. Ele olhava em todas as direções, como se cuidasse cada movimento que poderia se passar por ali. Acima de tudo, parecia querer me proteger, e isso me deixava realmente bem.
- Fique aqui, vou ver se há alguém.
- Tem certeza? – Perguntei insegura.
- Sim.
Ele desceu da janela e foi. Caminhava a passos inseguros mas certos. Olhou em cada canto, recuou um pouco ao ouvir mais ruídos de passos. Voltou até onde eu estava, me segurou e me colocou no chão.
- Vá! Está perigoso, não quero que você se arrisque.
- Mas...
- Sem mas.
- Obrigada. – Abracei-o.
- Por quê?
- Por tudo. – Sorri.
Nos aproximamos um pouco mais. Os rostos começaram a se tocar calmamente, as respirações a se encontrarem. Cerrei os olhos, deixando-me levar, sentindo seus lábios quase tocarem nos meus. Sua mão acariciou meu pescoço docemente. Um estalo fez-me acordar de tudo, abrindo os olhos um pouco envergonhada.
- Vá! Ele está por perto, e se puder, corra! – Ele parecia realmente preocupado.
Olhei para ele, e corri, corri e corri mais. Abri a porta de casa e me atirei no sofá, pegando no sono por ali mesmo.
(...)
- Droga! – Gritei ao cair do sofá.
Estava descabelada, desarrumada, do jeito que fui dormir. O meu celular berrava em cima da mesa, peguei-o e conclui que era o despertador.
- Bom dia celular. – Falei jogando-o no tapete.
Tomei uma ducha, troquei a roupa. Eram 14h, e 14h30 Tommaso passaria por lá. Penteei os cabelos com muito sacrifício, estavam todos enredados, parecia que queriam que me atrasasse tanto quanto todas as outras coisas que insistiam em dar errado. Comi uma tigela de cereais na pressa, escovei os dentes com cuidado para não me sujar. Corri, tropecei e abri a porta, já que a campainha havia tocado a mais ou menos 1 minuto atrás.
- Tommaso! – Sorri.
- ! – Ele me deu um beijo no rosto.
- Não terminei de me arumar... Entre. – Abri a porta e vi que ele observava cada canto da casa – Não repare, é tudo muito simples.
Ele entrou, observava cada canto, e pelo incrível que pareça, não trazia consigo uma cara de nojo ou algo do tipo.
- Essa casa tem um cheiro que me traz lembranças... Madeira e cuidado.
- Se te incomoda, tudo bem, nós já vamos. – Sorri fracamente.
- Não, pelo contrário! Mas tudo bem, vamos. – Ele sorriu.
Abri a porta da frente e entramos em seu carro.
- Vamos onde? – Tentei sorrir o mais sincera possível.
- Grand Canale! Iate, você sabe. – Ele riu – O pôr do sol é lindo, vamos passar pela Degli Scalzi.
- O que é isso?
- Uma das três pontes que passam pelo Grand Canale. Mas passaremos em baixo, poderá ver os pés das pessoas. – Ele riu consigo mesmo e virou o volante.
Chegamos até a beira do canal em uma viagem rápida de carro. Desci, e fui guiada por ele até o Iate. Até mesmo as senhoras mais aleatórias que passavam na rua tinham seus olhares voltados em Tommaso. Ele era realmente atraente, embora um pouco diferente do tipo de cara que me chamasse atenção.
Entrei e constatei que estava vazio.
- Só tem nós dois aqui... – Disse, confusa.
- Sim, eu tomo parte de dirigir o Iate, já fiz isso muitas vezes.
Sorriu e foi até o controle, me levando junto. Deu partida, em um painel tapado de botões, que se eu estivesse sozinha ali apertaria todos. Colocou uma direção em algo que parecia um GPS e me levou até a beira, onde sentamos a observar em silêncio.
Veneza é um lugar o qual você não imagina. Ou melhor, imagina, mas o que lhe vem em mente não é nada comparado ao que realmente existe lá. O sol parece brilhar mais quando bate na água, que lá existe por toda parte. É um festival de luzes e coisas novas, misturado a um ar familiar e aconchegante que não existe em nenhum lugar do mundo além de lá e da sua casa. Simplesmente não há o que se explicar.
"Quando eu cheguei a Veneza, descobri que meu sonho havia se tornado - inacreditavelmente, mas simplesmente - meu endereço."
Marcel Proust

Fiz um asterisco mental para lembrar de agradecer a meus pais pela oportunidade, por terem me mandado para lá. Dia após dia concluia que queria continuar por lá.
Tommaso me observava em silêncio. Acordei de meus pensamentos e vi que ele mantinha-se fixo em mim.
- Aqui é tudo muito lindo. – Sorri como forma de agradecer pelo passeio.
- Achei que gostaria de ver por uma perspectiva iluminada. – Deu um sorriso torto.
- Estou adorando.
Seria melhor se fosse com... Ele.
- Que ótimo!
Ficamos passeando até mais ou menos umas 18h. Atracamos, ele me ajudou a descer, muito cavalheiro. Pelo incrível que pareça, meu passeio não foi nada entediante. Por algumas horas, esqueci da existência daquele ser perturbador.
Fomos até um restaurante, simples e com uma arquitetura linda. Sentamos em uma mesa ao ar livre, na frente dali, com algumas plantas em volta, o que me lembrou algum daqueles filmes iltalianos. Olhei o cardápio de cima a baixo quando um homem bem apresentável veio falar conosco. Ele era muito atraente por sinal, e sorria constantemente para mim.
- Bom, eu vou querer Bacalá Mantecato. – Ele sorriu e entregou o cardápio.
- Que nojo. – Pensei – Vou querer Risi e Bisi, obrigada. – Disse entregando o cardápio e sorrindo.
Comi meu arroz com ervilhas de nome complexo enquanto trocava algumas palavras com Tommaso. Terminei de comer em silêncio, vendo que ele já havia o feito há um tempo. Estava com as mãos estendidas sobre a mesa. Ele hesitou, mas tocou sua mão delicadamente sobre a minha.
- Bom... – Ele procurava palavras em seu longo dicionário cheio de verbetes confusos – Acho que tenho um motivo para estar aqui com você.
- Hum... Qual? – Perguntei temerosa da resposta.
- Você me... Me... Encanta. – Ele gaguejava, me fazendo abafar um risinho quanto a sua situação.
- Bem Tommaso, eu não sei como te respondo.
- Tudo bem... – Ele baixou o rosto – Não há problemas se não é igual de sua parte...
- Eu só não sabia como responder, não disse nada. – Ri.
Vi o rosto dele levantar rapidamente e seus olhos brilharem.
- Oh não, vai começar... – Pensei comigo mesma.
Sorri, apenas isso, e pareceu ser o bastante para ele, que sorriu de volta. O branco dos dentes dele ofuscava a luz do sol, era um sorriso estupendo.

CAPÍTULO 14



- Sabe... – Ele quebrou o silêncio de alguns minutos – Você não é igual a todas as garotas.
- Não costumo ouvir isso. – Ri.
- Pois se acostume! Nunca tive boas experiências com garotas. Sempre eram todas iguais, até que então desisti de procurá-las e passei a esperar que alguma por acaso aparecesse em Veneza. - Você não teve expericências boas, e eu posso dizer que quase não tive experiências. Sempre preferi um bom livro a um garoto. – “Embora esteja mudando de idéia”, pensei – Mas ao que parece sou do avesso aqui. – Ri.
- Como você teve poucos relacionamentos? Tão rara... Você não tem cara de quem viveu dentro de casa sempre.
- Passei metade de minha vida em festas e na noite. Depois descobri que o que eu considerava noite, diversão e amor não era bem o que eu achava. É tudo muito além do que o prazer instantâneo poderia me proporcionar.
- Você se expressa bem. – Ele riu de leve.
- Obrigada! Aos poucos percebi que as coisas que realmente valem a pena não são encontradas assim no mais. Diversões momentâneas talvez, mas algo mais profundo é o que eu procuro em tudo. E por favor não leve essa minha frase para o sentido ambigüo, por favor. – Ri do que disse e do meu pensamento.
- Ok, não levarei. – Ele riu – Você tem razão. Concordo. Acho que o que importa não é o momento, e sim o que levamos dele. Se não levamos nada, não vale a pena.
- Nossa. – Deixei meu queixo cair – Essa foi fantástica.
- “ Pensamentos para banheiro, volume 3.” – Ele disse me fazendo cair na risada.
Talvez ele não fosse como Ele, mas me divertia demais. Era fantástico como tinha respostas para tudo, sempre agradabilíssimo. Nos levantamos ainda aos risos, falando sobre qualquer coisa que não fosse diplomática nem tivesse a ver com algo de palavras complexas. Lê-se: falando besteiras.
Chegamos até a minha casa, a pé mesmo. A noite caía de leve, muito bonita. Não percebi o tempo passar, vôou, fora realmente uma tarde bem agradável. Paramos em frente à minha casa.
- Bom, acho que ficamos por aqui. – Tommaso sorriu.
- Olha, devo dizer, há muito tempo não me divertia assim, foi realmente uma tarde agradável.
- Que bom que gostou... Porque eu também gostei. Obviamente lhe chamarei para fazer mais alguma coisa, sem dúvidas.
- E com certeza eu aceitarei. – Sorri animadamente.
- Então... Tchau...
Ele olhou para baixo sem jeito. Puxei-o pelo braço e lhe dei um beijo no rosto. Senti sua mão envolver a minha cintura e outra tocar minha nuca. Me puxou, e beijou-me de surpresa. Não ofereci resistência, andava fraca para isso. Era um beijo calmo, delicado. Mas me chateava o fato de não sentir nada além de um gosto fraco de menta e seu perfume cítrico e amadeirado, nada de choques, arrepios, estômago borbulhando. Ele parecia realmente sentir algo, mas eu não podia mudar isso. Nos soltamos, meio desordenados.
- Ah... Então... Boa noite. – Sorri.
Vi-o sorrir de volta, um sorriso sincero. Entrei e fechei a porta, vendo-o pela janela, correr e quase dar de cara no poste. Se eu filmasse aquilo, valeria uma fortuna. Tommaso Vasallo em um momento descoordenado, faz-me rir. E se eu me filmasse beijando ele, minha cabeça valeria uma fortuna, com certeza.
(...)
Comi uma tigela de cereais matinais mesmo que fosse de noite. De matinais eles só tinham o nome. Olhei TV sem animação alguma por aquele momento. Era como se fosse somente uma transição a qual teria de passar para o alto da minha noite. Não só parecia como era.
A programação da TV era consideravelmente vazia. Eram quase 23h e não tinha nada que me chamasse atenção. Parei em um Sitcom, me irritei e fui tomar uma ducha.
A água quente me purificava. Saí de lá animada, coloquei uma roupa simples, meu perfume favorito. Peguei a chave e como sempre enfiei-a no bolso e saí.
Uma linda noite. O céu azul escuro não parecia tão negro hoje. Por um caminho diferente fui indo em direção à Piazza. Pela beira do canal principal havia um estreito caminho, o qual adorei. Era lindo, dava para ver o horizonte com perfeita clareza. Parei ali mesmo a observar a imensidão. Era inexplicável como a magia diurna de Veneza se convertia em um mistério indecifrável pela noite. Às vezes me dava arrepios pensar no que poderia acontecer comigo, mas não me importava em me arriscar. Caminhei arrastando uma das mãos pela grade negra, que normalmente cobria todas as beiras dos canais por ali. Se quisesse ir a Piazza não poderia mais seguir aquele caminho. Dobrei na esquina de uma casa de madeira que ao que parecia estava vazia. Deparei-me com algo que realmente me assustou. Se quisesse encurtar caminho, deveria atravessar um túnel escuro em uma ruela realmente bizarra. Respirei fundo e lá fui eu. Abracei meu próprio corpo, o vento encanava por ali. Terminei enfim o túnel, caminhando por uma rua estreita e com casas bem antigas, algumas abandonadas. Dobrei em outra rua, em uma tentativa fracassada de chegar até a Piazza. Caminhei mais algumas quadras e constatei, estava perdida.
Dei volta, e não achava mais o túnel. Ouvi passos e me desesperei. Não costumava assumir, mas dessa vez não tinha muita escolha. Apressei meus passos e vi que a pessoa agora me chamava. Me desesperei e corri, chegando até um beco onde não era fechado por paredes, e sim um canal, que não seria muito fácil de pular. Coloquei o pé em cima da grade.
- Sou eu! – A pessoa gritou, fazendo-me cair de costas.
Empiezo a entender, que nada vale la pena sin miedo a perder, si no exige cada día una mirada, un poco más.
- Graças! – Corri e pulei em cima dele, logo me envergonhando de meu ato.
- O que faz aqui? Não que o resto da cidade não seja, mas aqui é bem perigoso.
- Eu fui fazer um caminho diferente e acabei me perdendo.
- Não tente isso de novo. Você é muito vulnerável, e não é sempre que eu estou por perto para te salvar.
- Você não é meu salvador. – Fiz uma cara de orgulho.
- Então ok. Vou embora, vire-se sozinha.
Vi-o indo embora.
- Não, não! – Corri e segurei seus ombros com as mãos – Tudo bem, você é meu salvador.
- Já que você diz... – Ele deu um risinho irônico, bem o tipo dele - Vem, vamos até onde você deveria estar.
Ele me pegou pela mão. Senti uma corrente elétrica percorrer meu corpo todo. E o mais incrível, ele não a largou. O caminho era curto, e nem tão complicado, mas sozinha eu não o encontraria.
- Posso lhe fazer uma pergunta? – Quebrei o silêncio que me ensurdecia.
- Creio que sim. – Ele estava sério.
- O que estava fazendo ali, já que disse ser muito perigoso.
- Não interessa. – Ele manteve-se sério.
Chegamos até a Piazza, estava limpa, clara e segura como sempre.
- Voilá. – Ele falou largando a minha mão.
Fui em passos lentos até a grade, sentei-me na beirada, apoiada. Ele veio calmamente e sentou-se a meu lado.
- Linda a noite não acha? – Ele sorriu.
- A noite é sempre linda aqui.
- Você tem razão... Vê o quanto coisas simples são importantes... Chega a ser estarrecedor.
- Acho que elas têm o significado que damos para elas.
- Que pode ser maior do que imaginamos. – Ele olhou fundo em meus olhos.
Um vento forte me trouxe um papel pela metade, escrito em uma caligrafia perfeita. Levantei e o li.
- Parace uma declaração de...
- Amor.
A palavra amor falada pelos lábios dele soava como música. Doce, verdadeira e... Cheia de significado.
- Pena que foi rasgada... – Falei baixo.
- Nem sempre há de dar certo... – Ele falou tocando a ponta de uma mecha de meu cabelo que caía por cima do papel.
- Mas parece tão verdadeiro...
- Lembre-se pequena, o que é verdadeiro sempre é reconhecido. Com certeza não se pode deduzir o final sem viver a história.
Já mencionei que ele me tirava o ar?
- É verdade... Queria a outra metade, deve ser linda a declaração inteira.
- Curiosidade mata. – Ele deu um sorriso de canto.
- Não me importo de morrer por amor. – Falei por impulso.
- Bom saber. – Ele sorriu maliciosamente, me fazendo recuar.
Larguei o papel no colo, a desenhar com a ponta de meu dedo por cima das letras. Senti-o tocar as costas da minha mão com a sua, de leve, me arrepiando visivelmente. Continuei, perdida em seus toques e pensamentos. Sua mão agora percorria meu braço até chegar a meu ombro. Tocou meu pescoço, e inconscientemente virei a cabeça para o lado, o que o fez sorrir malicioso ao ver minha reação. Tentei me controlar, não consegui. Quando dei por mim, estava com a mão por cima da dele, e a outra segurando a que já envolvia minha cintura. Mantemo-nos em silêncio, assim por alguns minutos. Encostei minha cabeça sob o peito dele, cerrando os olhos. Adormeci levemente, aquele perfume me acomodava. Acordei alguns minutos após, com um som estridente de algo caindo.
- O que houve? – Levantei o rosto assustada.
- Não se preocupe, são passos.
- Não se preocupe? – Ironizei – É perigoso demais...
- Está protegida, garanto que nada vai acontecer a você.
- Mas e você?
- É outra história, mas não se preocupe.
- “Impossível.” – Pensei – Ok, não me preocuparei, muito. – Sorri fracamente.
- Se houver mais alguma outra morte ou os passos aumentarem, você talvez tenha que parar de vir, é arriscado. – Ele baixou a cabeça.
- Ah... – Baixei o rosto com menção de tristeza – E desde quando eu te obedeço?
Fiz uma cara sarcástica, me levantei e pude ver uma reação perdida dele. Levantei, sorri, e me encaminhei por entre as casas.

CAPÍTULO 15



- Bom dia Viola meu amor.
- Bom dia . – Disse ela entrando em minha casa, me empurrando e me arremessando no sofá - Vai contando.
- Bom, foi agradável.
- Mas me diz, saiu o tão esperado beijo?
- Saiu. Wow, como eu esperei. – Ironizei.
- Não me referia necessariamente a você. – Riu – E então, conte!
- Bom, tudo foi perfeitamente perfeito. Ele é um homem que você não encontra assim no mais, é muito engraçado e simpático. Literalmente tem conteúdo. Quando fomos nos despedir ele me beijou.
- E isso, como foi? Exijo detalhes.
- Foi bom, mas não senti nada. – Baixei o rosto.
- Nem uma cosquinha no estômago?
- Não.
- Ah , não me diga isso... – Ela bateu as mãos nos quadris, indignada – Não vai achar outro desses assim no mais.
- Não vou ter de te explicar de novo né?
- Ok... Mas e de noite?
- Bom, encontrei ele de novo, e acabei dormindo deitada no peito dele. Me acordei com os mesmos passos.
- É perigosíssimo! Se continuar você vai ter que parar de ir!
- Até você Viola?! Não obedeço nenhum de vocês.
- Quem mais falou?
- Ele, ele me disse o mesmo, mas eu não vou parar. – Enfatizei o não.
- Você é teimosa.
- Grande novidade.
- Nossa, vale tanto a pena assim? Você está arriscando a sua vida ... E você só tem ela...
- Mas uma oportunidade como essa não vai surgir do nada de novo... Eu me sinto mais viva do que nunca.
- Mas e se...
- Se nada Viola, se nada. Vai ficar tudo bem, tenho certeza.
- Se você está tão certa... Mas e o Tommaso?
- Não vai morrer se eu dispensar ele.
- Mas você não pretende fazer isso, não é?
- Quem sabe... Vamos ver no que vai dar. – Sorri.
(...)
Almocei. O dia estava bem nublado, o céu coberto de nuvens azuis, bem escuras, sem nenhum espaço de céu claro. Essas nuvens sob a água davam um aspecto peculiar a Veneza, uma atmosfera sombria e charmosa. O vento forte gritava por entre as casas e passagens. Estava enfornada em um pequeno restaurante no centro da cidade, a comida deles era ótima. Olhei para a rua observando o movimento. As pessoas circulavam tranqüilamente com suas sacolas de feira cheias de legumes, frutas e costumes. Em torno de uma hora deveria encontrar Viola, Lorenzo e derivados na praça. Confesso, não estava com muita cabeça para me divertir, mas acho que eles me fariam bem, embora não tivesse motivo algum para estar assim, digamos mal-humorada. Caminhei pelas ruas de Veneza séria, e as pessoas não pareciam gostar muito da minha expressão, já que todos andavam meio sorridentes até quando tudo ia de mal a pior. Fiz um esforcinho e andei por aí com um sorrisinho torto, o que fez as pessoas não me olharem tão mal. O que me deixava feliz era não dar satisfações, ah, me deixava realizada. Sair sem avisar, não precisar dizer onde estava era o que eu sempre quis. Corri um pouco sabe se lá porque, mas enfim consegui fazer o tempo passar. Cheguei até a praça e eles já estavam lá.
- ! – Lorenzo gritou.
Parei já meio assustada com os olhares, inclusive de Tommaso e me sentei.
- O que houve Lore?
- Não acredito que você ficou com o Tommaso! – Chiara colocou a mão sobre a boca.
- Viola querida, você já abriu a boca.
- Não fui eu , juro! Alguém viu, o Tommaso contou, seja lá o que for mas toda cidade já sabe.
- Vou virar motivo de fofoca.
- Já virou . – Lorenzo ria.
- Não importa, conta. – Chiara roía as unhas.
Contei o que havia acontecido, e ao que parecia ficaram abismados.
- Foi isso.
- Você fala em uma tranqüilidade como se isso não fosse o apocalipse!
- E não é? Chi, não tem nada de mais.
- Você que acha, você que acha!
- Realmente, viso que é só eu que acho. – Cocei a nuca, confusa.
- , um aviso. – Lorenzo mordia o lábio.
- O que?
- Ele está vindo, só para você saber. – Abafou um risinho.
Senti alguém se aproximar, e logo após o vi se abaixar, ficando de frente para mim.
- Boa tarde Tommaso!
- Boa tarde ... Como está? – Ele estava visivelmente envergonhado.
- Bem e você? – Sorri.
- Ótimo... – Ele sorriu envergonhado – Boa tarde a todos!
Em coro meus amigos respoderam.
- Enfim ... Vim saber de você, se gostaria de me acompanhar a algum lugar em alguma tarde dessas... – Ele corou.
- Claro! – Sorri, deixando-o mais a vontade.
- Ok então, ótimo! – Ele deu um sorriso motivado – Volto aqui mais tarde.
Ele sorriu, e me deu um beijo no rosto, mais precisamente no canto da boca. Sorri de volta, meio constrangida.
- Estou em transe. – Chiara me olhava, parecia tonta.
- Por?
- Como você pode ser tão simples ?! Deveria estar saltando como qualquer garota faria. – Lorenzo falou sério.
- Quer ir no meu lugar Lore?
- Então, meu negócio não é bem esse... – Ele olhou de canto para Chiara, logo entendi.
- Ah sim, compreendo. – Pisquei de leve e ri.
- Mas aí tem coisa... – Chiara parecia deduzir que eu não “gostava” do Tommaso por outra pessoa.
- Quem sabe, quem sabe. – Ri.
- Enfim... – Viola sentiu que o assunto chegaria Nele em breve e me salvou – Com quem você vai no baile?
- Que baile?
- O baile da cidade oras, que baile seria.
- Eu nem sabia que tinha baile aqui... Como funciona?
- Bom, temos todos os anos. É de mascaras e trajes de época. Como uma preparação para o Carnaval. Você já deve ter ouvido falar.
- Ah sim, do carnaval já.
- Então, no baile só os homens da cidade recebem convites. Um para si e outro para uma garota. – Ela me puxou para perto de si – O Lorenzo vai convidar a Chiara. – Ela cochichou.
- Sério? Que novidade! – Gritei, causando risos – E você Vi?
- Eu nada!
- Vejamos... Mas quando é esse baile?
- Em breve... Eles avisam 2 dias antes... Você sabe, tradições.
- Ah sim, já vi que aqui existem muitas.
- Realmente... Mas é certo que você vai com o Tommaso. Homem para você não vai faltar.
- Mas eu não quero ir com ele. – Baixei o rosto.
- Ah é, e iria com quem? – Viola fez uma cara de “cale a boca, agora”.
- Ah, pois é né Viola, que coisa... – Fingi estar deprimida.
- Imagine o Tommaso em trajes, melhor que no ano passado. – Chiara suspirou, Lorenzo bufou.
- Nisso eu concordo, acho que deve ficar agradável.
- , agradável? – Viola deu uma risada sarcástica – Agradável é um insulto.
- Ah, sim, para vocês é. – Ri.
(...)
Havia combinado de no outro dia, sair com Viola para ver os vestidos antes que os melhores se esgotassem, embora eu não soubesse se iria ao baile, mas ela insistiu que Tommaso iria me convidar, então fui com ela. E também se não me convidassem, eu vendia o vestido nas vésperas, com certeza alguém iria querer.
Cheguei em casa com o humor ao avesso. Saí mal-humorada e voltei feliz. Eles realmente me faziam bem. Mas se uma coisa me dava presságios, era o baile. Alguma coisa ia acontecer, eu tinha certeza. Bailes nunca, pode escrever, nunca são uma boa idéia para todo mundo. Para uns, se tornava a melhor noite de todas, para outros, um pesadelo, e eu sinceramente esperava que a primeira opção fosse a minha.
(...)
Uma noite escura. Sem lua, sem estrelas, literalmente deserta. O vento estava bem forte, tudo indicava que iria começar a chover em breve. Segui pelo mesmo caminho de sempre, torcendo para não ser seguida nem nada do estilo. Por incrível que pareça levando em conta os últimos dias, cheguei na Piazza em plena paz. Estava vazia, linda e misteriosa como sempre. Apoiei-me na grade, a água escura refletindo meu rosto, que cada dia parecia mais diferente. Embora fosse arriscado, aquilo era o que eu sempre desejei. Mais precisamente Ele era o que eu sempre desejara. O vento estava forte, me causava calafrios constantes, os mesmos de quando ele me abraçava. Me virei de costas para a água, me apoiando pelos cotovelos. Fiquei observando os detalhes falhos, antigos e bem desenhados das casas quando algo me prendeu a atenção.
De lejos amor, desde muy lejos verdad, colgados de una esperanza viendo el tiempo pasar, robandonos cada día lo que sea nuestra felicidad.
Vinha caminhando em passos lentos, com as mãos nos bolsos das calças pretas, entre as sombras das duas casas que faziam uma passagem que se assemelhava a um beco aberto. O vento mexia seus cabelos ritmadamente, dava-lhe um ar sobrenatural. A escuridão contrastava com a sua pele clara, deixava seus olhos escuros, fazendo-o mais surpreendente do que já era. Me lembrou as primeiras vezes que o vi, tão... Incrível. Mas ao mesmo tempo já familiar, ao ponto de ter tornado o magnetismo que eu senti na primeira vez que o vi cada vez mais forte.
- Boa noite dama. – Estava se aproximando, falou com uma voz baixa, doce e extremamente sexy.
- Boa noite cavalheiro. – Respondi em mesma intensidade.
- O que acha de conhecer o resto da cidade de uma perspectiva mais... Nossa?
- Isso seria...?
- Uma perspectiva obscura.
- Adoraria.
Ele me estendeu o braço, encaixei o meu no dele. Me levou por entre aquelas casas, e ao final do corredor, parei.
- Por que ele, ou ela, está aqui?
- Ele. – Ele riu – Você achou que íamos como? – Ele sorriu.
Um cavalo. Não sabia como havia ido parar ali, mas era incrível. Grande, robusto, com uma crina brilhante, um olhar astuto. Negro como a noite, fugaz como o brilho de uma estrela.
- Hades! – Ele chamou, o cavalo se aproximou.
Hades, grego. Deus do submundo e das riquezas dos mortos. Seu nome em grego significa O invisível, supus que andasse muito rápido. Deus das sombras, um significado justo vindo Dele. Em um pulo subiu no cavalo imperceptivelmente. Estendeu-me a mão, e com um pouco de esforço juntei-me a ele.
- Segure-se em mim, não é a toa que ele pode ser considerado invisível.
Segurei-me em sua cintura. Bateu delicadamente o pé ao lado do cavalo, que levantou-se, relinchando em som alto, como cena de filmes. Se não houvesse sentindo uma pontada de medo, diria que estava em algum livro de romance antigo.
Saímos andando rapidamente, podia ver as ruas passando a meu lado. Vi uma senhora olhar pela janela alarmada, parecia temer um assassino alado, ou alguma lenda ressucitada. Era maravilhosa a sensação de andar por Veneza a cavalo. Pode parecer estranho, e realmente era estranho, mas era perfeito. Me imaginei sendo protagonista de um filme medieval, andando a cavalo com o príncipe, ou até quem sabe o vilão. Depois Viola me perguntava por que eu preferia Ele a Tommaso.
Andamos por bastante tempo, por quase toda a cidade. Ele parava, me apresentava os bairros, os becos, lugares que eu nunca imaginava existir. Mostrou-me a parte mais antiga e obscura da cidade, considerada perigosa, mas incrivelmente atraente.
(...)
Paramos na Piazza, depois de uma grande noite. Ele me ajudou, desci do cavalo, olhei no relógio, 5h45min. O sol estava começando a aparecer na beirada do horizonte, mas o céu ainda estava coberto de nuvens.
- Até mais tarde. – Ele falou em meu ouvido, me abraçando.
Segurou-me forte, me envolvendo inteira.
- Obrigada.
Nos aproximamos, os rostos muito próximos, podia sentir o hálito quente dele nos meus lábios. Hades relinchou, ele me largou, subiu no cavalo, e sumiu.

CAPÍTULO 16



Me arrastei da cama, abri a janela e quase me atirei.
- Já abro Viola. – Gritei.
Desci as escadas cambaleando, me arrastando degrau por degrau. Abri a porta, descabelada, desgrenhada por inteiro.
- Boa tarde ! Dormindo até agora?
- Sim, esperava o que? Cheguei em casa quase 6h da manhã.
- O que ficou fazendo?
Abri a porta para que entrasse, sentei-me no sofá, Viola fez o mesmo.
- Passei a noite com ele.
- Vocês... É...
- Não Viola. – Ri – Conheci os bairros de Veneza a cavalo.
- A cavalo?! – Gritou.
- Sim, um cavalo negro, lindo, Hades. – Suspirei.
- Que pessoa normal tem um cavalo em Veneza?
- E quem disse que ele é normal? Talvez seja isso que gosto nele...
- Mas você não sabe quem é...
- Já disse Viola, não interessa... Por enquanto.
- Mas enfim né... Vá se arrumar.
- Para que?
- Os vestidos! Baile... Festa... Lembrou?
- Ah, havia esquecido, desculpe, vou arrumar-me. – Sorri.
(...)
O sol estava alto, as nuvens haviam sumido. A tarde estava linda. Eu estava com a mente ocupada enquanto Viola falava e eu só assentia ou me fazia parecer interessada. Aquela noite havia sido algo que mais me parecia irreal, mas a lembrança era maior que a de um sonho, eu podia ouvir os galopes do cavalo, a voz doce dele, podia sentir suas mãos tocando as minhas. Entramos em uma loja enorme de fantasias, mas parecia mais somente da temática antiga, deve ser comum em época de baile torná-las temáticas. Pegamos milhares de vestidos, maravilhosamente lindos. Compridos, extremamente armados, cheios de detalhes majestosos, como se houvessem sido feitos há muito tempo atrás. Era surpreendente experimentar todos. Nunca gostei de provar roupas, mas estava se saindo mais divertido do que imaginei.
Entramos em cinqüenta mil e uma lojas, experimentamos diversos vestidos. Viola comprou um verde escuro com oliva, de veludo, com detalhes em prata, que lhe caiu muito bem, destacando muito seus olhos. Depois tivemos de voltar a primeira loja, onde estava o único que havia gostado: Dourado com detalhes em prata brilhante. Rendas brancas e até um leque. Luvas douradas davam o toque final. Depois, fomos até joalherias e compramos os acessórios. Os dela prata, os meus dourados.
Saímos pelas calçadas tomando café cheias de sacolas e rindo. Sorri ao pensar o quanto eu estava feliz por lá, embora sentisse imensa saudade da minha família e de meus amigos.
(...)
Abri a porta, subi as escadas e me joguei na cama. Valeria mesmo a pena ir no baile? Se fosse, iria com Tommaso, e passaria a noite inteira pensando Nele, por que tinha quase certeza que não me convidaria. Isso não me deixava nada feliz, o que gostaria mesmo era de estar com Ele, de mãos dadas, na frente de todos, não me importava o que acontecesse. Aquela era uma das únicas noites em que as pessoas saíam pela noite, todas juntas, além dela só no carnaval. Ou seja, talvez não o visse, mas não custava arriscar.
Coloquei o vestido, as luvas, os acessórios e os sapatos. Prendi meus cabelos desajeitadamente, e parei em frente ao espelho. Não me reconhecia, parece que não era mais a mesma desde que cheguei lá. Era como se as minhas esperanças agora estivessem voltadas para outras coisas, como se as coisas simples como Ele disse, ganhassem um significado maior. O sol de fim de tarde refletia no dourado da saia do vestido, iluminando-me, como se fosse de ouro.
Coloquei uma roupa normal e peguei dinheiro e minha chave. A tarde já havia ido embora, a noite caía docemente, limpa e linda. Saí de casa a passos lentos, sozinha. As pessoas caminhavam, saindo do trabalho, andando de gôndola, ocupando os pequenos restaurantes e cafeterias. Sentei-me em um restaurante de beira para o canal principal. Pedi algo, e esperei chegar. Enquanto isso observava a movimentação da água, e o reflexo da lua nela. Era realmente estonteante, e não parava de me lembrar ele. Comi muito, estava feliz e esfomeada, apesar da tarde ocupada. Só havia tomado um café no dia todo, e isso não me era suficiente. Saí do restaurante e fui em direção a uma sorveteria. Comi um sorvete triplo, estava satisfeita.
A cidade pela noite habitada era incrível. Quase tão linda quanto quando estava vazia. Caminhei pela Piazza San Marco, cheia de casais que aos poucos iam se dissipando, de acordo com a hora, que ia passando sem parar. Caminhei mais e mais, sentei em um dos bancos da praça, observando as pessoas sumirem, como se o chão as sugasse. Fiquei observando o céu, meio deitada sob o banco. Era o mesmo que cobria as pessoas do mundo inteiro, e isso me deixava encantada. O mesmo céu, sob tantas pessoas. Quantas aventuras ele já cobriu? Quantas histórias de amor, tragédias... Isso era uma coisa que eu sempre quisera saber. Comecei a cantar baixo uma canção a qual sempre gostei. Quando a cantava, os céus mais escuros pareciam se abrir, e as coisas mais confusas se tornavam claras. Cerrei os olhos, a praça já vazia. Cantei sem medo, sem vergonha, já que ali só eu poderia escutar. Ouvi passos, não me importei. Alguém sentou de meu lado, o vento me trouxe o perfume que tanto lembrava.
La vida es una colección de recuerdos, pero a nada como tu recuerdo tan bien. Desde la redondez que tienen tus labios, al olor de tu pelo, al color de tu piel.
Continuei a cantar e o ouvi cantar comigo. Sua voz era linda, entonada, mais aveludada do que quando ele falava, se é que isso era possível. Mas o que me deixou mais surpresa foi o fato de ele conhecer a canção. Cantava com um fio de voz, sem esforço algum, e isso era perceptível, mas mesmo assim sua voz soava linda.
Virei o rosto, já de olhos abertos, e pude ver seu rosto, sorridente e delicado.
- Você canta muito bem. – Eu disse.
- Você também senhorita, formaríamos uma boa dupla. – Ele sorriu.
- “E você ainda tinha alguma dúvida?!” – Pensei – Quem sabe! – Ri.
- Considerarei isso como um “sim, claro que formaríamos”, e caso pensar em cantar profissionalmente, procurarei você.
- Sabe onde me encontrar melhor do que eu. – Ri – Como você faz isso?
- Isso o que?
- De por acaso sempre aparecer onde eu estou.
- É realmente acaso, perguntaria o mesmo para você se não houvesse me perguntado antes. Estava passando por aqui e vi você... Aquela noite, estava passando por aquele bairro e você estava prestes a cometer um quase suicídio. Talvez eu deva estar sempre perto de você.
- “E você ainda tinha alguma dúvida de novo?!” – Pensei – É, talvez...
- Você talvez corra perigo sozinha.
- Você está insinuando que eu não sei me cuidar sozinha?
- É, talvez... – Ele fez uma voz afeminada, imitando meu jeito de falar.
- Não roube minhas expressões, por favor.
- Ok, as minhas são melhores mesmo.
- Convencido.
- Metida.
- Infeliz.
- Chata. – Gritou.
- Insensível. – Já estávamos gritando um com o outro.
- Desaforada!
- Grosso!
- Lunática!
- Mal-educado!
- Lerda!
- Frouxo!
- Frouxo? Ah, você acha? Vamos ver até onde. – Senti os olhos dele fervilharem.
Fechei minha expressão em espanto. Ele se levantou rapidamente e me puxou sem alguma delicadeza em direção ao seu corpo, tanto que pude ouvir a batida. Estava com um sorriso malicioso, parecia ter se transformado de cortês e misterioso, em diabólico e quente. Me empurrou a passos rápido e largos até um pilar, me batendo com força. Colocou um braço de cada lado meu, me prendendo entre ele e o pilar.
- Agora você não me escapa senhorita. – Ele falou baixo, me arrepiando.
Começou a beijar e morder meu pescoço a ponto de sentir meus joelhos fraquejarem. Suas mãos me apertavam a cintura violentamente, e seu perfume agora parecia mais áspero e cítrico. Mas era incrível, das mais variadas carícias, elas nunca chegavam até a minha boca, por algum motivo, talvez destino.
Devo confessar, de frouxo ele não tinha nada. Aquilo havia saído, e acho que ele havia considerado como um desafio. Enquanto ele se ocupava de me fazer ficar arrepiada e sem sentidos, eu concluía que ele era bipolar, não parecia a mesma pessoa. Mas continuava sendo agradável. E eu continuava não sabendo nada sobre ele. Abri os olhos, e olhei em frente.
- Pare... Uma... Pessoa! – Disse em um fio de voz, o único que achei.
Em um instante ele se virou a tempo de ver uma sombra se mover por entre um labirinto de pilares.
- Você viu, não viu? – Perguntei preocupada, arrumando os cabelos presos que já ameaçavam se soltar.
- Sim, vi. – Ele parecia tão surpreso quanto eu – Ah, e me desculpe, falta de controle.
- “Você sabe que pode se descontrolar quando quiser” – Pensei – Ah, sim. – Sorri - Venha, ele não pode estar tão longe! – Peguei-o pela mão e o puxei, mas ele nem se moveu.
- Você não acha que eu vou permitir que você vá atrás disso, acha?
- Acho!
- Só para constar, não vou. – Ele deu um sorriso irônico.
- Então eu vou sozinha.
- Não vai. Já lhe disse, não vou deixar você correr perigo. Que parte dessa afirmação – ele deu ênfase em afirmação - você não entendeu?
- A parte que inclui você.
Olhei nos olhos dele, sorri, e corri até desaparecer.

CAPÍTULO 17



- , acorda! – Alguém me sacudia na cama.
- Ah, só mais cinco minutos e... – Dei-me por conta – Como você entrou aqui?!
- Eu sei onde você esconde a chave para emergências. Mas não importa, vim te contar a novidade!
- Que novidade a essa hora da manhã Viola? Espero que seja algo realmente proveitoso.
- E é! O baile foi anunciado! Ou seja, temos hoje e amanhã para os preparativos!
- O que? Preparativos?
- É, você sabe, marcar hora no salão, trocar a cor do cabelo, fazer as unhas...
- Trocar a cor do cabelo?!
- Se você quiser, isso é opcional. – Ela parecia estar concluindo algo relevante – Temos que comprar as máscaras e como todos os anos, ajudar o Lorenzo na decoração!
- Isso me parece divertido... É?
- Demais! – Riu – Agora vou assistir TV na sala, se troque, vamos almoçar fora, comprar as máscaras, marcar horas e depois ajudar o Lorenzo.
Viola parecia bem empolgada quanto a isso. Sim, ela parece empolgada com tudo, mas desta vez estava muito mesmo. Coloquei uma roupa aleatória, o sono ainda me impedia de raciocinar direito. Peguei uma bolsa e desci as escadas tropega, não tive tempo de segurar o corrimão e resolvi descer os cinco últimos degraus rolando. As ruas estavam cheias de meninas pulando em frente às vitrines como loucas. Fiz um asterisco mental de lembrar de agradecer Viola por ser adiantada. As ruas estavam lotadas, conclui que todos haviam deixado para a última hora. Corremos até o salão que já começava a ser habitado por garotas descontroladas, entramos e marcamos hora para arrumar o cabelo e as unhas antes do baile. Depois, pegamos um café em algum lugar que nem vi o nome e fomos para um antiquário artístico. Se havia um lugar onde encontraríamos máscaras exclusivas e acessíveis, era lá. Ninguém nunca pensaria em um lugar como aquele. Uma pequena senhora nos atendeu, muito simpática. E como pensei, lá haviam máscaras maravilhosas, de veludo, com penas, pedras brilhantes, e inúmeros modelos. Viola olhava algumas enquanto a senhora veio falar comigo.
- Encontrou o que procura?
- Não...
- Mocinha, tenho algo que vai te agradar, certamente, espere aqui.
Em alguns instantes, a senhora apareceu com uma máscara enrolada em um tecido negro. Tirou-a de baixo dele, e pude ver o que procurava.
- Como você sabia que o meu vestido era dessas cores?
- Não sabia, só pensei que iria gostar... É muito antiga, usei em meu primeiro baile aqui... Decidi doa-la somente para alguém que ela fizesse diferença em sua história...
- E essa pessoa sou eu?
- Sim, se não não estaria oferecendo-a a você. Leve, não precisa pagar.
- É muita gentileza da senhora, não posso aceitar, devo-lhe uma quantia bem justa!
- Não quero que pague, seria uma ofensa se pagasse. Ela não tem valor material... Ela é simbólica, somente desejo que a use e viva algo tão bom quanto eu vivi, espero que lhe dê a sorte que me deu.
- Nossa, nem sei como agradecer a senhora...
- Não precisa querida!
- Ah, me diga, você já ouviu falar do livro Venecia?
- Ah, claro que ouvi!
- Você sabe por favor onde está e qual é a continuação dele?
- Mi dulce Venecia é o nome. Vendi há uns bons anos.
- Ah, é o destino conspirando para que eu não o encontre!
- Você tem Venecia?
- Sim!
- Nossa, menina de sorte. Estou certa de que o livro ainda está aqui em Veneza, se souber onde procurar vai encontrar! Ah, e se quiser, dê uma olhadinha na nossa seção de livros, temos ótimos clássicos! – Ela piscou e sumiu no corredor.
A máscara era linda. Toda dourada com preto, parecia de ouro. Coloquei-a em frente ao rosto, encaixava-se perfeitamente. Viola apareceu do nada e me arrastou para fora da loja, me arrastou durante todo o percurso, e chegamos até onde ia acontecer o baile.
Era um salão enorme, enorme mesmo. Entramos, e estava começando a ser decorado. Deixei Viola procurando Lorenzo e fui conhecer o lugar. Era um salão muito grande mesmo. Uma porta lateral de madeira talhada dava para um jardim muito bem elaborado, algo semelhante a um bosque, com árvores, que se fosse seguido dava para a rua. Era realmente um bosque, conclui após caminhar por cinco minutos e só encontrar árvores e depois enxergar a saída e não conseguir alcançá-la. Não havia visto árvores em Veneza desde que cheguei, nunca havia ficado tão encantada em ver plantas.
Voltei para o salão e encontrei Viola e Lorenzo cheios de planos e me intrometi entre eles. Ganhei algumas tarefas. Tratei de ocupar minha mente conhecendo pessoas novas que também ajudavam na decoração, rindo, trabalhando e falando bobagens, o que surtiu um resultado ótimo: bom humor e um bom início de decoração.
(...)
Saímos de lá, eram 18h. Recebemos o convite e aceitamos, fomos jantar na casa de Lorenzo. A casa dele era muito aconchegante, e só dele também. Eu e Viola ficamos conversando enquanto ele e Chiara estavam na cozinha fazendo a comida – Lorenzo convidou-a quando ela cortou uma fatia de bolo e encontrou o convite, um modo bem inusitado, convirei – conversávamos em voz alta sobre Ele.
Lorenzo e Chiara entraram quietos na sala, sentaram-se a mesa estendendo um bom e tradicional espaguete.
- Acho que tem algo a nos contar. – Lorenzo pigarreou.
- O que? – Era o que eu temia.
- Nós estávamos ouvindo! Você e Viola não sabem falar baixo. – Chiara ria.
- O que vocês ouviram? – Me preocupei.
- Você anda saindo pela noite a quanto tempo?
- Desde que cheguei. – Confessei.
- Você é louca? – Chiara gritou.
- Mais do que vocês imaginam. – Viola ria – Esperem só para saber o resto.
- Viola! – A repreendi - Enfim, eu saí e conheci alguém. E por enquanto continuo vendo-o todas as noites. – Sorri inconscientemente.
- Você sabe o quanto isso é perigoso? – Lorenzo estava sério.
- Não me venham por favor com discursos, sermões. Eu sei o que eu faço, e o único direito que eu dou a vocês é me perguntarem as novidades. – Ri.
- Então Tommaso e você é por isso... O que esse cara é? Um deus?
- Pode-se dizer que é um príncipe alado de filmes antigos. – Ri e Viola me entendeu – Agora tratemos de comer essa massa que está me chamando, até posso ouvir.
Nem se comentou mais sobre Ele, e no momento agradeci. Pessoas demais já sabiam sobre eu e Ele, e elas eram excessivamente suficientes.
(...)
Os sitcom’s noturnos italianos eram até que bem divertidos. Estava comendo doce quando a campainha tocou. Abri a porta e era Tommaso.
- Boa noite . – Disse ele encostando-se ao vão da porta.
- Boa noite Tommaso. Entre!
Ele entrou e sentou-se no sofá.
- Bom , vou direto ao ponto. Gostaria de saber se você tem algo a fazer amanhã por volta das 11h até mais ou menos umas 15h... Prometo não te ocupar demais. – Ele riu.
- Não tenho nada a fazer! – Sorri.
- Almoce comigo?
- Sem dúvidas! – Tentei parecer entusiasmada.
- Tenho algo a tratar com você.
- Poderia saber sobre? Tenho de verificar na agenda se tenho tempo para tratar de tal assunto.
- No momento não, mas se isso lhe impede de fechar contrato...
- Não impede, mas um aviso prévio seria ótimo para a segurança de minha empresa.
- Que pena, mas vai ter que arriscar. – Ele riu.
- Ah, droga. – Ri também.
- Bom, vou indo, está ficando tarde, continue a ver seu programa e comer doces.
- Ah, então ok.
Levantei-me e abri a porta para ele. Ele sorriu – uma coisa que faz muito bem – e entrou em sua BMW preta, desaparecendo conforme os segundos passavam.
(...)
A noite estava bonita. Um pouco gelada, convirei. Caminhei por entre paralelepípedos, ainda com a mente perdida em pensamentos relativos ao baile e derivados. O céu, como não era novidade alguma, tapado de estrelas, as quais pareciam de diversas cores naquela noite. Não arrisquei mudar o caminho, temendo perder-me e por acaso não encontrá-lo, nem sempre a minha sorte era grande, e provavelmente a vida não ficasse nos unindo a qualquer oportunidade que aparecesse depois do sol.
Cheguei até a Piazza, estava vazia. Talvez fosse uma simples impressão minha, ou quem sabe meu olfato houvesse sido alterado depois Dele, mas aquele lugar tinha um cheiro familiar. Algo que não sei como descrever, totalmente entorpecente, e que me traz à mente lembranças vazias de algo que eu não sei se vivi. Talvez sonho, talvez lembranças misturadas, bloqueadas pela mente para não causar tremendo estrago em uma histeria momentânea.
Respirei o ar gelado, sentindo-o arranhar minha cabeça por dentro. Mas aquela sensação de conforto me fazia sentir bem, embora o frio estivesse realmente incômodo para mim ou qualquer outro ser que pudesse estar ali, e aliás, se estava era realmente bem silencioso. Mas não duvidava de mais nada depois de chegar a Veneza, nada mesmo. Encostei-me sob a grade observando as estrelas pela água, como um grande e profundo espelho, torcendo para ver uma estrela cadente, tinha o pedido entalado na garganta havia um bom tempo, era o único que no momento desejava fazer. Vi uma sombra no chão a meu lado, me virei para ver, e por instantes, senti a felicidade de ter um desejo realizado instantaneamente.
La recuerdo en sus dilemas entre cuentas y poemas , en el ruido de la calle perdida siempre en los detalles. La recuerdo, sin vergüenza... La recuerdo en un segundo en que llego a lo mas profundo.
- Boa noite, senhorita.
- Boa noite.
Colocou uma das mãos no bolso, e com a outra, arrumou o cabelo já um pouco bagunçado. Em passos lentos e perfeitos, parou a meu lado, olhando as estrelas pela água como eu fazia alguns segundos atrás.
- Você estava aqui a muito tempo?
- Desde um pouco antes de você chegar. – Ele falou despreocupado.
- Mas como eu não lhe vi?
- Sabia que havia alguém aqui.
- Talvez imaginasse.
- Só imaginava?
- Eu... Não sei.
- Você faz mais que imaginar, estou certo disso.
- Quem dera.
- Você realiza, estou afirmando. Essas coisas não acontecem por parte de uma pessoa só.
- Como assim?
- Quero dizer minha dama, que não faço tudo sozinho.
Fiz menção de responder, mas as palavras trancaram em minha garganta, me impossibilitando de falar qualquer coisa. Virei-me para a água também, e passei a observar o céu.
- Outra bela noite... – Sorriu.
- O que não é novo.
- Há um tempo atrás, em Veneza só chovia... O céu estava sempre nublado... E a noite sombria, sem estrelas. Raras vezes que a Lua se mostrava... E quando acontecia, sempre solitária, vagando sem uma sequer estrela... Mas agora ela aparece todas as noites, e se põe acompanhada da estrela mais brilhante.
Senti um sorriso nascer involuntariamente de minha boca. Somente havia um problema, Ele era totalmente evasivo, o que me impedia de entender as entrelinhas facilmente.
- Quem sabe as nuves só precisavam sair para que a estrela aparecesse. Quem sabe ela sempre esteve ali, só não a via porque não era a hora certa...
Vi um sorriso subir pelo canto de seu rosto, o que me fez sentir melhor.
- Sabe... Eu queria lhe dizer tanta coisa... Mas não sei como. – Brincava com meus dedos sob a grade.
- Eu também...
- Você também? – Ele levantou o rosto em um impulso rápido e surpreso.
- É... Acho que sim.
- Ah, sim... Preciso de mais do que palavras.
- “Isso me agrada.” – Pensei – Isso é possível?
- Não sei... Eu... Não sei como agir, é raro...
- Você não saber agir... É quase impossível.
- Eu sou humano senhorita.
- É?
- Sou. Você achou que não?
- Talvez. – Sorri.
- Porque?
- Isso é uma coisa que eu também não sei dizer...
Sorri, e sumi entre as casas.

CAPÍTULO 18



O despertador que havia comprado há uma semana atrás tocou. Me joguei no chão, como forma de me acordar realmente. Agradeço até hoje por terem escolhido uma cama baixa, se não teria até hoje alguns hematomas. Levantei-me, corri até a cozinha, engoli uma maçã, tomei uma ducha. Coloquei uma roupa normal, um pouco mais bonita, e liguei a TV. O Visor se acendeu e a campainha tocou. Desliguei a TV e abri a porta.
- Bom dia! – Sorri.
- Bom dia! – Tommaso me sorriu de volta.
Fechei a porta. Tommaso abriu os braços, pedindo um abraço. Abracei-o. Levantou-me pela cintura, tirando meus pés do chão, e segurando ainda, levou-me até o carro.
Sentei no banco do carona, sorrindo.
- Pronta para um almoço saboroso?
- Minha barriga está, então estou também. – Ri.
Fomos o caminho inteiro cantando alguma música aleatória em alguma estação de rádio aleatória. Parecíamos duas crianças, rindo e cantando em vozes estranhas, bem alto.
Chegamos até um restaurante aberto, deve ter percebido que me agradavam. Sentamos e pedimos alguma coisa no cardápio.
- Mas me diga... Você vai ao baile?
- A propósito não... – Ri.
- Mas você tem vestido?
- Ah sim... Prevenir, caso vá, para que não precise comprar algo que sobrou. – Sorri.
- Suponho que vá estar bom... – Ele sorriu.
- Estou ajudando na decoração, está ficando esplendoroso.
- Imagino... Vindo de você espero maravilhas. – Ele sorriu.
- Ah, obrigada... – Corei.
A comida chegou, comemos em silêncio, pois estavamos de boca cheia, apenas por isso. Acabamos e Tommaso começou a falar novamente.
- Bom, vamos direto ao ponto... – Ele sorriu – Aceita ir ao baile comigo? – Ele corou.
- É... É claro! – Sorri.
Não iria recusar, sabia que Ele não iria me convidar, e não iria perder a oportunidade de ir.
- Ótimo! – Ele sorriu.
Ficamos conversando sobre qualquer coisa, fomos até a sorveteria e nos entupimos de sorvete, cheios de guloseimas, extremamente doces. Tínhamos uma intimidade de quem se conhece há muito tempo, algo estranhamente divertido. Pedi para que me deixasse no salão, onde encontraria todos para terminar a decoração.
Fomos rindo a toda altura e chegamos enfim no salão, onde Viola e os outros me esperavam no enorme arco que servia como porta. Tommaso abriu a porta para mim.
- Então... Nos vemos amanhã?
- Certamente! – Sorri.
- Passo em sua casa as 22h.
- Ok!
Ele tocou meu rosto e sorriu, ousou e me beijou. Deixei-me levar, e por incrível que pareça me senti extremamente bem, mas podia imaginar Viola, Lorenzo e Chiara pulando. Largou-me, me deu um beijo na testa, sorriu e entrou no carro. Virei-me para ver os meus amigos, que estavam como imaginei, com o queixo quase tocando o chão. Corajosamente, fui até eles.
- Perfeito! – Viola gritou.
- Meus tímpanos. – Tapei os ouvidos e ri.
- , você e o Tommaso se beijaram. – Chiara estava quase colocando o punho na boca.
- Até parece grande coisa.
- É! – Lorenzo riu.
- E aí, cosquinha no estômago ou nem isso?
- Ah Viola, você sabe... Nem isso. – Baixei o rosto.
- ... O Tommaso gosta de você. – Lorenzo estava sério.
- Ah... Ele é um homem como qualquer outro, não vai ganhar prioridade, e outra que eu não posso fazer nada se meus olhos não são dele.
- Claro que pode! Decida gostar dele e se esforce! – Chiara parecia ter chego a uma conclusão.
- Mas esse é o problema... Eu não quero isso pra mim, entendam, por favor...
Entrei cabisbaixa, me sentindo em parte culpada por não retribuir Tommaso a altura. Tinha certeza absoluta que isso nunca aconteceria, não da forma que ele merecia. Meus olhos eram Dele, só dele. E isso com certeza não estava bem em meus planos, não mesmo, embora isso estivesse sempre em meus sonhos.
Subi na altíssima escada pendurando estrelas tridimensionais no teto. Assim faziam meus amigos, todos falando, enquanto eu ria das bobagens que eles diziam e às vezes complementava os comentários sem noção. A tarde havia passado voando, e aquelas eram as últimas coisas a se fazer por ali. Coloquei alguns detalhes dourados e pratas e enfim o nosso trabalho estava terminado. O salão estava deslumbrante e maravilhoso, um lugar de forma surreal, mas ainda não estava terminado. Seria instalada no outro dia a pista de dança, o palco, iluminação, toalhas e coisas pratas e a tematização completa do lugar.
(...)
Cheguei em casa e me atirei no sofá. Abri a bolsa e observei o convite. Era vermelho com letras douradas. Dizia local, hora e trajes. E em itálico “ Para uma pessoa especial... Em uma noite mágica”. Sabia que estava fazendo errado em iludi-lo, pois não gostaria que assim fosse comigo. Mas de qualquer forma, acreditava piamente que estava sendo friamente iludida, então que mal faria me divertir um pouco?
Tomei uma ducha caprichada, coloquei uma roupa normal. Fiz um jantar caprichado, meu estômago estava completamente vazio, uma tarde de arrumações é algo bem pesado. Comi como uma louca, ainda meio perturbada pelo assunto todo do baile. Arrumei tudo e saí.
Véspera de baile. Meu estômago estava mil. A noite estava linda e negra como sempre, esperava que a da próxima noite estivesse igual. Caminhei a passos largos e meio que apressados. Cheguei na Piazza, estava vazia como imaginei. Sentei na beira da grade observando a água, que por sinal parecia bem mais clara do que de costume. Não demorou muito para que ouvisse passos, e enfim despertasse de meus pensamentos.
Quiero hacerte un regalo, algo dulce, algo raro... No un regalo común, de los que perdiste o nunca abriste, que olvidaste en un tren o no aceptaste. De los que abres y lloras, que estas feliz y no finges.
- Boa noite senhorita...
- Boa noite... – Sorri.
Caminhou em passos cuidadosos e sentou-se a meu lado.
- Você vem sempre aqui?
- Sim, e você?
- Sim... Não consigo parar de vir.
- Que coincidência, eu também não!
- Nossa, acho que devemos nos conhecer, temos um grande interesse em comum. De onde você vem?
- De um reino muito muito distante... E você?
- Venho de onde você quiser.
- Hum, deixe-me ver... De uma colina perigosa, com seu alasão negro para salvar alguma princesa?
- Talvez... Ou quem sabe eu esteja esperando que a princesa me salve.
- Vai saber se não é ela que vem munida de uma espada e muita coragem.
- Ou quem sabe os dois.
- Que deduzo que formassem um belo casal, um belo e forte casal.
- Indestrutível...
- Brilhante...
- E obscuro como a noite.
Levantei-me e fiquei apoiada na grade, do outro lado, e alguns intantes depois, ele se aproximou de mim novamente.
- Eu... Eu preciso te dar uma coisa. – Gaguejou.
- Precisa?
- Preciso. Por favor, não me leve a mal... Não pense nisso como algo que não seja o que você pensa. O que você quiser ela será, o que quiser ela representará.
- Ela o que?
Abriu o casaco, e tirou uma caixa de veludo, comprida e bordô. Entregou-me calmamente. Fiz menção de abrir, mas fui interrompida por sua mão.
- Não. – Ele disse – Abra quando estiver sozinha, e espero que pense.
- Pensar em que?
- Você vai ver! – Ele sorriu.
- Ah, sim! De qualquer forma, muito obrigada!
Sorri abertamente e em um pulo joguei-me a um abraço apertado nele, que surpreso com minha reação, me envolveu plenamente.
Sentamos novamente.
- Comprou seu vestido para o baile?
- Sim! – Sorri – E também a máscara.
- Você máscarada deve ser mais misteriosa do que é.
- E você?
- Estou com meus preparativos terminados, até a última coisa que deveria fazer, agora não cabe a mim completar a noite.
- Nossa...
Tive certeza que estava me provocando, ele realmente deveria ter alguma mulher em sua vida, que não era eu, resolvi por retrucar.
- Que coincidência! Eu também estou com tudo pronto! – Sorri vitoriosa – Como você disse agora não cabe a mim completar a noite.
- É mesmo?
- É!
- Hum, temos muitos pontos em comum... Também tenho minha noite completa, vai ser mágica.
- Hum... A minha também! É só eu esperar meu príncipe me buscar amanhã e ir para o baile. – Falei em um tom forte.
- E esse seu príncipe vai como? Voando? A cavalo?
- De carro, obviamente, ele é um príncipe moderníssimo.
- E se ele não possuir um carro?
- Ele possui, já andei nele. – Ri – Vai ser perfeito!
- Ah... – Ele baixou o tom de voz – É, que coisa não... – Ele baixou a cabeça, visivelmente desanimado – Então...
- Vou indo, tenho que estar ótima amanhã. – Sorri – E ah, obrigada pelo presente.
Saí saltando pela Piazza, quando fui entrar entre as casas ouvi-o me chamar.
- Por favor, ignore tudo o que está escrito e o que há na caixa além do presente.
Estava sério, pude ver tristeza em seus olhos. Continuei caminhando e cheguei até minha casa. Fui até a sacada onde podia ver a noite, e abri a caixa aveludada e extremamente perfumada. Apoiei-me na grade e abri. Senti meu queixo cair e meus olhos se encherem de lágrimas. De emoção. Era um pingente, em formato de rosa, algo que eu nunca havia visto. As formas, tudo perfeitamente esculpido em prata visivelmente pura. Coloquei-o, dei-lhe um beijo. Levantei a parte aveludada de apoio para ver o que estava escrito. Peguei o papel, olhei. Senti como se houvessem me apunhalado, e minhas lágrimas emocionadas se tornaram odiosas e tristes.
“ Para uma pessoa especial... Em uma noite mágica.” Dizia no convite que ali estava, gravado em letras douradas. E no papel, com uma caligrafia desajeitada mas charmosa dizia: “ Espero que possamos tornar a noite mais mágica do que pode ser. Com você, posso fazer do impossível realidade. Se resolver ir, na Piazza, as 21h30min.” Meus olhos se inundaram inteiros, borraram a minha visão. Ele estava todo o tempo falando de mim, todo tempo insinuando que queria ir comigo, e eu retrucando. Me sentia uma boba, débil, sem sensibilidade. E além de tudo, havia desperdiçado a chance que eu mais queria. As oportunidades sempre vem, mas nem sempre somos espertos o suficiente para pegá-las e não as deixar irem embora. Acima de tudo, somos humanos, humanos às vezes extremamente idiotas.
Fui até meu quarto, joguei o vestido no chão, me joguei na cama, e ainda chorando, adormeci.

CAPÍTULO 19



- ... Você está bem?
Uma voz doce soava em meus ouvidos, e alguém me sacudia frenéticamente para que acordasse.
- Nã...Não. – Gaguejei, sentindo a cabeça pesada.
Vi que era Viola, sentou-se na beira da cama e me olhava preocupada.
- O que houve ? Me conte!
- Eu sou uma idiota muito idiota. Droga. – Bati o punho cerrado na cama e senti minha visão borrar por mais lágrimas.
- O que houve?
- Eu... Eu fui na Pi...Piazza e... – Minha voz estava travando pelos soluços contidos durante o sono – Ele me deu um presente...
- O que? Podemos denunciá-lo para a polícia e aí...
- Pare. – Interrompi – Eu que sou a culpada. – Disse me acalmando.
- O que você fez?
- Ele me deu esta corrente... – Mostrei a rosa – E dentro da caixa disse que havia algo que eu deveria ler, sozinha... Me comentou sobre o baile... Entendi que estava me provocando com alguma mulher e retruquei... Quando fui embora ele me mandou ignorar o que dizia dentro do presente, ele estava arrasado. – Baixei a cabeça.
- E aí?
- Quando eu li, era um convite para ir no baile com ele... E um papel com o convite por ele. – Solucei – Aqui.
Estiquei-lhe a mão, e ela alcançou o papel. Leu, baixou-o e me olhou fundo nos olhos.
- Eu não acredito. – Dizia ela – Eu nem sei o que dizer...
- Essa noite eu decidi, não vou mais ao baile. – Falei séria – Doe esse vestido, faça o que quiser, vou ligar para Tommaso.
Peguei o celular na mesinha de cabeceira e ela arrancou-o da minha mão.
- Você acha que sua noite vai ser melhor sozinha, chorando arrependida, ou se você tentar reverter? E se não der, você pode fazer pelo menos a noite do Tommaso boa, assim sua consciência fica mais leve.
- Mas e se...
- E se nada. Você vai e pronto.
- Você vai com quem?
- Com um belo colega de curso. – Ela deu uma risadinha.
- Ah sim, aquele... – Ri fraco – Ok, eu vou, mas eu não vou me perdoar.
- Além de tudo querida, não se esqueça, ele ainda tem o dele, e não é obrigatório entrar com par. – Ela piscou.
Senti uma pontada de esperança me invadir, embora considerasse aquela chance perdida. E convirei que apesar de feliz e inocente, Viola tinha uns conselhos ótimos e uma mente extremamente minunciosa e rápida.
- Agora se troque e vamos.
- Vamos aonde?
- , são 14h, e temos salão as 16h. Vou descer e fazer um café com pão para forrar seu estômago furado, e seu coração quebradinho. – Ela riu e correu.
Abri o armário indisposta e coloquei a primeira coisa que vi. Prometi nunca mais tirar a corrente e lembrar sempre a cada vez que a visse. Desci as escadas e quando vi estava Viola colocando um café na mesa. Comi, estava delicioso, e eu realmente tinha um buraco no estômago.
- Agora tire essa cara de choro e desânimo e vamos para uma tarde feminina.
Sorri apenas, e saímos. Viola foi falando sem parar sobre qualquer coisa, no intento de me distrair de meus pensamentos suicidas e coisas do gênero. Tentava sinceramente prestar atenção no que ela falava, mas não conseguia, minha mente estava na Piazza, e agora assumia, meu coração, com ele.
Pegamos um café, que tomei aos goles, e depois chegamos até o salão. Sentei-me na cadeira da manicure, pedi unhas cor de vinho, bem ousadas e violentas. Enquanto me fazia as unhas, pensava em tudo que havia acontecido, agora por uma perspectiva mais correta, acordada e calma. Talvez não tenha acontecido pois não era assim que deveria acontecer.
- “As coisas são como devem ser, e se não é, não vai acontecer.” – Pensei.
E se ele não quisesse mais me ver? E se tivesse desistido? Decidi que era melhor não pensar naquilo naquele momento. O futuro é próximo e incerto, tudo pode acontecer quando você menos espera.
Terminou de fazer minhas mãos e começou a fazer as unhas de meus pés. Me recostei na cadeira, e senti um leve sono aproximar-se de minha mente, mas não permiti que me tomasse, pois se dormisse, teria pesadelos como pela noite.
(...)
Já eram 18h quando sentei na cadeira do cabelereiro. Minhas unhas estavam lindas e finalmente secas.
- Hum, enfim você mocinha. – Ele sorriu – Fiquei lhe observando e vendo em minha mente os penteados que ficariam bem em você. Aqui – ele me estendeu um guardanapo – rabisque seu vestido.
Desenhei algo na pressa, que posso dizer que me surpreendi por ter ficado como era.
- Que cores é?
- Bordô, dourado e branco.
- Ótimo! Vamos começar... Como você quer?
- Algo com um ar misterioso e luxuoso, que dê pompa, mas ao mesmo tempo deixe feminino e meigo, algo que dê dualidade.
- Boa descrição! Já sei o que fazer. De costas para o espelho! – Ele deu uma girada em minha cadeira – Mas me diga, o que houve com você, porque está com essa carinha triste.
Enquanto me fazia algo não identificado nos cabelos, eu contava para ele minha conturbada história. Ele concordava e dava seus conselhos e palpites, que devo dizer eram extremamente reconfortantes e corretos.
- Mas me diga, com quem você vai ao baile então minha flor?
- Tommaso... Você deve saber quem é.
- Tommaso Vasallo? – Ele abriu uma boca enorme.
- Sabia que conhecia.
- Ele é um ótimo partido! Você ou é sortuda demais, ou vale ouro, ele é inalcançável, pelo menos era. – Riu.
- Me parece tão normal...
- Mas não é! É rico, inteligente, influente e extremamente bonito. Não me diga então que você é a garota que foi vista beijando-o?
- Talvez. – Ri.
- Minhas amigas te odeiam e tem uma inveja enorme de você.
- Que ótima notícia! Em algumas horas me tenho despedaçada. – Ri.
- Daqui a pouco alguém vem e cola seu coraçãozinho quebrado de um modo que nunca se destrua.
- Assim espero Donatello, assim espero.
Continuamos conversando, até que meu cabelo ficou pronto.
- Nossa, esplendoroso! Ficou ótimo no seu rosto, e faz bastante jus a época. Bom, partimos para a maquiagem. Dourado ficará ótimo. Garota, sorria, se não causará rugas precoces. Seu rosto é inocente e ao mesmo tempo não, tem um charme misterioso e esclarecido. Já sei o que fazer. Feche os olhos e a boca, e só sinta as cores em sua pele.
Ele falava como se a vida fosse um poema, como se um toque colorido já iluminasse todo o caminho. Talvez estivesse certo, que uma atitude mudava todo o contexto, que tudo tem sua parte no funcionamento complexo do universo. A maquiagem se terminou, estava oficialmente pronta. Eram 20h, tinha de voltar para casa. Abri os olhos e vi Viola parada em frente a mim, boquiaberta.
- Meu deus.
- O que? – Disse preocupada.
- Veja você mesmo. – Viola foi virar minha cadeira e Donatello a impediu.
- Não mesmo. Você promete que só verá depois que estiver com o vestido?
- Prometo. – Sorri.
- Então vá, faça da sua noite realmente mágica, estou certo de que será.
Ele sorriu, fiz meu pagamento. Saí sem olhar no espelho, cumpriria a promessa, embora a curiosidade me consumisse. Saímos do salão, e graças aos céus não havia vento, e a noite que caía estava límpida, dividida com o sol que baixava lentamente. Caminhava pelas ruas e todos me olhavam boquiabertos. Estava pensando se ou estava com um protótipo da Torre Eiffel na cabeça ou se estava realmente deslumbrante. Todo o caminho Viola me dizia que estava pasma com o resultado e que não precisava que me preocupasse, que se estivesse ruim ela me diria, e disso eu já tinha certeza. Ela estava fantástica, os cabelos em cachos bem formados e maquiagem prata com verde, parecia uma fada ou algo assim. Fomos até a casa dela pegar seu vestido e depois até minha casa.
Sentei-me em minha cama com meus lençóis dourados e almofadas espalhadas. Encaixei o vestido sem nem chegar perto de minha maquiagem e meu cabelo. Coloquei as sandálias de tiras grossas douradas, meus acessórios e não tirei a corrente. Viola bateu na porta e depois entrou, me vendo parada ao lado do espelho, sem ainda me ver.
- Você está inexplicável.
- É? – Sorri.
- Agora sim, veja você mesmo.
Empurrou-me delicadamente me deixando em frente ao espelho. A luz do sol poente refletia docemente em meu vestido dourado, dando um tom que lembrava o sol do meio dia nas paredes brancas em minha volta. O cabelo, ondulado, preso em uma espécie de coque armado, meio bagunçado. A maquiagem dourada com preto me deixava com uma ar de rainha. Estava deslumbrante, parecia ter sido trazida de outra época, não sei explicar.
Acordei de meu delírio por minha imagem e olhei para Viola. Estava linda, como jamais a havia visto. O vestido a delineava perfeitamente bem. Me lembrava a natureza, a beleza, perfeição e inocência da natureza, que se usada do jeito errado pode se tornar fatal – o que me passava o violento decote terminado por uma fita mimosa verde – estava maravilhosa.
- Viola, você está lindíssima. – Meus olhos brilhavam.
- Estamos lindas! – Ela sorriu.
- Temos tempo! Vamos Viola, vamos!
Puxei-a pela mão, e descemos as escadas correndo. O sol havia se posto inteiro, era noite. Depois do fim de todos os preparativos, eram 21h15min, quando paramos no vão da porta.
- Vamos aonde?
- Na Piazza. Não posso deixar de tentar, por favor me entenda e me ajude, não posso ir sozinha, mas temos pouco tempo!
- Vou com você, claro!
Abri a porta e saímos as duas. A cada passo que dávamos, atraíamos olhares curiosos, invejosos e hipnotizados. Ouvimos diversos elogios somente em passar por dois canais. A cidade toda estava vestida de época, como se vivêssemos em um tempo passado. Pessoas de carruagens e muito movimento. Mulheres deslumbrantes, e outras simples. Homens lindos e alguns humildes mas bem arrumados. Meu vestido à luz da lua ficava brilhante, como um sol durante a noite. Eram 21h25min, e faltava um bom caminho para chegar até a Piazza. Corremos, desviamos de pessoas, apressadas e ansiosas. Chegamos até a Piazza 21h30min, pontualmente. Estava vazia, vazia como eu. Deserta.
- Ele não está aqui. – Baixei o rosto.
- Ah ... Não posso fazer nada por você, mas se pudesse faria...
- Você já faz muito Viola, muito.
Abracei-a.
- Por favor não chore... Você está linda, é a sua noite...
- Não chorarei prometo! E...
Parei de falar ao ouvir galopes de cavalo se aproximando. Corri até a beira das casas, e estava tudo vazio, deserto. Pensei ser uma alucinação, e talvez realmente fosse. Fomos caminhando até nossas casas.
Peguei o convite que Ele me deu, guardei dentro de Venecia. Primeiramente peguei o livro, passei os dedos por cima de suas páginas e abri em uma aleatória. Li o rodapé, onde sempre havia uma frase que se encaixava com os acontecimentos daquela fase do livro.
“A lua entre as árvores pode iluminar mais do que o sol se for vista na hora certa.”
Coloquei o convite ali e fechei o livro. Bastou isso e a campainha tocou. Coloquei-o na estante e abri a porta, preparada para uma longa noite.

CAPÍTULO 20



- , boa n...
Tommaso parou de falar e observou-me de cima a baixo, deixou seu queixo cair.
- Eu não acredito que vou sair com a mulher mais esplendorosa e inexplicável do baile.
- Não exagere Tommaso. – Ri – Você está lindo! Ok, você é lindo.
- Não como você, tenho certeza. Pronta?
- Pronta.
Me estendeu o braço, e eu encaixei o meu. Chegamos em seu carro, entramos. Fomos rindo e conversando até o salão. Abriu-me a porta como um cavalheiro, e algumas garotas nos observavam, me fuzilando com os olhares. Chegamos a beira do tapete vermelho e colocamos nossas máscaras. Segurei sua mão, entreguei o convite. Entramos calmamente no salão, onde pessoas muito bem trajadas bailavam uma valsa. Pensei se a noite inteira seria assim, instrumental e melancólica, o que não era bom pois o que queria era me divertir e esquecer um pouco o fato de eu estar acompanhada de Tommaso e não Dele.
- Me dê a honra desta dança? – Tommaso estendeu-me a mão quebrando minha linha de pensamentos.
- Ah sim, claro.
Segurei-lhe a mão, ele me guiou até o centro do salão e com um gesto delicado e jeitoso, tomou-me em seus braços e começamos a dançar. Ele era realmente um homem cheio de qualidades – ou seja - além de tudo que fazia bem ainda dançava como um anjo, voando. Estava sendo conduzida por meio salão, com muitos olhares voltados para nós, todos observando a nossa ritmada dança. A canção findou-se e Tommaso me segurou baixo em seus braços, deu-me um leve beijo me deixando corada. Uma música atual mais animada começou a tocar e comecei a dançar junto. Muitas pessoas transitavam sem parar em torno a mim, me confundindo.
- Boa noite senhorita. – Uma voz doce ecoôu em meu ouvido.
Senti calafrios percorrerem meu corpo. Olhei instantaneamente para trás e Ele não estava ali. Mas sentia, estava naquele salão, estava presente. Segurei a rosa em meu pescoço, presa ao fio de veludo negro que parecia me sufocar.
- Tommaso, fiquei aqui, volto logo, é urgente.
Saí correndo por entre o salão, olhando os rostos dos rapazes que passavam por mim. Eles sempre eram tão diferentes, mas quando mais precisava pareciam todos iguais. Máscaras eram realmente um tema muito lindo, mas nessa hora não eram minhas melhores amigas.
- Não foi uma alucinação! – Cochichei.
Corri por toda a extensão do salão e nada encontrei. Ou talvez tenha encontrado, mas não o reconheci. De nada me adiantava encontrar Viola, ela não saberia reconhecê-lo caso o visse.
Passei na copa, peguei dois ponches e voltei até onde Tommaso estava.
- Você sumiu!
- Não sumi! – Sorri – Fui pegar uns ponches para nós.
- Ah, obrigado. – Tommaso bebeu um gole do ponche azul – Ah, um rapaz veio falar comigo perguntando sobre a “moça” que estava me fazendo companhia.
- Como ele era?! – Gritei, depois, recuperei a calma – Como ele era? O que você disse?
- Tinha jeito de uns 19 anos, cabelo preto meio bagunçado, mas estava de chapéu.
- E o que você disse?
- Que não ia dizer oras! Que interessava a ele saber? Ah disse também para não procurar mais você.
- Ah não. Você não disse isso, disse?
- Algum problema?
- Ah, eu não creio Tommaso, não creio!
- Porque essa revolta?
- Você não deveria ter feito isso, não deveria. O que eu faço agora? E se ele não voltar?
- Ele é seu namorado por acaso?
- Não! E o que te interessa? – Me alterei.
- Na...Nada. – Ele engoliu a seco.
- Ah me desculpe. – Disse me recompondo – Mas é uma coisa minha.
- Não sabia...
- Você não teve culpa.
Tapei a máscara na intenção de tapar a visão e extravasar meu desespero. Ele havia vindo me procurar e Tommaso havia mandado-o embora. Mas nada garantia que poderia ter sido ele.
- Volto já Tommaso. Me desculpe... Mas preciso de tempo sozinha.
Saí dali a passos largos, esbarrando em pessoas diversas que se encontravam divertindo-se ao som de uma música extremamente chata e repetida.
Comi alguns doces na mesa de guloseimas, precisava repôr o nível de alegria no meu sangue, pois este mesmo me faltava desde a noite anterior. Ainda mais naquela hora, que sabia que Ele estava ali e que provavelmente estivesse indo embora.
Passei por Viola e seu parceiro, seqüestrei-a dele, precisava falar com ela.
- Viola... Ele está aqui.
- Ele quem?
- Ele! Que ele mais eu estaria falando?!
- É sério?
- Sim! Ele falou comigo, mas não o encontrei. Tudo indica que perguntou a Tommaso por mim, e ele o mandou parar de me procurar.
- Eu não acredito!
- Pois acredite. Estou arruinada Viola, arruinada. O que eu posso fazer? Nem brigar com Tommaso posso, a culpa não foi dele! Ele não sabia que o cara era Ele.
- É mesmo... Mas ele não deve ter ido embora... Pelo que você conhece dele com certeza sabe que ele não sairia e desistiria assim no mais.
- Depois do que eu fiz na última noite...
- Só para constar, você não fez nada. Só fez seu papel de na defensiva.
- Ah Viola...Eu não sei o que fazer...
- Eu se pudesse lhe ajudava, mas não tenho opções, a única pessoa que tem opções aqui é você... Só lhe digo... Ainda não chegou a meia noite, não desista, você ainda pode ser a cinderela.
- Obrigada Viola!
Sorri e saí a passos determinados a fazer alguma coisa, embora não fizesse idéia do que. Resolvi por tomar um ar, seria o melhor que poderia fazer, pois me faltavam recursos e ânimo.
Cheguei até o bosque fora do salão, onde não havia nenhuma sequer movimentação, pois as portas estavam fechadas e só seriam abertas depois da meia noite e meia, mas poderia-se ir até lá, se quem quisesse se desse conta de virar a maçaneta.
A noite estava esplêndida, o céu estreladíssimo, e a lua cheia como um grande lustre pendurado no céu, meio encoberto por dentre as copas das árvores frondosas e muito verdes. Caminhei por dentre as árvores e cheguei até uma espécie de campo, e ao seu fim, uma grade e um canal com o fim onde meus olhos não alcançavam, somente via o horizonte.
A água negra como sempre servia-me como um espelho, onde a imagem refletida era como um raio dourado e brilhante. Concentrei-me em minha imagem, e assim fiquei até ser “acordada” por um som de galopes constantes e se aproximando. Não me mexi, ouvi alguns passos se aproximando, e o vento me trouxe aquele doce perfume o qual mais amava.
Y estaba atento a no amar antes de encontrarte, y descuidaba mi existencia y no me importaba.
- Boa noite senhorita...
- Boa noite... – Sorri involuntariamente.
- Achou que eu não viria?
- Esperava que viesse... Não imagina como me senti...
Em um impulso, pulei em cima dele, pendurando meus braços sob seu pescoço. Me segurou forte pela cintura, tirando meus pés do chão, em todos os sentidos. Abraçá-lo era o que mais me fazia bem, mais do que tudo que poderia um dia fazer na vida.
- Agora sim, minha noite pode ser boa...
- Senhorita, não vê que não sou bem vindo?!
- Como assim?
- Seu homem mandou-me para fora.
- Ele não é nada meu.
- Verdade?
- Não mentiria para você.
- Estou certo disso meu amor.
Ainda estava com o rosto encostado a seu peito, enquanto me segurava a cintura. Ouvi-lo chamar-me de meu amor sem ironias, sarcasmo nem nada do tipo simplesmente iluminou aquela noite perdida, que enfim parecia tomar um rumo.
- Essa noite está especialmente mais bonita... – Sorri.
- Por que você acha isso? – Ele me questionou com uma cara instrospectivamente curiosa.
- Pois não é uma noite comum, sei disso, embora há um bom tempo não tive mais noites comuns.
- Dama... Uma noite como essa jamais será comum... – Ele me tocou o rosto com sua mão quente e perfumada – Mas se for, prometo fazer dela a mais especial.
Segurava delicadamente meu rosto com uma mão, acariciando-o, enquanto com a outra me segurava junto a si, por minha cintura. Tirou minha máscara, e logo depois a dele. Arrumou seu chapéu, largando as duas máscaras no chão. Olhou-me fundo nos olhos, senti minha vida mudar de rumo, meus nexos se tornarem inexistentes, e as explicações para tudo sumirem dentro do sentimento que percorria todo meu corpo, como se estivesse prestes a explodir.
Calmamente, encostou seus lábios nos meus, e estava certa de que nem se o mundo caísse sobre nós, aquele momento deixaria de ser inexplicável. Era como se pedaços do céu e das estrelas chovessem sobre nós, penetrando em minha pele, deixando um brilho enorme dentro de mim.
Seus lábios eram macios, seu sabor era doce e lembrava-me sabor de desejo. Tinha gosto de frio na barriga e de lágrimas emocionadas. Seu beijo calmo, dessa vez sem nada que nos atrapalhasse era como um vício, quanto mais o sentia mais o desejava. O jeito que tocava meus cabelos me hipnotizava, era como se nos encaixassemos perfeitamente, dia e noite. Poderia que acontecesse qualquer coisa, a única que não permitiria é que aquele momento acabasse. Sentia seu doce beijo como um adulto que ganha um brinquedo que pediu desde criança, como um sonho sendo realizado, e para ser mais exata, melhor do que o sonhado. O barulho do vento na água era encantador, as folhas movendo-se, o vento assoviando entre os troncos. Tocamos nossos lábios levemente depois de um beijo que poderia ter durado a eternidade. Enfim compreendi porque o destino nos fez esperar tanto por isso, para ser da forma que foi, para não ser mais um, para ser o melhor, inesquecível e acima de tudo, inexplicável.
- Minha dama... Minha garotinha... Minha... Mulher. – Ele disse observando os traços de meu rosto.
Não consegui pronunciar uma sequer palavra, estava em choque.
- Tenho... Que ir.
- Não! – Gritei em um impulso – Tem mesmo?
- Sim, quem sabe nos vemos novamente...
- Quando?
- Quando você menos esperar, quando eu menos esperar... Na hora que deve ser.
Olhei em seus olhos, querendo prender sua imagem dentro de mim, para nunca deixá-la partir. Segurou meu rosto entre as mãos, encostou levemente seus lábios nos meus, em um beijo pequeno e discreto, mas mesmo assim muito valioso. Colocou sua máscara, e logo após a minha novamente em meu rosto. Subiu em Hades e desapareceu.
Apoei-me em uma árvore, sentindo a brisa gelar meu rosto. Somente sorri, de um jeito que não fazia há muito tempo. Olhei para a luz por entre as árvores. Se vista na hora certa iluminava mais que um sol, um sol durante a noite.

CAPÍTULO 21



Entrei no salão novamente, e ainda estava lá Tommaso, esperando-me onde o deixei.
- Achei que tinha ido embora... – Baixou o rosto.
- Obviamente não deixaria você aqui sem mais.
- Achei que estivesse chateada comigo...
- Não Tommaso, a culpa não foi sua... Além do mais não há problemas. – Sorri.
- Nossa, estava preocupado... Mas enfim, daqui há um tempo irão anunciar o rei e a rainha do baile...
- Que coisa mais estilo colegial... – Ri.
- Sim... Estão os observando desde o início da noite, mas não comentam nem dão pistas de quem seja.
- Explique-me.
- É tradição... Após os coroarem, devem ter a dança dos soberanos, onde ambos se encontram. As fotos dos soberanos de cada baile são reproduzidas em tinta em quadros que ficam em uma sala do museu da cidade, mas nunca, nunca saberão quem são os soberanos se não os conhecerem, são apenas falados por pseudônimos.
- Nossa, que entusiasmante! – Disse sorrindo.
- Já houveram grandes histórias e soberanos misteriosos...
- Hum... Isso realmente me atrai. – Sorri.
- Percebi, por isso comentei.
- Bem atento você. – Ri.
- Quando é necessário... – Ele riu – Venha, vamos dançar.
Fomos até o centro do salão e começamos a dançar. Uma música antiga animava as pessoas de trajes pesados que pareciam nem se importar com isso. Minha noite já estava ganha, agora poderia fazer com que Tommaso pelo menos não dormisse.
(...)
Fomos até a mesa de bebidas, onde nos servimos de taças de um vinho italiano saborosíssimo e de um gosto delicado e doce, que me lembrava Ele. Comi algumas uvas, muito bonitas e brilhantes. Ao longe avistei Viola, larguei Tommaso com um amigo e fui falar com ela.
- Viola!
- O que?
- Você não imagina o que aconteceu!
- Se você não me contar não imagino mesmo. – Riu.
- Ele, Ele!
- O que tem Ele?
- Ele está aqui! O encontrei no bosque!
- E aí?
- Ele me... Me beijou! Ficamos juntos, foi perfeito!
- Então ele ainda deve estar aqui, quero vê-lo!
- Não sei! Hades estava aí, e ele sumiu com Ele.
- Hades?
- O cavalo.
- Ah sim, esqueci que ele usa meios de transporte alternativos. – Riu – Mas quem sabe você o veja!
- Você não imagina o quanto desejo isso. E realmente foi ele que falou com Tommaso.
- Mas Ele não ficou bravo?
- Não! Ele me chamou de meu amor.
- Essa noite é mágica para você , aproveite!
- Ah Viola... – Abracei-a.
- Shh, vai começar a indicação dos soberanos.
- Ah, vou encontrar Tommaso.
Voltei até onde Tommaso estava, ou melhor, onde deveria estar. Eram 2h da manhã, e não O via desde então, estava perdendo as esperanças de vê-lo.
O silêncio se fez presente e um coral começou a cantar uma música sinistra, com um som luxuoso ao fundo, mas em conjunto bonita. Estava caminhando por entre as pessoas, a procura de Tommaso que havia desaparecido. Um homem de cartola, máscarado no palco, falava algumas palavras que supus que seriam algum poema costumeiro, algo de tradição, bem misteriosa e estranha por sinal.
- E agora, o momento mais aguardado da noite... Os soberanos...
Todos cochichavam e faziam torcida para si mesmos. Caminhava a passos cuidadosos, a procurar em cada canto Tommaso, que parecia ter se esfumaçado e no momento estar voando por dentro do salão e sendo respirado por mil pessoas de épocas perdidas.
- Uma mulher brilhou como um raio de sol, um brilho que ofuscou até as mais chamativas estrelas. De um movimento perspicaz e um charme misterioso... A soberana desta noite é ela, a Dama Dourada.
Olhei para o palco. Um holofote iluminou-me com uma luz extremamente forte, que me cegaria se não fosse a máscara. Todos me observavam pasmos, como se não houvessem notado o brilho de meu vestido e minha existência ao longo de meia noite que já havia se passado. Procurei a Dama Dourada e não a vi, mas depois de um tempo, percebi que a soberana era eu. Um homem conduziu-me até o palco, onde subi. Palmas roubaram o lugar das vozes agudas e graves do coral, ganhando-me.
- O dia, não existiria se não houvesse a noite. Um homem misterioso escondia-se por entre as sombras, munido de um alasão negro e muita paixão em seus olhos, de uma forma que jamais se viu igual. O soberano desta noite é ele, o Cavaleiro Negro.
Do palco, podia ver cada pessoa que se movimentava no lotado salão. O mesmo holofote iluminou um homem no arco agora aberto do bosque, brilhante e obscuro. O mesmo caminhou em passos lentos por entre as pessoas que abriam caminho e tentavam vê-lo. Tinha certeza, eu o via melhor do que todos. O sorriso límpido aberto, os cabelos caindo sob sua máscara de veludo negra. Subiu ao palco, parando a meu lado. Sorri, Ele sorriu. Parecia tão surpreso quanto eu, mas como sempre, aparentava uma segurança invejável. O coral começou a cantar algo que não entendi, enquanto nos “coroavam”. Em mim, foi posta uma espécie de coroa dourada, discreta. Nele idem, sob seus cabelos negros antes escondidos pelo chapéu.
Desceu as escadas, e estendeu-me a mão para que descesse em segurança, chegando até o centro do salão, que estava vazio e oval, por um círculo de milhares de pessoas nos observando. Segurou minha cintura com uma mão, e com outra segurou minha mão. Uma valsa de sons graves e fortes tocava, como uma marcha. Me conduziu pelo salão, deslizávamos como se não estivéssemos tocando os pés no chão. Olhávamos um nos olhos do outro, fundo. Senti sua respiração bater em meu rosto como brisa suave. Deslizamos quase sem fazer esforço por algum tempo, quando a música acabou. As luzes se desfizeram totalmente, deixando uma escuridão que deixava qualquer um impossibilitado de enxergar.
- Disse que nos veríamos novamente... – Ele sussurrou em meu ouvido – E quando menos esperássemos.
- E eu acredito em você, tão piamente ao ponto de que as coisas acontecessem.
- Dama, parabéns por ganhar a noite.
- Para você também nobre cavaleiro.
- Devo ir-me embora... Minha noite está completa.
Senti seus lábios calarem minhas palavras que iriam sair. Abafou-as, deixando-me em silêncio, somente sentindo-o.
Em menos de um segundo, largou-me e senti-o se distanciar, embora não o visse, e não fizesse idéia de para que lado houvesse ido. Alguns segundos depois as luzes voltaram a se acender, e as pessoas já pareciam nem ligar para o que havia acontecido alguns minutos atrás.
Avistei Viola ao longe e corri até ela, que veio pulando em minha direção.
- Eu não acredito que você ganhou a soberana! Que inveja!
- Obrigada pelo parabéns subliminar. – Ri – Mas não é isso o fato da noite.
- Qual é?
- Venha!
Peguei-a pela mão, e a arrastei correndo até o bosque.
- Fale agora!
- O cavaleiro negro, você o viu não é?
- Vi!
- Pois é, ele é Ele! Ele Viola, você viu o meu motivo de sair todas as noites.
- Não me diga que o seu soberano é o cara que você encontra todas as noites?
- É Viola, é! É inacredotável o acaso com que as coisas acontecem entre nós!
- Ele é lindo. Pelo menos ao que parece.
- Agora você entende porque eu gosto dele e não de Tommaso.
- E por sinal ele estava aqui há uns minutos quando você ganhou e não parecia muito satisfeito...
- Eu o estava procurando...
- Estou com pena dele.
- Ah, nem me fale, vou procurá-lo.
Saí dali deixando novamente Viola com seu par. Revirei o salão do avesso e não encontrei. Fiquei a vagar sozinha por ali, quando depois de sem exagero uma meia hora, o encontrei a conversar com uma loira.
- Parabéns ! – Ele sorriu feliz e me abraçou.
- Você sumiu! – Falei alto.
- Estava a conversar com antigos amigos... Você sabe, reencontros. – Piscou.
- Ah sim, e obrigada. – Sorri.
- Agora vem, vamos aproveitar o que nos resta da noite. – Ele pegou a mão da garota – Tch...Tchau Alessia, fo...Foi um prazer te ver de novo.
A impressão que tive era que ele queria sair correndo. A mão que eu segurava estava trêmula e insegura, e seus passos eram apressados e incertos.
- Você está bem? – Perguntei.
- Sim, estou... – Ele não parecia certo no que respondia.
- Ok então...
Resolvi não tocar mais no assunto, vai que não era algo bom de se falar, porque realmente parecia não ser.
(...)
O resto da noite passou em um flash, voando. Dançamos e rimos sem parar, comemos, tiramos fotos, até cantamos. Eram 5h quando de carro, Tommaso deixou-me na porta de casa.
- Obrigada pela noite Tommaso.
- Sempre, sempre as ordens. – Ele sorriu.
- Você não existe.
Sorri, e na ponta dos pés abracei-o com todo o carinho que pude. Ele realmente merecia, era alguém o qual eu não encontraria igual em nenhum lugar do mundo.
- Eu sou o que há de mais comum... – Sorria – Mas você... Você que talvez eu nunca encontre igual.
- Ah Tommaso, sejamos mais realistas. Igual a mim existem muitas... Eu sou comum até demais.
- Sabe, o que me chama mais atenção em você, é que você é assim sem se esforçar, é sempre natural, e isso é uma qualidade rara...
- Obrigada... E você sabe como deixar uma garota feliz.
- Hum... Sempre as ordens de novo. – Ele piscou.
Sorrimos um para o outro, e agora mais confortavelmente nos beijamos. Deixei minha felicidade derreter-se sob os lábios, para que nem que seja um pouco, Tommaso recebesse algo inteiramente verdadeiro.
Entrei em casa, fui até meu quarto. Me despi em partes, vendo minha noite cair ao chão pouco a pouco. Deitei em minha cama sorridente, e segurando a rosa em meu pescoço, dormi.

CAPÍTULO 22



- Um lindo dia! – Abri a janela, sorridente.
Pulei da cama e olhei o relógio. Eram 14h30, um horário bom de se acordar. Desci escorregando pelo corrimão e quando caí mal cambaleei, ou seja, um grande avanço. Fiz um almoço rápido e bem nutritivo. Troquei de roupa e saí.
O dia estava claro. O sol batia forte nos olhos e me fazia querer fechá-los. Como sempre todos andavam sorridentes por aí. Passei no banco e peguei dinheiro, era chegado o dia de fazer minha nova adesão: uma scooter. No Brasil havia tirado carteira, mas não cheguei a usar, e aquela era minha oportunidade perfeita. Me dirigi até a concessionária.
Andei por toda ela, observando os diversos modelos e cores que ali estavam. Mas uma em particular me chamou atenção: preta, metalizada. Tinha todos os detalhes em prata, extremamente discreta, fácil de se passar despercebida. Acertei os papéis com o homenzinho barrigudo e fui comprar alguns detalhes. Um capacete preto para andar em alta velocidade, e algumas coisinhas divertidas. Estava no setor de modificações e pedi para o homem adicionar uma estrela prata no preto, e ele o fez. Estava linda, exatamente como eu queria.
Saí de lá montada em minha nova moto. Era ótima e muito confortável, andava agradávelmente calma, mas se acelerasse poderia quase voar – assegurei-me de comprar algo disfarçadamente calmo mas que pudesse atingir grandes velocidades – e resolvi por passar no supermercado.
O supermercado estava cheio de pessoas comprando freneticamente. O ritmo em Veneza era agitado embora as pessoas não tivessem pressa alguma. A tradicional euforia italiana se mostrava presente até em um momento de introsação monetária no supermercado. Enchi minha cesta com as mais variadas coisas, desde doces até alguns sacos de granola e derivados de soja. Depois, fui para casa de moto e resolvi dar uma voltinha por Veneza, com algum meio de transporte, que desta vez não era um cavalo.
O dia estava muito lindo, as ruas bem movimentadas. Minha moto até que era bem discreta perto das que passavam quase voando por mim, e convirei que andar em baixa velocidade – mas mais rápido do que caminhando – era bem agradável, mas não é mais agradável do que cavalgar em Hades bem acompanhada, fora o fato de que a moto não dava pulos nem relinchos fora de contexto. A cidade é realmente muito agradável, em tdos os sentidos possíveis e até improváveis.
- Bom dia moça. – Um homem disse da janela de um carro negro, em alto e bom tom, que logo reconheci que era Tommaso.
- Bom dia! – Gritei para que chegasse ao alcance da janela da BMW que já se afastava.
Ouvi uma buzinada em sinal de resposta ao que disse alguns segundos atrás. Segui em velocidade calma até começar a circundar a praça, calmamente. Buzinei para algumas pessoas que estavam em um banco, ou seja, meus amigos. Estacionei quase ao lado deles.
- Você comprou uma moto, não acredito! – Viola pulou a meu lado e começou a praticamente alisar minha scooter.
- Comprei, agora, me inveje.
- Já estou fazendo isso. – Viola cheirou a moto.
- Você cheirou a minha moto?
- Claro! Pra ver se tem cheiro de coisa nova.
- Andar com você é suicídio social.
- Vou fingir que não ouvi isso.
- Hum. - Ri – Mas tudo bem, eu supero você e suas loucuras.
- Me deixe ser feliz, obrigada.
-Sempre as ordens. – Sorri.
Quando me dei por conta Lorenzo estava montado na moto.
- Posso andar? Diz que sim...
- Você tem carteira?
- Sim! – Ele fez uma cara fofinha.
- Ok, vá.
Em questão de segundos vi Lorenzo e minha moto ao longe, rodeando a praça em um movimento circular enjoativo e feliz. Estacionou a meu lado, e parecia satisfeito com as voltas, tal qual um peixinho dourado rodando sem parar em um aquário incomodamente redondo.
- Satisfeito?
- Totalmente. Sua moto é muito boa e você teve muito bom gosto.
- Ah, ótimo. Obrigada Lorenzo!
- De nada!
Estacionei a moto em um local mais apropriado e fui sentar no banco com eles. No grupo a frete, do outro lado da praça, estavam Tommaso e seus amigos.
- Olha quem está lá! - Chiara cantarolava apontando discretamente para Tommaso.
- Ah Chi... Não sei se quero mais ver ele...
- Você não pode deixá-lo assim sem mais explicações, não ouse fazer isso. – Viola falava em tom de ameaça.
- Vocês não entendem e nunca vão entender. - Baixei o rosto.
- Nós te entendemos , mas também entendemos o lado do Tommaso. – Lorenzo era sempre o mais paciente comigo.
- Ele supera! - Ri.
- Tenho pena dele.- Viola olhava Tommaso rir ao longe.
- Eu não. Quer dizer, tenho, mas não devia.
- Pelo menos um pouquinho de consideração... – Chiara implorava.
- Deixa, ela está aprendendo a ser má com Ele.
- Com o Tommaso?
- Não. Com Ele!
Cada vez que Viola falava “Ele”, fazia uma voz de como se Ele fosse algo o qual não se pudesse dizer o nome, consideravelmente perigoso ou algo do tipo. Tudo bem, nós nem sabíamos o nome dele.
- Ah! Tommaso está vindo! – Viola fingiu estar falando qualquer outra coisa não entusiasmante, sendo que pra mim ele nem era nada de muito empolgante.
Continuei a conversar sobre um assunto aleatório que Viola inventou na hora para disfarçar. Tommaso chegou e se abaixou para falar comigo.
- Boa tarde Dama Dourada! – Ele sorriu.
- Boa tarde hum... Plebeu.
- A seu dispôr.
- Você sabe que essa afirmação abre um precedente muito grande, não sabe?
- Sim, e estou a seu dispôr da mesma maneira, consciente.
- Bom saber.... – Ri – Nem vou te perguntar o que faz aqui pois está sempre sentado aqui.
- Assim como você! – Riu - Bem, me diga uma coisa, eu alucinei ou era você na moto?
- Era eu mesmo!
- Não sabia que você tinha!
- Comprei! Bonita não é?
- Muito! Combina com seu jeito misterioso e brilhante.
- Hum, se isso foi um elogio obrigada! Se não foi então ok. – Ri.
- Pode ser!- Ele deu uma risada gostosa – Quer assistir um filme hoje pela noite?
- Já tenho compromisso.
Viola pigarreou indiscretamente.
- Mas enfim, já tenho compromisso.
- Que pena... Podemos deixar para outro dia...
- De preferência pelo período do dia.
- Se assim é melhor para você pode ser!
- Combinado então! – Sorri.
-Bom, vou voltar para meus amigos antes que venham me buscar. – Riu.
Me deu um selinho, que me deixou bem envergonhada. Saiu quase pulando, com uma felicidade visível a quilômetros de distância.
(...)
O resto da tarde passou voando. Fui pela tardinha tomar um capuccino com meus amigos em alguma lancheria aleatória, a qual adotarei pelos próximos dias e lanches, pois o café estava delicioso. Voltei de moto com Viola para casa, e estacionei-a em seu novo lar, em frente à porta. Fiz um jantar caprichado para terminar de tapar o buraco que eu suponho ter no estômago, que parecia bem maior naquela hora. Comi como um cavalo faria, o que já era de costume para mim e que todos estão cansados de saber. Limpei tudo, troquei a roupa.
(...)
Um chapéu negro adornava meu rosto, deixando meus olhos envoltos em sombras. Saí de casa calmamente, um pouco mais cedo do que de costume. A noite clara e enegrecida estava pálida, sem estrelas, coberta por algumas nuvens, somente alguma luz da lua se sobressaía por dentre as mesmas, mesmo pouca já iluminava. Podia ter quase certeza que eu era a única alma viva por ali, pelo menos a meu alcance de vista sim. Alguns gatos reviravam as latas de lixo prateadas de alguns restaurantes e pizzarias que naquela altura do campeonato estavam mais do que fechadas, mas eles não contam como almas vivas. Caminhei com as mãos arratando na grade, gelada e úmida pela garoa fraquíssima que caía e que mesmo fraca molhava. Cheguei até a Piazza, que como imaginei estava vazia.
Piazza, a nossa Piazza. Como sempre igual e linda, misteriosa e clara. Lá agora estava uma das partes mais importantes da minha vida, aquela que descobri amar, do modo mais singelo e violento o qual jamais vi.
Em um gesto infantil estendi a mão na intenção de tocar a lua. Uma respiração quente tomou conta de minha nuca e meu pescoço. Um braço envolveu minha cintura, enquanto outro se estendeu junto ao meu.
Desarrollaste mi sentido del olfato, y fue por ti que aprendí a querer los gatos. Despegaste del cemento mis zapatos, para escapar los dos volando un rato.
Tocou sua mão na minha, entrelaçou os dedos.
- Você quer? – Ele cochichou.
- O que?
- As estrelas... – Ele mecheu nossas mãos.
- Quero...
- São todas suas.
- Como você sabe?
- Estou dando-as a você...
- Não as vejo...
- Mas estão lá... Se pudesse traria para você. Nada melhor do que ter o que deseja em suas mãos. – Segurou fortemente minha cintura com as duas mãos.
- Concordo plenamente. – Segurei suas mãos.
Me puxou para perto de si, me abraçando por trás. Seu cheiro me deixava quase tonta, perturbada. Sua voz me entonava. Era aquele tom que embalava meus sonhos e sorrisos.
- Sabe...- Quebrei o silêncio – Queria entender como chegamos até aqui...
- Como assim?
- O jeito que o universo fez, o que se passou por nossas mentes para que estivéssemos agora assim, juntos.
- Ah dama... Se soubéssemos a graça não existiria... A aventura é não saber o que estamos passando, o que estará por vir. E quando tentamos, não chegar a lugar algum. Essa é a lógica de nós dois.
- Eu até entendo... Mas de um jeito diferente de palavras, algo que somente eu entenderei, e quem sabe você também entenda.
- Certamente entendo... Só que fico tão desconcertado quanto você... Isso me parece uma grande novidade.
- Pois é.
Não sabia muito bem ao que estávamos nos referindo. Amor, paixão, relacionamento, aventura. Nenhum dos dois havia sido explícito o suficiente para ser possível entender, mas de qualquer forma, qualquer um deles era uma forma válida de envolvimento. Já deveria agradecer por ter conseguido estar junto dele, o cara que eu sempre quis.
Sempre fui de sonhar com o romance perfeito, a história da cinderela, Romeu e Julieta, Bela Adormecida. Ou até com aquelas histórias de cavaleiros misteriosos e damas vulneráveis. Aquele garoto que viria para mudar a minha vida, que me traria paz e confusão, que me daria os opostos perfeitos, o equilíbrio. Agora sabe por que eu me taxo de sonhadora. Aquele pelo qual não me importaria mais nada, que só me importasse estar com ele. (Capítulo 1)
Agora, ele existe, a pessoa que me completou, me deu equilíbrio, me deu um coração para colocar no lugar do vazio que antes havia ali.
Segurou minha mão, prendendo-a delicadamente na sua. Saímos andando de mãos dadas, em silêncio, até a Piazza San Marco. Paramos ao centro dela.
- Porque paramos aqui?
- Feche seus olhos.
Fechei-os delicadamente. Sua mão tocou docemente meu rosto, e a outra segurou minha cintura. Senti sua respiração próxima a meu rosto, enrolando violentamente meu estômago.
- Quero que você guarde essa estrela sempre consigo. Talvez não possa vê-la, mas pode senti-la minha dama.
Surpreendi-me ao sentir seus lábios selarem os meus. Estavam macios e doces como no primeiro beijo. Começou a me beijar delicadamente, de um jeito que nunca provei igual. Era calmo, me despertava cada sentido oculto. Poderia compará-lo ao mais puro anjo que já imaginei e ao mesmo tempo ao mais pecador e delicioso demônio que já temi. Tinha um jeito forte de me segurar, e um sabor doce que me abria o paladar – e que não era o de comida – como se fosse ele meu ponto fraco. Queria que aquele beijo não acabasse nunca, que me iluminava como se estivesse tocando uma estrela. Agora entendia porque ele havia comparado um beijo a uma estrela.
Soltamos-nos, olhando fundo nos olhos. Ele me abraçou forte, deu-me um beijo no pescoço e rapidamente, sumiu por dentre as sombras e pilares de um beco deserto. Sorri e caminhei calmamente para casa.

CAPÍTULO 23



- Bom dia !
- Sério Viola, vou trocar a chave extra de lugar. – Ri.
- Não faça isso. – Ela choramingou e riu.
- Está bem, não troco.
- Só vim te incomodar por um bom motivo.
- Qual?
Ela me estendeu um recorte de jornal, peguei e não olhei.
- Ele não morreu, não é?
- Não, dessa vez não, mas você vai morrer.
Era um artigo, um artigo sobre o baile. E nele tinha uma foto, bem grande e colorida. Era uma de eu e ele, dançando a valsa no meio do salão, iluminados, brilhantes e irreconhecíveis, chamando toda a atenção na coluna social.
“Não podemos esquecer de comentar sobre os soberanos. Este ano, devo dizer que os mesmos foram extremamente bem escolhidos. Pareciam ter uma química que jamais se viu igual. Ela era muito bela e ele misterioso, um fato que chamou mais atenção até do que o fato de terem ganhado o tradicional “reinado”. Seja lá quem forem, parabéns, e espero que possamos nos ver de novo no próximo baile. Uma vez soberano, sempre soberano.”
Parei novamente a olhar a foto. Estava lindíssima e muito bem tirada. Sorri, estreitando os olhos e fazendo um som estranho que saiu ao trancar uma risada de euforia.
- Viola, eu morri.
- Falei! E já me garanti de conseguir a foto original e imprimir para você, bem grande.Ah, e também trouxe a moldura, um prego e um martelo. Ela abriu a sacola enorme que trazia consigo, e dela tirou uma moldura, uma foto de ótima qualidade enorme e um martelo com um prego colado nele com fita adesiva.
- Viola, eu já disse que você não existe?
- Não.
- Viola, você não existe.
- E como eu estou aqui?
- Isso é mais difícil do que eu pensei. – Ri e a abracei – Obrigada.
- Sempre as ordens, agora me diga onde você quer para eu colocar na parede.
Colocamos o quadro na sala, onde eu poderia ver sempre que quisesse. Viola foi em casa trocar a roupa e eu fiquei sozinha.
Parei na estante e peguei Venecia. Abri o livro na página que abri no dia do baile e coloquei ali dentro o artigo. Aquele livro agora seria como um diário de memórias materiais, pois as outras só viverão em minha mente enquanto eu tiver capacidade de guardá-las.
Eu só quero lembrar de você até perder a memória.
E de passagem decidi que não importa o final, sempre lembraria de nós dois docemente.
E novamente eu não sabia o que estava por vir.
(...)
- Ah Lorenzo... Não faça eu me engasgar de novo. – Viola ria como doida.
- Você se engasga porque quer! – Ele ria.
- Está bem, não discutam! – Ri.
- Não discutirão, eu digo, em briga de casal não devemos nos meter.
Pigarreei indiscretamente depois do comentário de Chiara. Lorenzo era apaixonado por ela, e só ela não enxergava isso.
- Casal? Acho que não Chiara. O casal aqui é outro. Ou pelo menos deveria ser.
Ouvi uma risadinha infantil de Viola, e fiz o mesmo. Lorenzo me fulminou com o olhar, e Chiara continuou confusa. Viola já havia me dito que na realidade Chiara era apaixonada por Tommaso e tinha uma queda por Lorenzo. Disse que deixaria Tommaso para Chiara, e Viola disse que de nada adiantava, pois ele não a queria, queria a mim, e isso me chateou. Então, resolvi que deveria juntar Lorenzo e Chiara.
- Mas me conte Lorenzo, sempre tive curiosidade de saber, quem é a sortuda de quem você gosta... – Disse.
- Ah... Eu... Gosto... De uma garota!
- Hum, bem relevante. – Viola riu.
- Ah, me deixem suas peruas fofoqueiras. – Ele fez uma voz afeminada.
- Me ofendi, tchau para você Lorenzo. – Ri e me levantei – Mas já estou voltando... – Dei meia volta ao ver que Tommaso me olhava fixamente – Melhor dizendo acho que vou indo sim, mas por aqui...
- Tarde demais , Tommaso está vindo... – Viola me olhava debochadamente.
- Aqui se faz, aqui se paga. – Lorenzo piscou para mim.
Fiz uma careta antes que Tommaso chegasse. Chegou até mim e me abraçou, já que eu estava numa posição apropriada para tal, de pé e sorridente.
- Bom dia minha garotinha!
- Bom dia papai! – Ri.
- Hum... Ser seu pai me impede de fazer algumas coisas?
- Quase todas que você pensou.
- Droga. – Ele bateu a mão na perna e riu – Quer almoçar na minha casa amanhã?
- Claro! – Sorri.
- Passo em sua casa as 11h!
- Combinado.
Foi beijar-me e desviei, deixando-o confuso.
- O que houve? – Perguntou preocupado.
- Você é meu pai, não pode fazer isso! Ok, pode sim.
Sorri e ousei em beijá-lo. Quase todos na praça estavam nos olhando. Posso dizer que senti a morte em cada olhar de cada garota que queria me apedrejar ali mesmo.
(...)
A noite caiu violenta e clara. No fim de noite anterior havia chovido, ou seja, todas as nuvens haviam ido embora e as estrelas voltado a aparecer. Ah... Estrelas, aprendi a amá-las, e vi que são tão importantes quanto a lua. Coloquei um casaquinho, estava meio frio, a chuva havia trazido uma pequena frente fria. Em passos lentos fui indo em direção a Piazza, observando a paisagem noturna e sentindo o vento gélido cortar meu rosto como uma fina lâmina indolor. Uma brisa esfumaçada pairava sobre a água, deixando-a acinzentada, de um tom incomum e lindo.
Passei por entre as duas casas, parando em frente à Piazza. Lá estava ele, apoiado na grade, dotado de um charme perigoso e cabelos que se moviam facilmente com o vento.
Tu revives todas esas viejas iluciones, de vivir la vida que siempre soñe... Y yo no se lo que tu sientes cuando te acercas.
Abaixei-me e fiquei a espiá-lo, como nos primeiros dias que o vi. O vento estava forte, uivando por entre os corredores, e se eu não conhecesse aquele bizarro som, começaria a suspeitar da existência de lobisomens. Estava a observá-lo em silêncio. Ouvi um som baixo, olhei para trás, e meio ao longe estava Hades, me observando. Levantei-me, fui até ele sem fazer barulho algum. Acariciei sua crina negra e lisa, e ele pareceu simpatizar comigo. Fui andando lentamente e montei nele. Surpreendi-me de ele ter permitido isso, havia pensado que fosse extremamente leal ao dono e não deixasse mais ninguém montar nele.
Dei a ordem e saí por Veneza alada, para ver se Hades me obedecia, e obedecia. Cheguei até os arredores da Piazza, quando vi ele encostado na parede com as mãos no rosto, ao lado de onde encontrei Hades. Cavalguei rápido, fazendo barulho, e vendo-o levantar o rosto, pare em sua frente.
- Boa noite cavalheiro. – Disse suavemente.
- Co...Como você fez isso? – Ele estava boquiaberto.
- Isso o que?
- Você... Esta montada em Hades...
- E?
- E que nunca ninguém conseguiu fazer isso além de mim... – Ele ainda mantinha uma feição de extrema surpresa.
- Não se esqueça que estamos tratando de mim querido.
- Mesmo você... Qualquer pessoa... Como pode.... A não ser que isso seja...
- Seja o que?
- Nada. Mas estou desacreditado... Você é humana?
- Sim. – Fiquei confusa com sua pergunta.
- Estou pasmo.
- Percebi.
Desci de Hades, acariciei docemente sua cabeça, vendo-o se curvar pedindo mais carinho. Continuei a afagá-lo, e enquanto isso Ele me olhava pasmo. Aproximei-me Dele.
- Você está bem?
- Sim, quer dizer, não, eu não sei...
- Isso porque eu estava com Hades?
- Talvez, fiquei confuso... Ele sumiu e quando voltou estava com você... Ele permitir...
- Me desculpe... – Baixei o rosto.
- Você não fez nada de errado... Muito pelo contrário... Só achei raro.
- Ah...
- Como pode meu deus, até os animais vêem você de um jeito diferente...
- Não entendi.
- Achei que era somente eu que te via com outros olhos, mas vejo que não.
- Isso é bom?
- Depende do ponto de vista.
- Ah, sim...
Ficamos em silêncio, somente olhando um o rosto do outro. Estávamos concentrados, até que passos nos fizeram acordar.
- Você ouviu, não é? – Perguntei preocupada.
- Ouvi... – Ele tocou em seu pescoço como se preparasse sua garganta para gritar – Hades venha cá! – Gritou.
Em segundos Hades estava na nossa frente, parado. Fez-se silêncio e novamente ouviram-se mais passos.
- Droga, não era Hades. – Falei.
- Isto de novo... E a pessoa não desistiu de nos atormentar...
- É mesmo. – Concordei - Se é que é uma pessoa.
- Existe essa opção ainda. – Riu.
Ele ficava lindo quando sorria. Era raro ele rir como riu naquele momento, ele era muito sério. Sorri de volta, e ele pareceu ficar feliz com a minha reação.
Ouvimos passos altos, de alguém que corria e de repente pararam. Naquele momento estávamos dentro da Piazza, sem saída. Virei o rosto em direção ao corredor entre as casas e farejei um perfume amargo e forte, ou seja, não era Dele.
- Ele está aqui, eu sinto. – Falei, olhando em volta.
- Como sabe?
- Sinta... Esse perfume amargo e forte, e essa sensação de ser observado...
- Não sinto nada.
- Já era de se imaginar... – Resmunguei – Mas estou certa de que está aqui. O vento nunca mente.
- Você me surpreende cada dia mais.
Sempre tive um olfato aguçado, reconheci pessoas pelo cheiro. Talvez por isso me sentisse sempre tão atraída pelo cheiro Dele.
Senti uma onda de calafrios percorrer meu corpo ao ouvir um som de respiração, que não era o nosso, trazendo junto consigo um indesejável medo.
- O que houve? – Tocou meu rosto.
- Medo... – Abracei meu próprio corpo.
- Não há nada a temer.
Envolveu-me protetoramente em seus braços, me protegendo e me aquecendo.
- Vá, por favor, vá. – Ele falou grudando seus lábios nos meus.
- Por quê?
- É perigoso. Leve Hades, ele voltará sozinho depois.
- Muito obrigada. – Sorri.
- Sempre, sempre as ordens minha dama.
Montei em Hades e ordenei que andasse. Olhei para trás e o vi parado me observando. Sorri e recebi um sorriso de volta.
Mi regalo más grande.
Bati meu pé, e saí voando com Hades pelas ruas de Veneza.

CAPÍTULO 24



- Ai!- Gemi ao cair violentamente no chão – Daqui a pouco vou ter de dormir em um berço com cerquinha! - Esbravejei.
O despertador tocou e de susto como de costume caí da cama. Me irritava o horário que Tommaso marcava nossas saídas, porque eu tinha de acordar cedo e isso não me agradava. Tomei uma ducha e um café rápido, troquei a roupa, me arrumando mais por suspeitar de que talvez ele não estivesse sozinho em casa. E como se pode imaginar, as 11h em ponto, a campainha tocou. Dei os últimos retoques e saí, encontrando ele encostado em seu carro, observando-me sair. Cumprimentei-o com um selinho, e pude ver a verdadeira felicidade em seus olhos. Minha consciência pesou. Sim, eu tenho uma.
- Bom dia minha menina!
- Bom dia Tommy! – Disse – “Pronto, estraguei tudo com esse Tommy, por favor, não se entusiasme Tommaso.” – Pensei.
- Tommy? – Ele fez uma cara estranha.
- É.
- Ah, é cada uma que me aparece...
Ele tinha coragem pra falar, 1 ponto pra ele.
- Tudo bem, chame do que quiser. – Ele riu.
- Qualquer coisa?
- Qualquer coisa.
- Então ok Tomatinho.
- Não gostei.
- Hum. – Ri.
Entramos no carro e como sempre o caminho foi muito divertido. Tommaso era muito engraçado e falante, tinha umas respostas ótimas para tudo. Sentia-me livre com ele, diferente Dele, não precisava medir as palavras nem ser tão centrada como era.
- “Nossa.” – Pensei.
Paramos em frente a um lugar que eu chamaria de mansão e ainda acharia que era pouco. Uma casa com grandes vidros, branca, de dois andares, enorme e magnífica, daquela que você vê famosos dentro ou somente vê em filmes. De perto é quase impossível. Casas grandes eram incomuns em Veneza, só haviam de luxuosos palácios antigos e prédios importantes. Além de tudo, sua casa era de uma estrutura de traços antigos e muito bem conservados cheios de detalhes em gesso.
Segurou-me pela mão e me levou até a porta.
- Só seja você mesma. – Ele sorriu.
Não entendi muito bem a colocação/utilidade dessa frase. Abriu a porta e entramos. A casa era ainda mais linda por dentro, com direito até a uma escadaria dupla, portas de duas folhas talhadas e quadros do que supus serem familiares na parede.
Uma mulher morena, muito bonita, já de meia idade entrou na sala, olhando-me de cima a baixo, não tão antipática quanto imaginei que fosse. Aurora Vasallo, a conhecida empresária italiana, que conseguiu fazer crescer a empresa dos Vasallo desde o falecimento de Enrico, pai de Tommaso. É o que chamamos de mulher de fibra.
- Bom dia mocinha... Você deve ser... . – Sorriu.
- Eu mesma. – Sorri cordialmente.
Apertei a mão estendida de Aurora. Pele macia, unhas bem feitas. Cabelo brilhante e solto. Inveja.
- Prazer em conhecer você querida, Tommaso fala muito de você, deve mesmo ser uma ótima menina.
- Me sinto lisonjeada com tal afirmação, e confesso que um pouco envergonhada. – Sorri.
- Bom tenho de ir, estou atrasada para uma reunião. Sinta-se em casa querida.
Ela saiu quase correndo da sala munida de um celular e muita pressa. Antes de sair piscou para mim, o que poderia ser considerado uma bola de boliche sendo jogada na minha consciência.
- Venha, vou te apresentar minha irmãzinha Giorgia. Ela vai adorar conhecer você. Se ela perguntar se você quer ver sua coleção de bonecas, diga que depois, se você não quiser ficar o dia inteiro vendo bonecas que parecem se reproduzir como coelhos.
- Ah, ok. – Ri.
Subimos uma escadaria e entramos no que pareceu ser um quarto de princesa. Rosa bebê com branco e dourado. Em cima da cama, uma criança com ar angelical brincava com algumas 50 bonecas sentadas posicionadamente. E mais uma vez, senti que morava em um barraco.
- Giorgia! – Tommaso desconcentrou a garota.
Sua pele era extremamente branca, e seus olhos bem azuis. O cabelo escorrido negro a deixava mais contrastante e linda do que já era. Devia ter mais ou menos uns 7 anos.
- Oi! – Ela gritou sorridente – Você deve ser a , eu sou Giorgia, quer ver minhas bonecas?
Seus olhos brilhavam, e devo convir que ela era bem... Feliz.
- Hum, teremos muitos dias para ver suas bonecas ainda. – Sorri e pisquei para Tommaso que pareceu feliz com a afirmação.
A menina fez uma careta triste e depois voltou a se concentrar em suas bonecas. Saímos do quarto, descemos e andamos até chegar à cozinha.
- Sente-se e se sinta a vontade, vou fazer algo para nós. – Ele sorriu.
Colocou um avental florido por cima de sua camisa preta e um “chapéu de gourmet” na cabeça, rosa.
- Tommaso Tommaso... Se eu tirasse uma foto e vendesse... Valeria muito e acabaria com sua reputação. – Ri.
- Que isso não saia daqui então! – Riu.
- Não garanto nada! – Ri.
(...)
Eram 19h quando cheguei em casa. A tarde com Tommaso havia sido muito boa. Joguei-me no sofá e fechei os olhos. Fisicamente estava bem, mas minha mente estava perturbada. Não tinha exatamente um motivo para estar com Tommaso, não precisava de favor nenhum dele - pelo menos até aquele momento não – estava com ele por pena. Nunca havia sido garota de ter pena de ninguém, nem de ficar com quem não quisesse... Mas sabe, com ele era diferente. Talvez pelo medo de que Ele me deixasse e eu ficasse sozinha, de qualquer forma sabia que Tommaso estaria sempre ali. Mas que era muito errado, era. E eu sabia, estava certa de que algum dia, de alguma forma eu ia pagar por isso.
(...)
Noite. O refúgio. Escuridão, o meu jeito de me clarear. Talvez meu inconsciente me tocasse mais profundamente do que imaginava.
A lua nova era pequena e não iluminava muito. O céu coberto de estrelas parecia gritar meu nome, me convidar para mais uma caminhada, mais uma viagem sem volta, como a que eu fiz desde a primeira noite. Descobrir meu paraíso. Mais um paraíso, um lugar que eu não deixaria invadir por meus erros e temores, pelo menos eu achava que era fácil separar as coisas quando se tinha opção. E quando elas não existirem? Um dia, quem sabe.
Apoiei-me na grade, olhando a escuridão que refletia luzes e o céu. Um céu a meu alcance.
- Mais uma noite... – Falei – Outra noite das mil que já vivi... E só em algumas, as últimas vi graça. O que eu faço não é certo... Já me dizia Viola desde o começo. Não entendo... Não consigo... Nem devo. Por que... Só me diga o porquê disso...
Estremeci ao ouvir uma resposta inesperada.
- Ninguém melhor do que você mesma para saber... Você é bem grandinha para ver que as respostas estão em você... Não deixe o tempo passar em vão... Só isso que posso lhe dizer.
Olhei para trás, estava sentado e encostado em um pilar em que eu não lhe veria quando entrasse. Hum, bem calculado.
- O que você tem a me dizer? – Dei ênfase no você.
- O que eu tenho a lhe dizer? Nada de que você não saiba ou que não imagine.
- Gosto de sua inconstância.
- Gosto de você.
- Também gosto de você.
- Então vem aqui.
Ele estendeu o braço e sentei a seu lado. Abraçou-me, e deitei a cabeça sobre seu peito.
- Sabe, você pensa demais. – Ele disse mexendo em uma mecha do meu cabelo.
- Como você sabe disso?
- Não sei, suponho apenas.
- Então não suponha. – Ficamos em silêncio – Você tem uma voz muito bonita... Você canta?
- Er... Gostaria. Às vezes eu canto em alguns lugares, mas nada de mais. Você é perceptiva.
- Hum, talvez seja só a sua voz que é linda mesmo.
- Obrigada. – Ele sorriu.
- Canta pra mim?
Cantou baixinho alguma música que não identifiquei. A sua voz estava me deixando tonta, de verdade, não sei explicar.
- Sua voz é incrível! – Sorri.
Corou violentamente. Nunca havia corado tanto assim. Acho que era meio frio para decidir não mostrar qualquer sentimento involuntário.
- O... Obrigada. – Ele gaguejou, mas logo recompôs a pose de parede impenetrável.
- Hum... Sempre as ordens.
Parei de joelhos, virei-me de frente a ele. Apoiei meus braços em seus ombros e dei-lhe um selinho, que vindo de minha parte foi bem ousado. E como resposta? Recebi um sorriso que iluminou sua face. Levantei e sumi por dentre as casas.

CAPÍTULO 25



Filas. Se há uma coisa que eu odeio mais que tudo são filas. Entrei no supermercado, e comecei a pegar coisas e colocar no carrinho, estava na hora de reabastecer a geladeira que se esvaziava cada vez mais rápido ao que parecia. Bolachas doces, salgadas, massas, legumes, frutas, de tudo um pouco. Enchi o carrinho até em cima. O supermercado estava cheio, as filas estavam enormes. A hora do rush, digamos. Eram 13h, cedo ainda.
Entrei em uma daquelas monstruosas filas, e dessa vez não era a do caixa rápido, e na placa dizia: “Tempo de espera aproximadamente 30 minutos”. Isso não era bom, nada bom.
Já faziam por volta de 5 minutos que estava na fila, e o tédio estava começando a tomar conta de mim. Senti algo me bater, e já irritada olhei para trás a fim de matar a pessoa.
- Oh, me desculpe, foi sem querer e...
Era um garoto. Bem bonito por sinal. E o rosto dele estava corado e sua expressão sem jeito. Um pouco do meu mau humor fugiu.
- Ah, não se preocupe, não foi nada.
Ri um pouco de sua situação, três cestas cheias de coisas, bem pesadas, que deixavam seus músculos contraídos ao segurar tamanho peso, o que o deixava bem atraente.
- O que está rindo? – Ele perguntou um pouco incomodado.
- De você. – Ri – Me dê suas cestas, eu as coloco em cima das minhas coisas.
- Ah, se possível... Obrigada. – Ele sorriu e mexeu desajeitadamente nos cabelos.
- Claro, de nada. – Sorri.
- Hum... Poderia saber qual seu nome? – Ele sorriu – Já que estamos aqui, nessa tediosa fila poderíamos conversar. – Riu.
- . – Sorri – Tenho sorte de pelo menos arrumar algo para me tirar o tédio, e você?
- , prazer. – Apertou minha mão.
- Hum, prazer... – Ri – Só um pouco, você percebeu que não estamos falando italiano e sim inglês?
- É mesmo! – Ele fez uma cara estranha – Só um de meus irmãos fala italiano fluente, eu só falo o básico.
- Foi tão automático! – Ri.
- É mesmo, e eu não ia me dar conta.
E eu que não me dava conta de tanta coisa...
- Realmente! Que mal te pergunte, o que faz em Veneza?
- Férias... Minhas primeiras férias aqui. Eu e meus irmãos viemos passar um tempo sozinhos, longe de toda a mesmice de Nova Jersey e Los Angeles. Meu irmão já passa aqui há 3 verões, por isso fala italiano. Conhece cada canto dessa cidade com a palma da mão, chega a dar medo às vezes. – Riu.
- Queria essa mesmice. – Fiz careta.
- E você?
- Brasileira, passar um tempo sozinha, eu e eu mesma.
- Nossa. – Ele riu – Você parece nova.
- Dezoito anos. – Ri – Idéia dos meus pais.
- Inveja. – Ele riu – Desde que nasci nunca tive tempo sozinho.
- Isso é triste. Ou não. Ter uma família grande deve ser legal.
- Eu e mais três irmãos. Fora Elvis e Hades.
- Elvis e quem? – Gritei.
- Hades, um pequeno animalzinho de estimação. – Riu.
- “Hum, pequeno. Conflito de nomes, só isso.” – Pensei – Eu tenho meus amigos e meu quase namorado. – Ri – Viola, Chiara, Lorenzo e Tommaso.
- Tommaso Vasa...Alguma coisa?
- É. Você conhece?
- Meu irmão não gosta dele. – Riu.
- Seu irmão é problemático. – Fiz careta.
- Mais do que você imagina. – Riu.
- Mas então, mais uns 10 minutos e vamos ser atendidos. – Observava constantemente a placa.
- Mais tempo conversando! – Ele fez positivo com a mão.
- Mas então, você tem amigos aqui?
- Pois é. Não. – Ele riu.
- Assim, você só conhece seus irmãos?
- É. E passo o dia inteiro em casa com eles, quando não estou sozinho. Todos já têm amigos, menos eu. – Fez uma carinha fofa.
- Hum, acabou de conhecer uma nova amiga. – Sorri.
- Sério? – Ele pareceu feliz.
- No que depender de mim sim. Você ganhou grandes pontos quando acabou com meu tédio em uma fila que ia demorar muito. – Ri.
- É você! E eu! – Ele falou apontando para dois caixas livres, um ao lado do outro.
Fomos cada um para um caixa. Tudo correndo bem até meu cartão de crédito travar e eu ter de esperar 5 minutos a mais e o garoto do caixa dar em cima de mim esse tempo todo. viu minha situação e chegou até o caixa, onde o garoto já pedia meu telefone.
- Amor, o que houve? Deixa que eu pago amor, você sabe que não vejo problemas em financiar as compras da minha namorada. – Passou o braço pela minha cintura.
- Ah meu bebê, não vou deixar você gastar seu dinheiro comigo. É só esperar o cartão passar.
- Vou falar com o gerente, espere aqui minha garota e...
Fomos interrompidos por um grito do garoto do caixa “O cartão passou!”. Menos de um minuto e estávamos ambos cheios de sacolas.
- , nem sei como agradecer, você me salvou! – Sorri.
- O cartão estava passando, ele estava fazendo de propósito só para te prender ali. – Riu.
- Idiota. – Ri alto – O que posso fazer para te agradecer?
- Nada! Uma obrigação para com uma nova amiga. – Sorriu.
- O mínimo que posso fazer é te dar uma carona para casa. Suba aqui na minha moto.
Disse enquanto entrávamos na vaga onde estava minha scooter. Arrumei as sacolas de um jeito confortável e o chamei.
- Deixe disso, não vou te seqüestrar. É só subir aqui, me dizer onde mora e eu te levo lá. – Ri.
- Ok, você venceu. Só porque ficar de pé cansa.
Me disse o endereço e levei-o até sua casa. Tamanho médio, aparência arrumada, com direito a flores em baixo das janelas. Estacionei e uma mulher que arrumava tulipas amarelas em um vaso veio falar conosco.
- Olá mamãe! – Disse ele dando um beijo no rosto da mulher.
- Boa tarde meu filho. – Sorriu – Hum... Quem é a moça?
- Prazer, sou , amiga do . – Apertei a mão dela.
- Sou Denise, mãe do .
- Prazer! – Sorri – Bom , vou indo, tenho que arrumar a geladeira e a casa.
- Ok, foi ótimo ter te conhecido, minha primeira amiga. – Ele riu – Temos que combinar algo!
- Certamente!
Trocamos nossos números e voltei voando para casa.
(...)
Coloquei as coisas calmamente na geladeira e enchi os armários organizadamente das diversas compras que fiz. Talvez conhecer tenha sido um bom negócio, visto que novos amigos são bem vindos. E ele era americano, um ponto para ele, estava mais a par de meus costumes do que meus amigos italianos. O telefone tocou e eu obviamente atendi.
- ?
- Olá Tommaso!
- Como sabia que era eu?
- Identificador de chamadas. – Ri.
- Você vai fazer algo amanhã?
- Acho que não.
- Saia comigo! Almoce em minha casa depois te levo de volta. Que tal?
- Aceito!
- Bom tenho de desligar, Giorgia quer conversar sobre pôneis azuis com as amigas. – Riu – Até amanhã pequena.
- Até amanhã meu gigante.
Desliguei o telefone. Hum, mais Tommaso. Fazer o que, mesmo que pouco gostava dele. Como amigo e como algo mais.
(...)
Uma bela noite. A lua cortada era extremamente rara para mim, levando em consideração que eu reparava mais nela quando era cheia ou estava desaparecida. Como saí mais cedo, resolvi testar o sensor de perigo Dele. Iríamos ver se era sorte, acaso, ou se o destino implicava que Sua missão era me proteger. Atravessei diversas pontes, passei por becos e ruelas. Confesso, não era minha intenção me perder, mas infelizmente foi o que aconteceu. Acabei parando em um lugar que parecia um beco aberto, desértico. As paredes de nomes estranhos rabiscados, um piso de aparência úmida e suja. Os arcos que cobriam os lados do lugar estavam alguns fechados por lonas negras, e boa parte das luzes estavam apagadas ou quem sabe queimadas. Uma das lonas mexeu-se, e não havia um sequer sinal de vento. Senti meu estômago ser esmagado por uma mão de adrenalina que o apertava sem piedade. Fiquei estática, parada no meio do beco, observando os lados. Ouvi alguns passos e torci para ver Sua imagem aparecer e me dizer que estava tudo bem. Mas não apareceu. Uma pedra saiu de trás de uma das lonas, batendo e parando em meu pé. Minha respiração estava ofegante demais para pensar, e minha mente estava tomada por medo. Olhei para o lado e pude jurar que vi cabelos compridos, escorridos e finos, acompanhados de uma silhueta grande e violenta se movendo em minha direção. Corri sem rumo, somente corri e corri, sentindo que esse ser corria atrás de mim, ouvindo os passos e apenas vendo uma sombra se mover tão rápido quanto eu. E Ele não apareceu. Tentei reconstituir o caminho que fiz para chegar, mas não fui muito sucedida. Meus pés já doíam de correr e minha respiração estava falha.
Já estava me sentindo mal quando enfim encontrei o caminho. Estava vendo a entrada da Piazza um pouco distante, e estava certa de que Ele estava lá, pois havia saído a mais ou menos uma hora atrás e estava correndo há uma meia hora. Minhas mãos estavam brancas e sentia meu rosto esfriar. Os pés doíam e minha cabeça pesava, e ainda via o ser correndo atrás de mim. Sempre odiei correr, nunca agüentei muito tempo. Estava ofegante e o cansaço era estarrecedor. Resolvi pedir ajuda. Estava bem perto da Piazza quando gritei, um grito sem força, mas que ecoou. Não parei de correr, mas estava passando mal. O ser parou de pronto, um pouco antes de a luz iluminar seu rosto, e saiu correndo na direção oposta a mim, ou melhor, a nós.
E se ti nega tutto questa estrema agonia, e se ti nega anche la vita respira la mia.
Senti seus braços segurarem-me ao perceber que minhas pernas queriam falhar. Soltei-me e entrei na Piazza apressadamente, de ombros baixos e joelhos doendo demais. Me joguei no chão sentindo a dor da queda em minhas costas, por as ter batido na parede.
- Oh deus, o que houve?
Após dizer isso, Ele correu e sentou-se a meu lado, passando um de seus braços em volta de meu ombro. Deitei minha cabeça em seu peito, precisava de descanso. Minha respiração estava totalmente ofegante, e meus pés doíam, principalmente pelo fato de que eu não estava de tênis, e sim de sapatilha.
- De... De novo.
- O que? – Ele parecia realmente preocupado.
- Fui seguida... Dessa vez incansavelmente até aqui... Fui até um beco, passeando e...
- Como era o beco?
- Grande... Tinha pilares e arcos com lona, piso úmido e paredes riscadas...
- O Beco do Deserto. Você é insana garota. Quero que me ouça, com bastante atenção, nunca, entendeu, nunca vá lá sozinha. E mesmo acompanhada, de dia ou de noite, tanto faz, não vá lá se não for necessário.
- Ok...
- Primeiro porque não digo para ninguém ir, e outra porque quero você viva e totalmente inteira. Promete que não vai mais cometer loucuras como essa?
- Prometo... Promete que vai me salvar sempre?
- Precisa prometer? – Ele sorriu – Prometo.
- Fico melhor assim. – Me ajeitei em seus braços quentes e acolhedores.
- Me diga, como ele era?
- Grande, forte, alto, e tinha cabelos escorridos e negros...
- Hum... Não importa agora, o que me importa é você.
- Você me faz sentir melhor.
- Você que me faz sentir bem. Que grande susto você me deu. Deixe-me ver seu pé.
Tirou minha sapatilha e olhou-o. Estava vermelho e machucado. Assoviou, um som estridente e forte. Hades apareceu.
- Vá! Você tem de dormir, está cansada, e não quero ver a minha dama debilitada.
- Boa noite.
Selou seus lábios nos meus delicadamente. Subi em Hades e sumi.

CAPÍTULO 26



- Bom dia amiga! – Viola gritava em meu ouvido.
- Por favor, Viola, não grite, estou exausta.
- Querida, seu encontro com o Tommaso!
- Como você sabe? – Balbuciei.
- Está no bilhete em cima da mesa, “Viola me acorde tenho um encontro com o Tommaso e odeio despertadores”.
- Ah, o encontro! – Me acordei.
- O que houve com seus pés e o seu rosto?
- Uma longuíssima história.
- Conte tudo!
- Agora não posso Viola, tenho de me arrumar. Vou para a praça hoje, te conto lá.
- Ok, vou ir para casa, já servi de despertador. – Riu.
- Ok, obrigada Viola! – Abracei-a e ela foi embora.
Tomei uma ducha, troquei a roupa, e me olhei no espelho. Estava com os olhos pesados e uma aparência decadente. Passei um pouco de maquiagem, coisa que raramente faço para disfarçar um pouco a minha face cansada.
Poucos minutos depois Tommaso chegou, e parecia com um pique que com certeza eu não daria conta sem gastar minhas últimas gotas de energia.
- Olá Tommy!
- Bom dia minha pequena! – Ele me beijou.
Fechei a porta de casa e saímos.
- Vamos a pé, não é longe. – Ele sorriu.
- Dá para chegar lá de gôndola?
- Sim!
- Por favor.
- Hum, tudo bem, vamos até ali que tem algumas gôndolas livres.
Eu definitivamente não agüentaria ir a pé. Meus pés doíam, e eu tinha de guardar energia para a noite.
(...)
Cheguei em casa até que bem disposta. Tommaso havia insinuado algumas coisas que em parte não me agradavam muito. Compromisso. De qualquer forma, não deixaria Ele por ele, nem que isso envolvesse algo que eu acho errado, traição. Mas em último caso, era uma opção. Nunca disse que era boa e sempre correta, talvez eu fosse pior do que imaginava, ou talvez eu só amasse sem medir esforços. Ou talvez fosse só uma reles humana sem nada de talvezes.
Avisei Viola e peguei minha moto. Cheguei até o meu destino e apitei a campainha.
- ! – disse sorridente.
- , você tem compromisso hoje à tarde?
- Não!
- Então se você não estiver pronto, vá trocar de roupa.
- Hum, acho que estou pronto.
- Vamos sair?
- Vamos! – Ele sorriu.
Gritou algo dentro de casa e subiu na garupa da minha moto.
- Pra onde vamos? – Arrumou os cabelos que lhe caíam na testa.
- Conhecer seus novos amigos.
Sorri e dei a partida na moto. Em minutos chegamos à praça. Não posso esquecer de frisar que moravam em uma ótima localização. A minha casa também era bem localizada, mas do lado oposto da praça em que se localizava a dele, ou seja, não muito perto.
Praça lá, não era um local cheio de árvores. Era uma espécie de Piazza bem grande. Era como a Piazza San Marco. Algumas pessoas se encontravam lá também, mas os mais influentes iam para a chamada praça apenas. Hum, me gabei.
Desci da moto com ele, vendo Viola e o resto das pessoas no banco. estava calado e parecia extremamente envergonhado. Não só parecia como estava.
- Boa tarde pessoas.
- Boa tarde ... Quem é esse ser desconhecido? – Viola como sempre bem delicada.
- Hum, gente, esse é o . , esses são Lorenzo, Chiara, Viola e eu.
- Prazer... – Ele disse sorrindo, arrumando delicadamente o cabelo.
Viola estava olhando-o perplexa. Sua boca se entortando em um sorriso satisfeito, e não discretamente estava analisando-o de cima a baixo, o que o fez corar. Todos rimos.
- O que é isso cara, corando com os olhares da Viola... – Lorenzo mexeu negativamente a cabeça.
- Ah... Eu... Não fiz nada! Foi... Er... – se enrolou.
- , não precisa explicar. – Sorri – E, por favor Lorenzo, se controle.
- Ok, não garanto nada. – Ele riu e tirou sua câmera de uma bolsa – Hum, sorria! – Disse para .
sorriu desconcertado e Lorenzo tirou uma foto que ficou extremamente cômica.
- Agora assine aqui. – Ele estendeu uma caneta a que assinou sem entender – Vai para o meu álbum de amigos! – Lorenzo riu e encheu sua mão se asteriscos.
- Procedimento padrão. – Chiara olhava sorridente para .
- Ah, ok então. – Ele riu.
- Mas então , fale mais sobre você. – Viola apoiou-se nos cotovelos a contemplar os detalhes do rosto dele.
(...)
- Observe , sua amiga em ação! – Viola ria.
- Sua amiga em ação você vai ver o que é ação quando eu te fizer engolir cada piadinha sem graça. – Resmunguei e me virei delicadamente em direção a Tommaso, já de pé – Tommy!
- Bom dia minha flor. – Ele me deu um selinho enquanto eu ouvia cochichos de Viola para .
- Bom dia? Atrasado. – Ri.
- Hum, não importa. Como vai?
- Bem e você?
- Tomando decisões que em breve serão postas em ação. – Ele piscou – E que vão mudar o rumo de minha vida.
- Vai se mudar? – Fiz uma cara triste.
- Nada concreto ainda, não depende só de mim. – Olhava fundo em meus olhos – Em breve saberá. Estou esperando minha mãe realmente decidir, e a partir daí posso tomar minhas decisões, ir, ou ficar, mas de acordo com alguns fatores.
- Fatores, isso abre um grande precedente.
- Você não imagina quanto. – Riu.
- Não quero que você vá embora. – Disse por impulso.
Ele sorriu e me abraçou. Pensei duas vezes e me dei conta que não deveria ter falado aquilo.
- Sua opinião conta muito. Eu estou ap... – Parou de falar de repente – Hum, não vou falar hoje.
- Ok então. – Sorri.
- Bom, vou para casa, tenho de ajudar Giorgia a encaixotar suas bonecas-coelho.
- Está bem. – Ri.
Beijou-me no meio da praça, voltando todos os olhares invejosos e pasmos para nós. Se consideravam nosso caso um boato, com certeza a partir daquele momento, os pontos de vista mudaram.
(...)
- Hum, esse Tommaso é um cara bonito. – colocava um garfo cheio de espaguete na boca.
- Ah , não sei não. – Empurrei meu prato já vazio.
- Sério, às vezes eu entendo o ódio de meu irmão por ele.
- Por quê?
- Ele não gosta desse “Tomate” por que ele sempre pega as melhores mulheres, como se ele escolhesse a dedo.
- Obrigada então. – Ri.
- E ele parece totalmente apaixonado por você, você gosta dele também não é?
- Vou ser bem sincera. Não.
- E por que está com ele então?!
- Boa pergunta.
- Você está com Tommaso... Meu irmão adoraria te conhecer. Ele tem um sério problema com as mulheres do Tommaso, todas se dividem entre os dois.
- Fato curioso. – Ri – Seria um prazer.
- Se você não gosta dele, gosta de quem?
- Ah , uma longa história... – Sorri abobalhadamente.
- Você o ama, não é?
- Você não imagina o quanto.
- Ele é daqui?
- Um americano que mora aqui... Sei pouco sobre ele, mas desde que cheguei aqui e o vi foi impossível evitar.
- Me deu pena do Tommaso...
- A mim também.
(...)
A noite. Nem preciso dizer que estava linda. O céu claro, tapado de estrelas, um belo teto sob nossas cabeças. Estava tudo silencioso, fora o ruidoso vento e a água que se mexia calmamente em leves ondas superficiais. Toquei o pingente de rosa em meu pescoço. Às vezes nem lembrava que estava com ele, era como uma parte de mim. Parei na Piazza, observando o movimento da água e o conjunto daquela paisagem que não me cansava de ver.
- Boa noite...
Dei um salto dentro de mim mesma, dando a transparecer o susto que levei ao ouvir sua voz sussurrar sem nem ter ouvido seus passos até mim.
Vorrei donare il tuo sorriso alla luna perché, di notte chi la guarda possa pensare a te.
- Boa noite.
Virei-me de frente a ele, tocando minhas mãos em seu peito e sentindo sua respiração por cima da camisa branca que lhe caía como uma luva. Tocou meu rosto com a ponta de seus dedos quentes, uma sensação acolhedora.
- Sabe... – Ele disse – Você é diferente de tudo que eu já experimentei.
- Por?
- Não sei... É algo que eu não posso controlar... Como se você me controlasse. Acho que eu faço tudo por você. Posso fazer, ser o que você precisar. Te salvar, te advertir, te provar, brigar com você se for necessário ou se você pedir. Ser bom, mau, cavalheiro ou descontrolado. Mas uma coisa eu não posso mudar...
- O... O que? – Estava em choque pelo que ele havia dito.
- O que eu sinto.
Senti meus lábios se curvarem de um lado ao outro do rosto. Minhas mãos estavam trêmulas e minha voz não queria sair. Eu com certeza faria o mesmo por ele. Eu daria tudo para tê-lo sempre comigo. Eu daria tudo para que as nossas promessas se fizessem verdade sob a luz do sol. Muita gente não tem vida alguma... Eu tenho duas, mas gostaria de ter uma só, mas infelizmente ninguém tem tudo o que quer.
- Como se fazer tudo por alguém fosse novidade para mim...
- Saiba que um dia senhorita, se você quiser que eu vá embora para sempre, eu vou. Se quiser que eu fique, eu ficarei. É só falar. Qualquer coisa.
- Por enquanto o que eu desejo é somente que você fique, e só vá quando for hora de ir. E eu nunca seria capaz de te deixar ir, se um dia eu for, pode ter certeza que vai ser o pior que eu poderia fazer. Comigo, com você.
- Se um dia quiser que eu vá, depois disso que você disse, talvez eu não goste muito. Vou lutar contra isso, com certeza, embora esteja certo que seja quase impossível te parar.
- Talvez... Mas espero nunca ter de fazer isso...
- Com certeza é o que nós dois esperamos.
- Nunca imaginei que você pudesse me enxergar de um jeito diferente.
- Desde a primeira vez que te vi, ali, estática entre as casas, como uma sombra de pele brilhante e lindos olhos, você não saiu da minha mente...
- Esperava que você não houvesse me visto... – Ri.
- Mas vi. – Ele deu aquela risada que soava mais como uma canção – E não me arrependo. E jamais vou esquecer de que você achou que eu iria te matar.
- Sabe, ainda acho. Mas talvez não necessariamente com uma arma ou uma espada.
- Realmente, você não sabe de nada. E eu também não.
Ele de repente ficou sério e apoiou-se na grade, de frente para a água. Estranhei sua reação. Parei a seu lado. Ficamos alguns minutos em silêncio, enquanto eu somente ouvia sua respiração.
- Você está bem? – Perguntei ao notar que suas mãos tremiam.
- Na verdade eu tenho de ir embora.
Disse isso em uma velocidade muito grande. Puxou-me para si, e selou seus lábios nos meus urgentemente. Após, saiu correndo.

CAPÍTULO 27



- Ah , me poupe desses seus comentários olísticos.
- Mas é sério , termine logo com o Tommaso, ou melhor, nem comece, antes que seja tarde.
- Tarde para que?
- Não sei... A nossa vida às vezes desanda, e quando menos esperamos não temos mais escolhas a não ser as ruins, sendo que se houvéssemos feito tudo certo no passado, não teríamos que nem pensar nelas.
- Você me deixa pensativa. Não é uma questão de não querer sabe, é que eu não consigo... Viola vive me dizendo que eu devo terminar com ele antes que algo aconteça.
- Viola está certa... Eu só estou avisando... Antes que algo aconteça.
- Pare de agourar.
- Não estou agourando... Só sinto que algo vai acontecer... E não vai afetar só você. Isso é um grande problema meu, eu sempre sinto algumas sensações, como pressentimentos. Por favor, tome cuidado, as coisas podem mudar de repente.
- Você me deu medo. – Ri.
- Não é algo que se possa rir. Não dê tempo ao tempo. Não deixe pra amanhã. É só um conselho olístico como você diz. – Riu.
- Vou ver o que posso fazer.... Você me convenceu.
- Bom, tenho de ir para casa, é quase hora do almoço.
Despedimos-nos e foi para casa. Decidi que era realmente necessário falar com Tommaso, vá que estivesse certo. Respirei fundo e peguei o telefone. Disquei o número de Tommaso e o próprio atendeu.
- Oi Tommaso, sou eu.
- Olá pequena! A que devo a ligação?
- Olha, pode parecer falta de coragem falar isso por telefone mas...
- , meu amor, tenho de desligar, Giorgia se queimou na cozinha e eu tenho que socorrer ela. Falamos-nos na praça, um beijo.
Desligou. Meu momento de coragem foi jogado por água a baixo. Não sabia quando ia ter alguma coragem a mais para fazer isso. Talvez somente quando fosse tarde demais.
(...)
- Ah Viola, tinha de contar uma coisa pra você ontem, mas esqueci!
- Conte, logo, cuspa! – Ela ficou ansiosa.
- Ok. Além Dele, tenho tido outros “entretenimentos” noturnos.
- Outro rapaz?
- Anh, sim, mas não do jeito dele. Eu tenho sido constantemente perseguida. Melhor dizendo eu e Ele, mas principalmente eu. Uma dessas noites, fugiu ao meu controle, quando eu entrei no Beco do Deserto.
- Oh, Meu, Deus. Você é louca?
- Não sabia oras. A partir daí, eu fui perseguida por um homem alto, forte, de cabelos longos e lisos. Ou sabe lá se aquilo era um homem, mas era demoníaco. Ele não parou de correr atrás de mim desde o beco até a piazza, em torno de uma meia hora. Quase perdi o coração pela boca. Sua sombra era extremamente bizarra e ele parecia... Sei lá, sedento por sangue.
- Ah sabe... – Ela parou de falar do nada, e seu rosto fechou-se em uma expressão assustada, de pânico. Ficou pálida e estática.
- O que houve? – Perguntei passando a mão em frente a seus olhos.
- Vo... Você nunca ouviu falar da leggenda del cattivo?
- Não.
- Reza uma lenda antiga, que a cada geração, entre todos os homens bons, conhecidos como Uominis della terra, nasce um que é diferente. Il cattivo. Falar esse nome por aqui, é como dizer o que não se pode, falar do infalável. Ele é uma reencarnação da mesma alma, a mesma que mata para obter o corpo, para usufruir dos prazeres da carne, e depois, pega uma parte da pessoa e coloca em si, ou toma seu sangue. Uma encarnação do mau. Um diavolo. Poucos viram Il cattivo, e os que viram, ou morreram, ou enlouqueceram. Uma de suas características é a perseguição. À noite, persegue por sede, a sede de beber o sangue, de satisfazer a gula. De dia, é uma pessoa normal, porém perigosa. Normalmente um ladrão, saqueador ou carrasco, o que não existe mais nos dias de hoje. Dizem que pela noite Il cattivo não se lembra de quem é, mas persegue por instinto, pois todos temos e não é possível deixá-los. Não olhe nos seus olhos, pode enlouquecer. Nunca foi provada sua existência, e nem que não existe. Até hoje não existe explicações para morte de corpos sem sangue, secos e violentados. Il cattivo só ataca em noites sem lua.
- E ele não morre?
- O único jeito de matar Il cattivo, é se dois amantes deixarem uma gota de sangue de cada um cair em sua boca, e depois lhe cravar algo de prata no coração. Se apenas lhe cravar a estaca, morre, mas voltará, nascerá de novo, só aquela pessoa se livrará dele, próximas irão sofrer. Se apenas lhe tocarem as gotas de sangue, perderá a consciência e se libertará de sua maldição, nascerá em outra pessoa. E se lhe forem feitos os dois, será instinto para sempre, sendo que isso, nunca ninguém conseguiu. Il cattivo persegue quem tem amor e coragem. Uma mistura perfeita no sangue, para se beber na esperança de ficar mais forte.
- E onde eu me encaixo nisso?
- Na parte das vítimas. – Ela riu sarcasticamente.
- Não entendi.
- Ele te quer ... Il cattivo é sempre um homem forte, com aparência bizarra. E você por acaso tem tudo que ele quer... Nunca imaginei que ele pudesse estar de volta... – Ela parecia preocupada.
- Mas ele me atacou e era lua cheia, ou nova, não sei.
- Ele não atacou, só perseguiu. Em noites sem lua, tome cuidado. O máximo que pode fazer em noite de lua é perseguir e assustar. Em noites sem lua, não saia. Ou saia com Hades. Ele não os alcançará. Acho que devemos avisar a polícia pois pode ser útil e...
- Não Viola, pode nos incriminar de algo que não fizemos.
- Então, por favor, não arrisque sua vida por motivos tolos.
- Tolos Viola, tolos?
- Sim, você poderia falar com Ele e vocês descobrem quem são e se encontram de dia. Resolvido.
- Muito fácil para você.
- Seria fácil para você se colaborasse com as poucas chances de você sobreviver.
- Se ele quiser me matar, ele não vai desistir, vai encontrar alguma forma de me fazer enlouquecer até que eu me suicide. Aí depois ele vai abrir meu caixão e tomar o pouco que resta do meu sangue. – Ironizei.
- Você não leva isso a sério, não é?
- Não. – Ri – Acho irreal demais para ser verdade.
- Vamos ver até onde suas explicações científicas vão. E vamos ver até quando seu conceito de realidade vai continuar esse.
- Você me dá medo.
- Medo é o que você vai sentir, esteja certa. Se for Il cattivo, esse é só o começo. E a corda arrebenta sempre no mais fraco... A luta só acaba quando um dos dois morre. Ou você, ou ele.
Fiquei estática.
- Bom, vou pra casa fazer a matéria sobre a próxima morte e a volta de Il Cattivo. Você sabe, caso o seu fim esteja próximo quero ser a primeira.
Ela saiu andando empinada e sorridente. Vindo da Viola nem me surpreende.
(...)
A noite estava escura. Estrelas, mas... Sem lua. Pensei em uma possível praga que Viola poderia ter me rogado. De qualquer forma, mesmo sendo metida à corajosa, era quase impossível não ter medo. Pensei e pensei. Acabei por concluir que a história parecia fictícia, mas mesmo assim fazia sentido a considerar o que já nos havia acontecido por lá.
Caminhei a passos rápidos, com o que podemos chamar de um relevante medo. Nunca fui de me impressionar, mas Viola daquela vez havia me pego desprevenida. Cheguei até a Piazza, até aquele momento não havia ouvido nada. Sem passos, sem ruídos, sem som de nada além de meus passos. Parei na grade, observando a água enquanto Ele não aparecia. Estava particularmente curiosa e receosa sobre a forma pela qual ele foi embora, como se estivesse assustado ou algo do tipo. Em questão de menos de um minuto, ou seja, alguns segundos, Ele estava ao meu lado, olhando meus olhos pelo reflexo da água.
- Boa noite minha pequena dama.
- Boa noite meu cavaleiro.
- Tenho uma dúvida...
- Hum, questione então.
- O que houve ontem à noite quando você ia embora?
- O reflexo na água.
- O que tinha?
- Uma imagem.
- Nossa?
- Atrás de nós.
- O que havia?
- O homem dos passos, o que te persegue.
- Por... Porque você não me disse?
- Por que se eu fosse embora era o único jeito que me parecia mais rápido e eficiente de você ir também. Não quero jamais por a sua vida em risco.
- Você o viu?
- Sim.
- E como foi embora?
- Correndo. – Ele riu.
- Tem algum palpite sobre o que ele seja?
- Anh... Humano?
- Palpite... Il cattivo.
A boca dele se abriu em um O bem grande. Apoiou-se na grade um pouco cambaleante.
- Eu... Eu jamais tinha pensado nisso. – Ele disse ainda em choque.
- Você acha que é possível?
- Claro! É uma das poucas lendas que eu acredito...
- Hum... Hoje é noite sem lua. – Olhei para o céu.
- E você vai me lembrar disso agora?!
Ele gritou e eu recuei.
- Oh, desculpe. – Ele disse – Me expressei alto demais. Não se preocupe, eu vou te proteger, sempre. Mas agora temos de sair daqui antes que...
Ele parou de falar, e o som de sua voz foi substituído por sons de passos de quem corre. Ouvimos um relincho de Hades. Ele assoviou e o cavalo correndo parou em nossa frente.
- Não há tempo para lamentos, suba aqui e vamos.
- Vamos para onde? – Perguntei.
- Para qualquer lugar. – Ele falou rapidamente.
Deu-me um beijo rápido, me pegou no colo e me colocou no cavalo. Subiu em minha frente e começou a correr.
A cidade passava voando a nosso lado, mas podíamos vê-lo atrás de nós. Parecia diferente de qualquer ser humano, quem sabe um homem das cavernas, pois corria muito rápido – como um animal que mal consegue andar de pé – e nada delicadamente, fazendo estrondos com seus pés descalços. Pude ver melhor sua face. Seus olhos eram negros e avermelhados, como quem não dormia a uns bons 3 dias, cabelos longos e lisos. Seu maxilar bem marcado dava a ver muitas cicatrizes. Com certeza em todo o percurso deve ter visto o horror em meus olhos. Em sua mão, uma faca prateada reluzia as luzes amareladas das ruas, parecendo ouro em suas mãos. Seu corpo era bem definido, forte e desenvolvido. Mas dentro de seus olhos dava para ver o medo, a insegurança e a raiva que tinha certeza que ele carregava dentro de si.
- Não olhe mais para trás! – Ele disse baixo.
- Por quê?
- Vou fazer Hades voar. Segure-se bem em mim, feche os olhos se possível.
Segurei em seu corpo, estava rígido e quente. Encostei meu rosto em seu pescoço e fechei os olhos. Mas antes, pude ver a velocidade a qual passamos, de rápido para quase voando.
Fiquei alguns minutos de olhos fechados, até que o senti parar. Dobramos muitas vezes, pude sentir.
- Abra os olhos, já passou... – Ele dizia enquanto me tirava do cavalo e me colocava em frente a si.
Abri os olhos lentamente, estávamos na Piazza San Marco. Abracei-me a ele, aninhando meu rosto em seu pescoço, sentindo seu cheiro. Mexia em meu cabelo, afagando-o.
- Eu... Eu te a... – Comecei a falar.
- Shh, não diga nada. Palavras são limitadoras.
Segurou-me pela cintura e me beijou. Um beijo doce, com sabor de adrenalina, mas acima de tudo, de desejo. Roçou seus lábios nos meus, docemente, e me soltou.
- Vá, correndo, rápido. Ele se perdeu por pouco tempo. Não fique me olhando com essa cara de quem não quer que eu vá embora. Pode ter certeza que isso é um sacrifício para mim. Vá! – Ele tapou os olhos com as mãos.
Olhei para ele e ri. Saí correndo o mais rápido que pude, e ele foi com Hades pelo lado oposto. Pude sentir que fui observada. Cheguei em casa e adormeci.

CAPÍTULO 28



Talvez não houvesse ficado tão real e tão perfeito. Também, ninguém exigiria tanto de si mesmo e sua mão às 9h da manhã. Meu desenho do rosto do homem que nos seguia era borrado, um pouco difuso nas linhas de meu pensamento e consequentemente nas de meu lápis 2B mal apontado.
Terminei. O sombreado que aprendi na quinta série ajudou muito para deixar o rosto mais realístico. Tentei ao máximo colocar a raiva nos olhos, e deixar seus traços mais pesados, mais reais. Chamei Viola para minha casa e em minutos ela chegou. Mostrei a ela o desenho.
- É tão... Real.
- Queria saber quem é...
- Não tem como, mas... – Ela esticou o dedo indicador e sorriu – Tive uma idéia!
- Você não vai espalhar cartazes “procura-se” com o desenho, não é?
- Não né! Vou apenas cobrar um favor a um... Amigo. – Riu maldosamente.
(...)
- Onde estamos indo?
- Aonde você acha? Até a delegacia principal!
- Você é doida ou o que? – Gritei e depois me acalmei – Você vai mandar prende-lo?
- Não bobinha. Vamos descobrir quem ele é!
- E como?
- Cobrando um favor a Stefano Callegari, o manda-chuva do setor de identificações da polícia veneziana.
- O que ele faz?
- Trabalha com impressões digitais, fotos, ele tem como carteiras de identidade de todos que estão em Veneza. Não é a toa que a imigração é rígida.
- E você acha por acaso que ele vai conseguir algo com um desenho? Ou melhor, tentar algo porque duas garotas querem?
- Ele me deve muitos favores. Vamos gastar um nisso. – Ela sorriu.
- Ok, você venceu.
Chegamos até a delegacia. Pensei que nos fariam uma revista e um questionário antes de entrarmos, mas ao que parecia todos já conheciam Viola como se conhecessem a um antigo amigo, munidos de “senti sua falta” e “mande beijos para sua mãe e seu pai”.
Passamos por três corredores e dois lances de escada. Chegamos até uma salinha com a porta preta. Viola bateu três vezes, depois mais 2, 4 e depois uma. A porta se abriu e uma pessoa sorridente quase enfartou ao ver que quem batia era Viola.
- Oh garota, pensei que nunca mais ia te ver!
- Ah Stefano, eu não sumi. – Ela riu. – Estou morando aqui agora.
- Ótimo! – Ele se conteve – Entrem garotas.
Escancarou a porta e entramos. Até aquele momento nunca havia visto algo assim. Só em filmes de FBI entre outros. Era uma sala enorme, cheia de arquivos cinza e grandes, alguns papéis espalhados no chão, e mais de três computadores de alta tecnologia.
- Não reparem na bagunça! – Ele riu – Estava trabalhando em um caso que requeria digitais antigas, vocês sabem, o povo era meio jurássico, tudo no papel. – Ele bufou e se moveu até um dos computadores – Quem é ela? – Apontou para mim.
- . – Viola disse.
- Hum... – Ele digitou algo rapidamente no computador e em um minuto, apareceu minha foto da carteira de identidade, em que eu sinceramente parecia um zumbi – , brasileira, 18 anos... Um bom perfil. Inteligente hein? Histórico escolar com notas altas.
- Tem tudo isso aí? – Disse pasma.
- Sim, e muito mais. – Ele riu.
- Ok, pode ser útil. – Concordei.
- Útil? – Ele pareceu confuso.
- Bom, vamos direto ao ponto. – Viola disse – Vim te cobrar um favorzinho.
- Sabia! Você não me visitaria sem mais.
- Hum, talvez um dia. – Ela riu – dê o seu desenho a ele.
Estiquei minha mão com o desenho e ele pegou.
- Bom, queremos que você escaneie e procure o que você acha sobre. – Viola estava irreconhecível.
- Hum, quer descobrir o alvo da sua paixonite? Ou da sua amiguinha?
- Agora não é hora de brincar Stefano, por favor, guarde sua criancice para depois. – Ela falou séria.
Ele colocou o desenho no scanner, e em menos de um minuto abriram-se três perfis. Mas um deles me trouxe todo aquele medo de volta.
Stephen Arsego, 24 anos. Moreno, meio pardo, olhos negros e intimidadores. Cabelos longos, negros e escorridos até um pouco mais abaixo dos ombros. Maxilar quadrado, uma expressão sempre decidida, até mesmo nos poucos momentos em que talvez sorria. Não se sabe muita coisa precisa sobre ele além de seu nome e idade, e que mora em uma casa extremamente humilde em algum dos becos obscuros de Veneza. Sem histórico policial realmente culpável, somente sofria agressões quando pequeno, e tem alguns roubos de coisas pequenas em seu currículo.Morreu afogado em 25 de outubro de 2003.
- Por que o interesse nesse homem? – Stefano me olhava fixamente.
Eu não conseguia pronunciar uma sequer palavra. Estava estática, pálida e confusa.
- Você está bem? – Stefano perguntou.
- S...Sim. Pelo visto meu desenho estava bom. – Tentei descontrair.
- Estava mesmo. – Viola riu – Poderia imprimir para nós?
- Isso é fora de cogitação, não posso e...
- Por favor, Stef... – Viola fez uma cara impressionantemente cativante.
- Ok. Mas não abram a boca.
Coloquei as páginas do perfil em um envelope pardo. Adoro o cheiro deles, me lembra perseguição. Mas enfim.
Chegamos até minha casa e passamos praticamente a tarde toda comendo e analisando o perfil de psicopata do sujeito. Nada nos indicava que ele era realmente psicótico, mas eu tinha certeza, era ele. E o pior, ele estava registrado como morto.
(...)
Coloquei o envelope em baixo do braço, as mãos no bolso e saí. A noite estava clara, e um fio de lua aparecia no céu. Ou seja, sem perigo de ataques. Caminhei lentamente, passos curtos e nada medidos. Estava fresquinho, meu casaco de moletom não era muito eficaz nessas horas. Já mencionei que vento frio + água = vento gelado e cortante? Pois é.
Cheguei até a Piazza, encostei-me à beira da parede, observando-o quieto e pensativo. Batia a mão nervosamente na grade, como se estivesse ansioso. Olhava seguidamente para os lados, mas não me viu. Caminhei sem fazer barulho e parei a seu lado.
- Hum, boa noite.
Ele deu um salto de susto, e eu me contive para não rir.
- Você me assustou.
- Eu nem notei. – Ri.
- Estava ansioso que você chegasse, tenho que te contar o que descobri.
- Conte!
- O homem que nos persegue. Investiguei-o hoje, e descobri que seu nome é Stephen.
- Hum...
Estiquei o envelope em sua direção. Ele pegou, abriu-o e começou a folhear o perfil.
- Uau. E eu que estava achando que tinha feito a maior descoberta e você me chega com o perfil policial do sujeito. Falando nisso, como você conseguiu o perfil policial dele?!
- Hum... Contatos. – Ri.
- Mas como conseguiram identificar ele?
Mexi entre as folhas e peguei meu desenho. Mostrei a ele.
- Perfeito. – Ele disse analisando os traços – Real demais para ser verdade.
- Não dava para passar por cima. – Ri.
- Pois é. Foi fácil de achá-lo?
- Quase instantâneo. Mas não tenho certeza de que é ele.
- Mas eu tenho, é ele! Por quê?
- Leia o último parágrafo.
Data de óbito: 25 de outubro de 2003. Motivo: Morto por afogamento em canal secundário em Cannagerio. Homicídio culposo exercido por Vito Bezz (Colocado no presídio municipal e depois levado ao manicômio em situação mental crítica). O corpo está situado no cemitério de Veneza, na ala 7.
- Como? – Ele disse sentando-se e dando tapinhas a seu lado para que sentasse junto.
- Não sei. – Sentei-me a seu lado.
- Eu tenho certeza, ele não é uma alucinação.
- Óbvio que não, se não nós dois não teríamos visto. Será que é ele mesmo? Ele pode ter um irmão gêmeo.
- Estou certo de que é. E eu nunca erro.
- Convencido. – Ri.
- Não comece. A não ser que você queira me chamar de frouxo.
- Hum... Da última vez Stephen apareceu. Se for pra você me provar algo, prefiro que ninguém atrapalhe. – Ri.
- Isso é. – Ele riu – Tive uma idéia! Venha amanhã de tênis, vamos fazer uma visitinha a algumas pessoas. Ou não pessoas. – Ele riu.
Lembrei-me de Viola e sua visitinha. Ri.
- Ok.
- Agora vá para casa dormir, amanhã teremos uma longa noite.
- Tudo bem, estou indo.
Es el sabor, es el sabor de tus labios, una droga que envenena y me hace enloquecer. Es el olor, es el olor de tu cabello...Un aroma a primavera permanece en mi piel.
Ele me segurou docemente e me beijou. Um daqueles beijos fortes e delicados, os quais eu jamais gostaria de perder.
Levantei-me e caminhei até a minha casa com o envelope que me perturbaria por um bom tempo em baixo do braço.

CAPÍTULO 29



Despertei às 15h. Não caí da cama, nem fui acordada. Somente... Acordei. Almocei um café da manhã comum, com café, pão e bolachas. Assisti a um noticiário que passava na CNN sem entusiasmo algum, tomei banho, troquei a roupa e me joguei no sofá.
Mal sentei e a campainha tocou. Abri a porta, era .
- Bom dia !
- Bom dia !
Entrou e sentou-se junto comigo no sofá.
- Tem planos para essa tarde? – Ele perguntou.
- Não.
- Que tal ir para a... Para a...
- Praça? – Ri.
- É isso! Mas aquilo não tem nome não?
- Tem! – Ri – Campo Santa Margherita. Hum, fez alguma diferença na sua vida saber disso?
- Na verdade, não. – Ele riu.
- Bom, então vamos. Espere.
Levantei-me e comecei a subir as escadas.
- Não fique aí, venha!
subiu comigo, atento a cada detalhe da casa. Chegamos até meu quarto. sentou-se na cama e pegou o porta retratos, onde estávamos eu e Ele, dançando a valsa dos soberanos.
- Não me diga que a Dama Dourada é... Você?
- Sim! – Sorri – Mas não conte para ninguém, ninguém mesmo! – Ri.
- Você sabe quem é este que está com você na foto? – Ele perguntou sorrindo.
- Hum, na verdade não.
- E quer saber? – falava com uma voz de quem sabia algo.
- Na realidade não. Se quisesse já teria descoberto. – Ri.
- Porque não?
- Tenho meus motivos. – Ri .
- Ok então... – Ele riu.
Hum, suspeito. Mas tudo bem, terminei de me arrumar e fomos para a praça.
(...)
- Você me seqüestrou por quê?
Viola me arrastava por entre as casas e canais.
- Você sabe. Conta, conta logo!
- Bom, ele chegou feliz me dizendo que tinha descoberto que o nome do tal era Stephen. Eu abri o envelope e mostrei o perfil todo. – Ri.
- poderosa. – Riu – Mas enfim, o que ele falou? O cara é ele mesmo?
- Ele está certo que sim como eu. É reconhecível, a não ser que tenha um irmão gêmeo, mas acho isso impossível demais se não no perfil haveria uma observação sobre irmãos.
- É mesmo... Mas ele está morto!
- Ou não. – Pensei – Mas não sei... Ele me disse que hoje pela noite nós vamos fazer uma visitinha a algumas pessoas...
- Isso me dá idéias.
- Por favor, Viola, não tenha idéias.
- Deixa comigo. – Ela piscou e riu.
O resto da tarde voou. Tommaso não apareceu por lá, e minha coragem estava se dissipando em fumaça. Ela estava sumindo e em um longo breve realmente seria tarde demais. Cheguei em casa, comi, tomei um banho.
(...)
A noite estava especialmente escura. A pequena lua que habitava o céu era limitada demais para que conseguisse iluminar mais do que um fio de luz na água, o que não era muito útil, conviremos, seja lá o que eu iria fazer naquela noite. Estava de tênis e uma roupa confortável, talvez flexibilidade fosse necessária, sendo que ultimamente ela era muito bem vinda. Ou seja, sem jeans. Cheguei até a Piazza e ele estava lá. Uma calça jeans skinny, um suéter e all star, chapéu e wayfarer, sem esquecer de uma bolsa de couro cruzada, pelo que pude perceber, uma Louis Vuitton masculina.
- Aonde nós vamos? – Perguntei curiosa.
- Boa noite primeiramente. – Ele disse sorrindo.
- Hum, boa noite. Mas aonde nós vamos? – Ri.
- Fazer uma visitinha a uma pessoa...
- Isso onde?
- No cemitério. – Ele riu bizarramente.
- No cemitério? Quem você quer visitar lá? Todos estão mortos, não podem nos dizer nada.
- O que nós precisamos saber, sim. – Ele riu – Bom, não vamos perder tempo, vamos indo, não é perto.
- Você é insano?! – Perguntei segurando sua bolsa cheia.
- Hey garota, você está nessa ou não? Se não estiver, tchau, até amanhã, e é uma pena que você esteja perdendo essa noite.
- Você é mórbido.
- Ok, largue a alça da minha bolsa garota, ela não foi barata. Esta comigo ou não?
- Eu...
- Não enrole, sim ou não?
- Estamos perdendo tempo. – Concordei com a cabeça.
- Venha!
Senti a excitação em baixo de seus óculos escuros. Segurou a minha mão e chegamos até Hades. Montamos nele e logo estávamos voando. Sentia a adrenalina disparar em meu sangue, e os meus músculos ficarem cada vez mais ansiosos por ação. Não sabia exatamente o que íamos fazer lá, mas estava cada vez mais divertido.
I thought I was a fool for no one. But, ooh, baby, I’m a fool for you.
Em torno de meia hora correndo a cavalo chegamos ao objetivo. De certa forma chegamos. Ou não.
- Onde é o cemitério? – Perguntei.
- Entre na lancha.
- Aonde vamos de lancha?
- Ao cemitério oras. Eles têm uma ilha para ele.
- Meu deus.
Entrei na lancha. Ele tomou o controle, seguiu o norte, e em alguns minutos estávamos atracando. Prendeu-a em uma tora de madeira e descemos. Segurou a minha mão fortemente.
- Pronta?
- Pronta.
A fachada era monstruosamente grande e laranja. E pela noite, extremamente bizarra. O som do vento nos pinheiros era assustador.
Abrimos o grande portão de ferro cinza. Fez um barulho enferrujado, precisava de um óleo nas juntas. Pude jurar que vi uma sombra negra se mexer. Tremi e ele apertou minha mão para lembrar que ainda estava ali. Em um instante, quase me joguei para trás, quando um homem pálido, de barba mal feita e profundas olheiras, aparência decadente, quase com os ossos a mostra apareceu em minha frente.
- Boa noite mocinhos... – Ele falou em uma voz adocicadamente psicopática, diria assim – O que os traz aqui... – Ele olhou o relógio muito antigo no pulso – Há essa hora?
Carregava em sua mão o que parecia ser uma foice. Se não era o coveiro, era o ceifador sinistro falando conosco.
- Viemos fazer uma visita. – Ele falou.
- Hum... Por que não esperam para vir de dia? – Ele fez uma cara deveras medonha.
- Por que você sabe, não temos tempo. – Arrisquei falar.
- Claro... – Ele deu um risinho irritante – Para onde vão meus queridinhos? – Colocou as duas mãos sobre o peito.
- Ala sete. – Ele disse friamente.
Como eu não havia me dado conta? Era isso! Nós iríamos visitar Stephen!
- Sigam ao sul. Mas tomem cuidado... – Ele indicou uma direção. Fazia caretas estranhas que me fizeram arregalar os olhos. Deu um risinho e um ronco no fim.
Fomos indo calmamente entre os túmulos que tapavam o chão até onde minha vista alcançava e certamente adiante. Notando meu medo visível, largou minha mão e passou a segurar minha cintura.
A cada passo que dávamos, o lugar parecia cada vez mais abandonado. As ervas daninhas estavam cada vez mais altas, junto com o pasto. E cada vez menos haviam luzes. Caminhamos mais uns dois minutos e já estávamos totalmente no escuro. Abriu a sua bolsa e tirou uma lanterna prateada enorme. Ligou-a e conseguíamos ver todo o caminho pela frente. Caminhamos mais e eu constatei que estávamos perdidos. Ao longe vi uma pessoa abaixada em uma espécie de círculo de velas e resolvi pedir informações.
Era uma velhinha, devo dizer um esqueleto com pele. Estava com uma boina colorida, batom vermelho e uma roupa estranhíssima. Uma sobreposição de 50 blusas e casacos. Tinhas as pernas cruzadas e estava conversando com um túmulo caindo aos pedaços.
- Bo...Boa noite, a senhora poderia me informar onde fica a ala sete?
Ela riu e não me respondeu. Se movia para frente e para trás, como se possuísse autismo.
- Poderia me informar... – Tentei de novo, mas parei de falar quando ela me sorriu com alguns dentes e uma cara de quem iria me comer.
Ok, confesso, eu sou medrosa demais, e estava com medo de uma velhinha sentada no meio de um círculo de velas. Corri até Ele.
- Vamos embora, por favor. – Me segurei em sua cintura.
- Não, estamos aqui e não vamos. E por falar nisso, a ala sete é ali.
Apontou a luz para uma placa. Atravessamos o arco e fomos seguindo as placas até a letra S. Em um canto, abandonado e cheio de grama em cima estava o túmulo de Stephen.
- Ah! – Gritei e subi em cima do túmulo.
- O que houve? – Ele perguntou preocupado.
- Uma cobra! – Apontei para o ser que rastejava e logo desapareceu.
- Ok, isto está me saindo pior do que imaginei. Enfim, vamos à ação.
Desci e observei-o abrir a bolsa. Deu-me a lanterna e segurei em direção à lápide. Tirou um pé de cabra da bolsa.
- O que você pretende fazer? – Perguntei assustada.
- Ninguém vai notar. – Ele riu.
Encaixou a ponta do objeto entre o túmulo e a tampa. Levantou a perna e bateu seu pé com toda força na outra extremidade. Em um estalo, a tampa se abriu.
- Não acredito que estamos fazendo isso. Isso é ilegal, é bizarro e fora do comum.
- Bem-vinda ao meu mundo baby.
Abaixou-se e ergueu a tampa. Lá estava o caixão, de madeira negra, com pregos, parecia feito em casa.
- Ok, e que se resolva o mistério. – Ele disse.
Colocou o pé de cabra na beirada, e fez o mesmo procedimento. A tampa do caixão se abriu facilmente, fazendo com que o instrumento caísse ao meu lado.
- Oh. Meu. Deus. – Ele disse.
Tive coragem de virar o rosto, esperando ver um esqueleto pavorosamente fedido. Mas o que vi?
Nada além de um punhal de prata. É, o caixão estava vazio.
- Ok, já vimos demais. – Eu disse – Sabe-se lá o que houve, mas ele não morreu. E agora quer nos trazer para cá. Coloque isso no lugar e vamos!
- Mas precisamos disso, o punhal de prata.
- Ou qualquer coisa de prata.
- É, vamos deixar ele aí. – Riu.
Colocou a tampa na lápide e colou-a com algo que parecia cimento que havia em sua bolsa. Corremos para fora do cemitério, o mais rápido possível. Voltamos a mil por hora com a lancha, e depois com Hades até a Piazza. Cheguei em casa as 5h45 min, morta como Stephen queria que eu estivesse o mais rápido possível.

CAPÍTULO 30



Um mês. Um mês que eu estava em Veneza, um mês de que minha vida mudou seu rumo para nunca mais voltar – pelo menos eu gostaria que nunca mais mudasse. Mas de qualquer forma, jamais seria a mesma. Em minha mente já habitavam novos planos, novas perspectivas. E agora, diferente de sempre, meu coração estava cheio. Cheio de um sentimento que eu acho que jamais poderia viver sem. Mais aproximadamente dois meses e eu iria embora de Veneza. E para voltar, só dois anos depois, se é claro eu não resolvesse fazer faculdade lá, embora eu já houvesse decidido, mas estava certa de que meus pais não me permitiriam ficar longe deles por tanto tempo. Mas eu havia descoberto meu lugar no mundo, meu paraíso, minha terra. Era lá que eu queria ficar não importa o que acontecesse. Mil portas se fecharam quando resolvi ir para lá, mas um milhão delas se abriu, sem parar, cada uma delas com uma coisa que eu nunca fiz, que gostaria de fazer. Amor, amigos, popularidade, obscuridade, bizarrices e sonhos de sapatos de cristal e vestidos dourados. Hum, coitada da Cinderela, sapatos de cristal deviam doer muito.
(...)
- Ah Viola... Não falta muito para eu ir embora...
- O que?! Você vai embora?
- Sim... Se você se lembra bem isso é uma viagem de férias.
- Oh deus, não faça eu me desesperar. Tinha esquecido. Achava que você morava aqui.
- Bem que gostaria.
- E a sua casa?
- Alugada.
- Peça para seus pais, fique aqui! É, more comigo!
- Ah se eu pudesse... Tenho uma vida no Brasil... Uma família, amigos, um namorado que agora é ex...
- Você nunca me falou sobre a sua vida lá...
- Bom, eu sempre tive os melhores amigos do mundo. Eu saía para festas pela noite, almoçava fora às vezes, e tinha um namorado do primeiro colegial.
- Você namorava um garoto mais novo?!
- Sim, mas eu só gostava dele, não o amava.
- E ele?
- Não sei... Acho que só estava comigo para falar para os amigos que estava com uma garota do terceiro.
- E ele sabe que carrega dois animais em cima da cabeça?
- Não. Só disse para ele que ia para Veneza e que queria estar livre. Ele concordou e estamos... Dando um tempo, digamos assim.
- Curiosidade... Que idade ele tem?
- Hum, 16.
- Você namora um garotinho.
- É a vida.
- Mas e agora, que idade você acha que Ele tem?
- Hum... Uns dezenove.
- Isso é ótimo.
- Você nem imagina o quanto. – Ri.
(...)
Eram mais ou menos umas 15h quando saí de casa com e Viola. Íamos a um dos bairros mais excluídos e perigosos de Veneza, falar com uma senhora que nos indicaram, Appia. Disseram a Viola que ela poderia nos falar mais sobre Stephen. Mais propriamente quem disse foi Stefano, impressão de que ele sabia algo que nós não sabíamos.
Fomos de gôndola, era impossível chegar lá de outra forma. Chegamos lá um pouco temerosos. Era uma parte da cidade que estava literalmente caindo aos pedaços. Saímos da gôndola, pagamos ao homem que nos guiava e seguimos todos ridiculamente de mãos dadas até chegar a casa 321. Um número literalmente decadente. sem saber por que estávamos lá, bateu na porta, fazendo seu papel de Bendito Fruto – ou seja, o único homem entre as mulheres - e nada aconteceu. Esticou a mão novamente e a porta se abriu.
Uma velhinha torcida pelo tempo de longos cabelos brancos, pele enrugada e um vestido de pano velho nos olhava como se tivesse medo. Sua pele era avermelhada, e isso a deixava diferente das outras velhinhas enrugadas que já vi.
- O que vocês querem? – Ela cuspia as palavras.
- Queremos conversar com a senhora. – Disse.
- Sobre meu filho? Se ele roubou algo de vocês, não está aqui.
- Quem é seu filho? – Viola perguntou.
- Stephen. – Ela disse pesarosa.
- Hum, é sobre ele. Mas ele não nos roubou nada. A senhora tem um tempo? – Viola perguntou.
- Talvez. O que eu vou ganhar com isso?
Viola levantou um envelope pequeno e a senhora prontamente abriu a porta mas trancou nossa passagem.
- Quanto tem aí? – Appia olhava fixamente para o envelope.
- Cem. – Viola disse.
- Entrem.
Appia abriu a porta e entramos. A casa era extremamente pequena e desorganizada. Um cheiro detestável de urina de gato entupia nossos narizes acostumados com a lavanda dos sprays para melhorar o cheiro do ar. Dois gatos ocupavam o único sofá que havia ali. Correu os gatos, e receosos, nos sentamos.
- O que querem saber? – Appia estava impaciente.
- Primeiramente – Viola começou – você sabe onde ele está agora?
- Deve, e realmente espero que esteja no cemitério. Se não estiver, está por aí.
- E o que a senhora pode nos dizer sobre ele? – Perguntei.
- Ele é maldito! Maldito!Saiu de casa aos 14, uma benção! Espero que esteja morto e pague, pague por tudo! Vivia vindo me importunar, pedindo dinheiro, roubando. Maldito!
- Mas por que maldito? – perguntou de curioso.
- Ele é demoníaco, eu sei, ele é enviado, ele vai nos matar. – Ela estava cada vez mais nervosa – Ele só me deu desgosto! Criatura maldita.
Appia – para não dizer “a velhinha estranha” – começou a falar algo em outra língua, parecia praguejar algo.
- Vocês não mantinham um bom relacionamento? – Perguntei.
- Você esperava que sim? Eu o odeio, ele é o pior do mundo. Mas o que traz vocês aqui?
- Eu. – Respondi.
- Vocês estão casados?
- Não! – Ri, e ela deu o primeiro risinho – Existem coisas que gostaria de saber sobre ele.
- Vocês são da polícia?! Não me levem, mas digo qualquer coisa pra que o matem, o prendam!
- Não somos senhora. – Viola riu – Mas ele pode nos colocar em problemas se continuar com seu comportamento estranho.

- O que a senhora sabe sobre isso? – Perguntei esticando-lhe um papel com uma inscrição.
No papel dizia “Actio libera in causa”. O que em português quer dizer “ação livre na causa/momento”. Estava gravado no punhal de prata que estava no caixão. Enquanto Ele pegava as coisas para arrumá-lo, eu fotografei a inscrição.
- Maldito! – Ela gritou – Onde conseguiu isso?
- Não vem ao caso. – Falei.
- Vão embora, vão embora logo! Mas tomem cuidado.
Ela abriu a porta e nos jogou para fora.
- Ok. Agora vocês podem nos dizer o que foi isso? – estava sem referências.
- Ainda não . – Falei.
- Isso não tem nada de criminalística não é?
- Não! – Ri – Pelo menos por enquanto não.
(...)
Cheguei até a Piazza, e lá estava ele. Olhando o céu como na primeira vez que o vi, com a mesma roupa, se minha memória não estava falha.
- Falei com a mãe do Stephen hoje. – Disse passando minhas mãos de suas costas até segurarem seus ombros.
Virou-se de frente para mim, sorriu.
- Acho que vou começar a temer você. Você é detetive ou o que? Como descobriu quem é a mãe dele?
- Se dar bem com bastante gente é bom. E mexer meus pauzinhos é melhor ainda. – Pisquei.
- Hum, mexer pauzinhos. – Ele fez uma cara safada.
- Por favor, me poupe da sua malícia.
- Malícia? Quem falou em malícia?
Cada blanco de mi mente, se vuelve color con verte. Y el deseo de tenerte, es más fuerte, es más fuerte.
Segurou em minha cintura e me puxou para si. Pressionou seus lábios em meu pescoço, e rapidamente, grudou-os em minha boca, me beijando furiosamente. Suas mãos me pressionavam o quadril com força, e seus dentes às vezes mordiam meus lábios.
- Eu... Tenho... Que te falar... Uma coisa. – Dizia entre beijos – Não... Tire-me... A atenção.
Soltou-me com um sorriso maroto nos lábios.
- Fale.
- Deixe-me recuperar o fôlego. – Ri e respirei fundo – Olhe.
Estiquei a imagem do punhal.
- Enquanto você pegava as coisas achei isso gravado no punhal. Fotografei. Quer dizer “ação livre na causa/momento”. Falei sobre com a mãe dele, e ela só gritava que ele era maldito. Saiu de casa aos 14. E segundo ela ele é a maldição em pessoa.
- Uau. – Ele disse – Porque não me mostrou isso?
- Não achei necessário. – Ri – E tinha meus próprios planos. – Pisquei.
- Hum, planos próprios. Porque não me incluiu neles, fez sozinha?
- E quem disse que fiz sozinha?
Rocei meus lábios nos seus, provocando-o.
- Não estou gostando desse assunto. Preferia você sozinha ou...
- Ou?
- Comigo. – Mordeu o canto de minha boca.
- Hum, se quiser...
- E você ainda tem alguma dúvida?
- Talvez.
- Posso te pedir em casamento. Você quer que eu peça?
- Você é louco?
- Só se for por você.
Começamos a nos beijar de novo, e como sempre, fomos interrompidos.
- Vou embora. – Disse e o beijei – Não quero conversar com o Stephen.
- Vá!
Saí correndo por um caminho diferente do que eu sempre costumava encontrar o maldito.

CAPÍTULO 31



- Ah Viola, não quero saber de Stephen por agora. Quero um dia normal! Um só.
- Ok, vamos lá querida. Vamos para a praça.
- Está bem. Vamos.
Fomos indo calmamente para a praça rindo e falando besteiras. Não importa o quão pouco tempo fizesse que Stephen apareceu, mas aquilo estava me incomodando, me enchendo a mente. Stephen, Stephen e Stephen. Tudo parecia girar em torno dele. Ele estava tornando meus dias infernais, embora estivesse me divertindo ao me envolver em algo diferente do que sempre estive acostumada.
Chegamos na praça e fomos ao nosso banco. Lá estavam , Chiara e Lorenzo, falando sobre alguma coisa animadíssima.
- E aí! – disse me puxando para perto de si pelas pernas, encostando sua cabeça em minha barriga e me abraçando.
- Oi ! – Ri e mexi em seu cabelo.
- Oi ! – Ele riu – Hum, você mexendo em meu cabelo me dá sono.
- Pode dormir, eu deixo.
- Se você diz então. – Ele fechou os olhos e riu.
- Hum ... Se aquele for Tommaso, ele está tendo uma crise de ciúme com o que vê.
- Vamos ver até onde ele agüenta quieto.
Levantei e o abracei. me deixou de costas e começou a segurar minha cintura e a apertá-la enquanto minha mão estava na sua nuca. Pra quem via do ângulo de Tommaso estávamos nos beijando.
- Uau, você tem uma pegada boa. – ria, os rostos perto demais, mas em segurança.
- E você também! Parabéns hein?! – Ri.
- Tommaso está vindo, está vindo!
- Me abraça!
me abraçou e eu fechei os olhos. Quando abri, pulei de susto.
- Oi . – Tommaso disse meio abaixado, com o rosto quase colado no meu, nós éramos mais baixos que ele.
Vi o rosto de ciúme e de flagra de Tommaso e caí na gargalhada. Idem e meus amigos.
- Eu tenho cara de palhaço por acaso? – Tommaso se irritou.
- Tem. – Ri.
- Você aí se agarrando com essa coisinha e eu que tenho cara de palhaço?
- É você sim bobinho. – Pulei no pescoço dele – Você não vê que eu estava te fazendo ciúmes? Esse é , meu melhor amigo.
- Ah. – Ele corou – Oi .
- E aí cara!
Os dois se cumprimentaram.
- Bem – Tommaso disse – estou aqui de passagem, só para falar com você. Sem ser amanhã, nem depois de amanhã, o outro dia tenho de falar com você. Nos próximos dois dias não virei, estou ajudando minha mãe há um tempo em algumas coisas e não tenho tido muito tempo livre. Mas enfim, em três dias estaremos nos falando de novo, e dessa vez eu vou fazer o que eu tenho de fazer.
- Ah... Sim. Mas do que se trata?
- Não vou te dizer agora. – Ele riu e olhou no relógio – Bom, tenho que ir. Sinto sua falta pequena. – Ele me beijou e saiu correndo.
Sentei-me um pouco pensativa, onde estava antes.
- O que houve ? – Lorenzo parecia preocupado.
- Tommaso... Tenho impressão de que ele vai sacrificar algo por mim.
- Por que essa impressão?
- Eu sei que ele vai embora... Mas tem algumas coisas que podem mudar isso. Tenho um leve palpite que eu sou uma delas. Ele quer falar comigo dentro de três dias, quando terá tempo livre... Tenho medo.
- Ai, com certeza ele vai mandar você decidir.
- Você acha Lore?
- Estou quase certo. Mas e se for o que você vai dizer?
- Sabe, não o amo tanto quanto amo Ele, mas sinto algo por ele entende. Ele é importante, mas claro que vou dizer que eu não valho o futuro dele.
- Mas você vale. – comentou.
- Não sei , não sei o de outros... Mas esteja certo de que o dele, não.
(...) A tarde passou voando. Eu simplesmente amo aquelas pessoas mais que tudo, apesar de que cada uma delas tem seus contras. São tudo para mim, meus melhores amigos, meus grandes irmãos. E desde aquele dia perdido no supermercado, se tornou um deles.
Enquanto pensava nisso, caminhava sentindo a noite passar por mim como uma multidão de pessoas silenciosas, mas que ocupavam muito espaço e me faziam sentir apertada. Sentei-me em uma ponte no caminho da Piazza e abracei minhas pernas. Fiquei observando a água que se seguia enquanto pensava sozinha sobre o rumo das coisas. Minha vida cada dia parecia uma, não sentia mais constância nela. Um dia estava bem, e no outro mal. A única coisa que permanecia a mesma era o que eu sentia. Segurei a rosa em meu pescoço, que nunca saiu dali desde que a coloquei. Era ela que me segurava quando eu pretendia cair, quando meu corpo se afrouxava e a esperança de que no futuro eu estivesse com ele tentava ir embora.
Ouvi e senti alguém se aproximar. O vento me trouxe aquele doce perfume, que se espalhou e dissipou por todo o ambiente em segundos. Sentou-se a meu lado, apoiando seu braço por trás de minhas costas, olhando o horizonte, compartilhando do meu silêncio.
Yo aqui te espero, y aun recuerdo, ese momento... Tus besos al despertar. La brisa, el viento, la luz del puerto, tan lejos de la ciudad...
Encostei minha cabeça em seu ombro, e cerrei meus olhos. Envolveu-me com seus braços, me deixando aninhada em si, sentindo o cheiro de sua pele que estava em suas roupas. Queria congelar aquilo, aquele momento. Congelar nós dois para que não nos separássemos mais. O vento estava batendo forte nos nossos rostos, tocava suas mãos geladas em minha pele quente. Respirei fundo, soltei um longo suspiro que O fez olhar para mim.
- O que você está pensando? – Ele quebrou o silêncio.
- Em tudo.
- Em tudo o que?
- Tudo. Em como cada dia minha vida muda.
- Somos dois. – Suspirou.
Ficamos em silêncio novamente.
- Me fale mais sobre você. – Pedi.
- Hum... Eu sou uma pessoa diferente das outras, eu espero.
- Claro, ninguém é igual. – Ri – Mas enfim, de onde você veio?
- Depende da hora... Hum... Nova Jersey, Los Angeles, Texas. Pode escolher. – Riu.
- Fico com... Todos.
- E você?
- Brasil, Brasil e Brasil. Não dá para escolher.
- Mas então, fico com todos. – Riu.
- Você tem irmãos?
- Tenho... Três. – Riu.
- Eles são legais? – Perguntei.
- São meus irmãos, você espera o que?
- Se for assim, muita coisa. – Ri.
- Como é Nova Jersey? E Los Angeles, e Texas?
- São legais... Um dia te levo pra lá. – Ele riu – Bem...
(...)
Ficamos conversando por um tempo sobre os lugares que ele já esteve. Eram lugares que eu sempre quis ir. Lugares bonitos, cheios de histórias divertidas e atraentes. Ele era realmente uma pessoa com a qual podemos manter uma conversa fluente por mais de uma hora sem parar.
- E agora que estou aqui, não quero mais ir embora. – Ele disse.
- E você acha que eu quero?
- Sabe, eu posso até ir embora. Mas para o lugar onde você estiver.
- Temos mais um ponto em comum. – Ri.
Beijamos-nos. Mais um daqueles mil beijos que já provei. Doces, salgados, amargos, desejados, evitados, sentidos, amados, lembrados, casuais, comprometidos, esperados, roubados.
Abraçamos-nos. Mais um daqueles mil abraços que já dei. Apertados, soltos, sonhados, imaginados, evitados, obrigados, espontâneos, inesperados.
A noite estava alta e eu estava cansada.
- Até hoje. – Disse.
- Até hoje. – Ele respondeu.

CAPÍTULO 32



- Bom dia Viola querida! – Disse me jogando da cama.
- , são 15h! Você esqueceu do que temos que fazer?!
- Ah, er... Não! O que temos que fazer?
- Vá se arrumar logo enquanto eu faço algo para você comer.
Troquei a roupa e quando desci Viola estava com um prato de torrada com omelete na mão. Comi com gosto, estava morrendo de fome e o prato estava ótimo. Repassamos o que iríamos fazer e falar, instituindo perguntas e prestando atenção em não exagerar em nada.
Subimos na minha moto.
- Próxima parada, manicômio de Veneza. – Falei, Viola riu, e dei a partida.
(...)
Bati na porta da instituição levemente. Bastou o que fiz, pois a porta foi aberta por um pequeno homem sorridente que nos indicou algo que se parecia uma recepção.
- Olá! – Viola sorriu – Nós somos Calogera e Cunegonda Sgobi.
A moça deu um risinho pelo nariz abafado, e nos olhou com uma expressão debochada.
- Algum problema? – Viola, ou melhor, Calogera perguntou.
- Não, de forma alguma. – Ela se recompôs – Vocês são da mesma família?
- Sim, primas. – Viola disse.
- E vocês têm algum parentesco com o senhor Vito?
- Somos de uma família de Gênova, não o conhecemos, mas nossos pais nos pediram para visitá-lo, pois mesmo com problemas teria muitas histórias boas para nos contar, e andava muito solitário.
- Hum, hoje pela manhã um garoto veio visitá-lo.
- Moreno, com cabelos pretos, caindo sob a testa, com uma voz boa e muito bonito? – Perguntei.
- Sim, muito bonito. – Ela riu.
- Hum, meu namorado Alfio. – Ri.
- Oh, me desculpe senhorita Cunegonda. – Ela se constrangeu – Bem que ele se identificou como amigo próximo da família e avisou a chegada da senhorita em breve!
- Avisou? – Perguntei.
- Sim, disse que uma garota brevemente viria visitá-lo! Não tinha certeza, mas tinha quase. – Ela riu.
- Como sempre Alfio bancando o espertinho. – Gargalhei e ela recuou – Mas então, quando podemos vê-lo?
- Agora mesmo. Acompanhem-me.
Ela nos guiou até um corredor e nos indicou a última porta, e logo estava apenas eu e Viola.
- Por favor Viola... Cunegonda? Não podia ser um nome hum... Melhorzinho?
- Não resisti... – Ela riu – Mas e essa história de Alfio?
- Ele esteve aqui. Como sempre mais rápido do que eu.
- Você entrou no nosso teatrinho mais rápido do que eu imaginava. – Ela riu – Bem, vamos entrar.
Abrimos levemente a porta e uma enfermeira nos deu a ordem de entrar. Lá estava Vito, sentado em uma cadeira, nos observando com uma expressão curiosa. Vito não era tão velho, devia ter seus 57, 58. Era grisalho e um pouco enrugado, e nada feio para um quase idoso com problemas mentais.
- Calogera e Cunegonda?
- Somos nós. – Respondi.
- Bom, se precisarem de algo, apertem o botão verde ao lado da porta, ok?
- Entendido. – Viola disse.
A enfermeira saiu e Vito nos olhava com cara de espanto.
- O que querem de mim? – Vito cuspiu as palavras.
- Primeiramente boa tarde! – Viola sorriu – Eu sou Viola, e esta é .
- Vocês não eram Calo alguma coisa e Cune outra coisa?
- Sim, éramos. – Ri – Mas nossos nomes verdadeiros são Viola e .
- Ah, sim. – Ele estava confuso.
- Bom , te passo a palavra. – Viola disse.
- Vito, só peço que responda o que souber, e o que quiser, não se sinta intimidado nem obrigado a nada, tudo bem?
- Tudo bem. – Ele disse.
- O que você sabe sobre Il cattivo?
- Outra pessoa! Vocês também. Vou ficar louco!
Eu dei um risinho e Viola riu também.
- Ele não morreu, ele não morreu!
- Como assim não morreu?
- Ele está vivo! É você não é? É você! – Apontava para mim – Você e aquele garoto da manhã!
- Somos o que?
- As próximas vítimas. – Seus olhos se arregalaram.
- Por que você acha isso?
- O garoto disse que suspeitava que sua amada fosse vítima... E a rosa, a rosa em seu pescoço.
- O que tem ela?
- Ele a deu para você. Ele te ama. – Ele estava nervoso.
Suspirei encantada e voltei à realidade.
- O que mais você sabe?
- Stephen está vivo... Eu sei... Eu tentei avisar e me trouxeram para cá. Maldita epilepsia. Mania de acharem que eu sou louco. Acho que vou ficar louco. – Ele começou a puxar os cabelos.
- Não há motivo para preocupações Vito, as coisas estão sob controle.
- Ótimo, ótimo. Acho que Stephen desistiu de mim, pelo menos um dia, desistiu, desistiu.
- Sim, desistiu. – Tranqüilizei-o - O que ele fez para você?
- Ele matou minha garota! – Ele bateu o punho na mesa com força – E eu tentei matá-lo, mas ele está vivo, eu sei, eu sei! Sem ela não posso nada, sem ela nem matar ele eu pude, nada, nada. - Não se desespere Vito, mas ele não morreu. Certifiquei-me disso. E foi esse o motivo pelo qual vim aqui. O que fez as outras pessoas pensarem que você estava louco?
- Eu passei minha vida, perdi meu tempo, tempo, pesquisando sobre Il cattivo. Ele não me deixava em paz nem pelo dia, não deixava, não deixava. Ele queria a ela, e depois a mim, e aí eu joguei-o no canal, e vi-o desaparecer com meus olhos, vi a notícia no jornal, eu juro que vi. Não pude falar a profecia. Mas ele continuou me perseguindo, continuou até algumas semanas. Avisei a todos, gritei ao mundo, mas ninguém me ouviu e me jogaram aqui, aqui e aqui. – Ele cutucava sua cabeça.
- Falar a profecia? – Perguntei curiosa.
- Sim, a profecia. É, é, a profecia. – Estava ofegante – A profecia.
- Como funciona?
- De um determinado modo, um modo. - Ele coçava a cabeça – Mas antes de qualquer coisa, te desejo sorte, Il cattivo sabe quando cogitam a profe... Profecia. E o garoto te ama, e você o ama. Se não amassem não correria perigo. Não deixem que aquilo destrua vocês, não, não deixem. São poucas pessoas como vocês. Eu fui uma delas, e perdi o sentido da minha vida, de toda ela. – Ele estava segurando a garganta.
- Claro! Obrigada Vito. Mas pode me dizer como é a profecia?
- Ela... Ela... – Ele começou a ofegar muito – O garoto a tem! Ele tem!
Vito começou a estremecer e caiu da cadeira, parecia agonizar. Corri desesperada pela cena e apertei o botão verde.
- Matem-no, matem-no! Mate ele, acabem com a maldição, a maldição! – Ele deu seu último grito em um sol altíssimo, desesperado, pude ver o desespero em seu olhar.
Uma enfermeira entrou correndo, e foi socorrer Vito. Outros chegaram com uma maca e levaram-no embora.
- Ele vai ficar bem? – Perguntei preocupada.
- Sim, isso é comum. – A enfermeira sorriu – Ele vai ficar bem, não precisa se preocupar.
Fomos embora dali, depois de uma cena realmente traumatizante.
(...)
Cheguei na Piazza e lá estava ele, me observando chegar. Como sempre, mais rápido que eu.
- Bon soir mon amour. – Ele disse.
- Bon soir mon ange. – Me aproximei dele, selando nossos lábios.
- O que me diz sobre a sua visita a Vito pela manhã? – Perguntei.
- Como você sabe? – Ele pareceu confuso – Pedi a Vito que não falasse!
- Mas antes de ele falar, a moça da recepção disse que havia tido visita pela manhã. Perguntei se era um garoto de voz bonita, cabelo caindo na testa e muito bonito e ela disse que sim. Ou seja, você. – Ri.
- Ela me achou bonito? – Ele fez uma cara galanteadora.
- Sim, e aí eu disse que você era meu namorado. – Ri – E aí ela disse “Oh me desculpe senhorita Cunegonda.” – Ri.
- Cune... Cunegonda?! – Ele se espantou.
- Sim, e seu nome era Alfio. – Ri.
- Alfio? Tenho pena de mim depois disso.
- Eu também teria. – Ri – Mas enfim, qual é a profecia? Quando ele foi me dizer teve um ataque epilético e me disse para falar com você. Depois me mandou matar o tal e gritou “maldição!” umas três vezes.
- Nossa. – Ele franziu o cenho – Aqui.
Ele tirou um papelzinho do bolso e me mostrou. Dei uma checada e mil pensamentos me tomaram a mente.
- Meu deus do céu! O que é isso! Pelo pouco que entendo de latim, e o que minha cultura preza, isso parece algo bizarro, como aqueles episódios de Supernatural onde matam demônios.
- Nosso próprio supernatural... Isso me chama atenção. – Ele riu.
- Mas só tem que achar ele e dizer isso? – Perguntei confusa.
- Ele tem que estar inconsciente. Na hora do “In vino veritas” temos que deixar pingar as gotas de sangue em sua garganta e depois prosseguir. Quando acabar, ou seja, depois de dizer “otium cum dignitate” o objeto de prata deve ser inserido no corpo de modo a acabar com a vida, não importa onde.
- Agora sim, isto realmente me parece com Supernatural.
- Ele não deixa de ser um demônio.
- Seja sincero, você realmente acredita nisso?
- De uns tempos para cá, tenho visto que minhas opiniões eram muito fechadas. Acredito. – Ele riu – Ninguém seria capaz de escrever algo assim em latim só para brincar.
- Isso é verdade. Mas teremos que matar ele.
- Ah, tem outra coisa, só se pode executar a profecia depois de alguma ameaça que tenha saído da boca dele ou algum ataque. Antes, não.
- Isso está ficando mais difícil do que pensei.
- Pelo menos não corremos risco de matar a pessoa errada. – Ele riu.
Ouvimos passos e um relincho de Hades. Ele assoviou e o cavalo logo estava em sua frente. Hades fazia um som estranho, como um som de dor. Observamos e demos de cara com um corte em seu corpo, superficial e longo, que deixava correr sangue.
- Oh deus! Hades, você está bem? – Abracei o corpo do cavalo.
- Ele não vai te responder. – Ele riu.
- Isso já não foi um ataque, não é suficiente para matarmos ele?
- O ataque deve ser diretamente em algum de nós dois. Provavelmente que seja em você. Você é mais frágil. Ele te mata, ou seja, tira uma parte de mim. Me deixa louco e eu acabo como o Vito, internado. – Ele riu.
- Se ele te matar, eu juro, pico o Stephen em pedacinhos. E se eu morrer, pelo menos eu um dia fui parte de você.
- É e sempre vai ser. – Me beijou – Agora vá, está perigoso.
Corri, corri e corri.

CAPÍTULO 33



Acordei sem pressão alguma. Abri a janela e senti o vento no meu rosto. O dia estava nublado e ventoso. Uma frente fria chegou a Veneza, havia visto no jornal no dia anterior. E o outono começava a parecer inverno. Coloquei uma calça de abrigo, uma blusa e um casaquinho, nada de mais. Coloquei meus tênis e deixei a janela aberta para que entrasse vento frio e temperasse a casa. Tomei um café tranquilamente, agradecendo o dia feio e a solidão que vinha com ele. Eram 10h quando metade de meu mundo desmoronou. O telefone tocou e eu atendi.
- Alô?
- ?
- Sim? Mãe?
- Sou eu ! – Ela estava com uma voz chorosa.
- O que houve, tudo bem?
- Antes de tudo, como está aí em Veneza?
- Ah mãe, um sonho se realizando. Tudo perfeito. Mas o que houve?
- Precisamos conversar.
- Fale!
- Mais do que nunca, precisamos da sua ajuda...
- O que está havendo mãe?
- Seu pai ele...
- O que houve com ele?
- Ele está bem... Mas não sabemos como... Minha filha, estamos sem dinheiro algum.
- Co...Como assim?
- O dinheiro da conta de seu pai foi desviado, desapareceu! A polícia está investigando mas não garante nada. Filha, estamos sem nada. – Ela soluçou fracamente.
- Oh meu deus mãe! O que eu posso fazer para ajudar?
- Não sei minha filha... Arrume um emprego, poupe dinheiro, se case com um rico e pegue seu dinheiro... – Ela deu um pequeno risinho.
- E o papai, como está?
- Arrasado, dobrou o turno no trabalho, fadigado, posso dizer. Passa todo seu tempo livre na polícia, ou ao lado do telefone esperando notícias de que o seu dinheiro está novamente na conta, mas a única notícia que recebe é que nada foi descoberto ainda.
- Me diga uma coisa... A quanto tempo isso aconteceu?
- Em torno de uma semana.
- Uma semana?! E você me avisou só agora?
- Não víamos necessidade, mas agora realmente precisamos de sua ajuda.
- Vou comprar a passagem e estou indo para o Brasil, se der hoje mesmo! Ok?
- Não! - Ela gritou - Não queremos que você volte! Aproveite o dinheiro que foi investido nisso, não desperdice um centavo. Só precisamos de ajuda.
- Vou fazer o possível. Entro em contato em breve.
- Ok filha. Fique bem que nós também estaremos.
- Te amo mãe.
- Eu também.
Desliguei o telefone, perplexa. Senti um grande aperto no peito. A situação era bem mais séria do que parecia, tendo em vista que na conta de meu pai moravam quase cem mil reais, os quais ele batalhou para ter e guardava com muito orgulho. Na minha no momento moravam quinze mil, quase nada levando em conta as despesas que eu fazia. Eu conseguiria sobreviver com aquilo, se arrumasse um emprego. Nunca fui criada sem mordomias, e minha mãe sempre esteve acostumada à boa vida. Se eu quisesse fazer eles felizes de novo, teria que sacrificar algumas coisas. Número um, minha scooter. Do jeito que estava, peguei uma bolsa e com a scooter voltei até a concessionária. Fiz uma longa negociação, e consegui a scooter por um ótimo preço, e assim dei o número da conta de meu pai e o dinheiro do pagamento foi para lá.
(...)
Caminhava pela cidade sem emoções. Não conseguia sorrir nem quando via as pessoas se cumprimentando e sorrindo umas para as outras. Metade de meu mundo pareceu cair. Era um absurdo que o dinheiro houvesse sido roubado, um absurdo. Minha família era a meia base da minha vida, da minha sanidade. Dentro dela estavam meus pais, meus tios e meus amigos. E a outra metade, era Dele.
Meu coração pesava ao pensar no desespero de meu pai, vendo todo um sacrifício e orgulho ser jogado fora, tomado de si sem piedade. E pesava mais ainda por estar longe dele e de minha mãe num momento crucial. Mas dizem que tudo acontece como tem que ser, ou seja, acho então que se eu estivesse lá ia ser pior.
(...)
Bati na porta da casa de Viola e não havia ninguém. Já eram mais ou menos 16h. Havia almoçado, passeado de gôndola, feito absolutamente nada. Talvez fosse hora de eu arranjar um emprego. Peguei fôlego e fui até a praça, precisava pelo menos vê-los, saber que existiam para ter certeza que eram reais e que iriam me socorrer, pois convirei, eu estava um lixo.
Cheguei até a praça e lá estavam eles sentados todos juntos rindo. , Viola, Lorenzo e Chiara. Me aproximei e todos me olharam com uma cara curiosa.
- Onde você esteve mocinha? Te procurei de manhã, antes de vir, na hora do almoço... - Viola parecia realmente preocupada.
- Até eu passei em sua casa e nada. - disse.
- Estive vendendo minha scooter.
- Por quê?! - Lorenzo gritou.
- Acalme-se Lorenzo. - Chiara sempre calava a boca dele - O que houve ?
Apertei os lábios pela vontade de chorar. Mantive minha postura séria, mesmo sendo impossível esconder minha frustração.
- Meu... Meu pai. - Suspirei - Desviaram todo o dinheiro que nós tínhamos. Só temos o que há em minha conta e o pouco que mandei para conta deles do preço de minha scooter.
Todos ficaram em silêncio, pareciam tão chocados quanto eu quando descobri. me olhava com olhos piedosos, Viola desesperados, Lorenzo perplexos e Chiara confusos.
- Ai meu deus ... Eu nem sei o que dizer... Você precisa de ajuda? Eu tenho umas economias e...
- Não Viola! Muito obrigada... Vou dar um jeito de arranjar um emprego...
- Você é louca? - Lorenzo disse - Estamos em férias, ok.
- Deixe de ser ignorante Lore, ela precisa. - Chiara estava séria - Bom, conheço vários lugares que tem vagas...
- Seria muito útil... Mas eu preciso de algo que dê dinheiro rápido e grande.
- Você precisa de bons contatos. - concluiu.
- Tommaso... - Viola assoviou o nome - Ele deve ter ótimos contatos.
- Mas Viola, ele vai embora...
- Ainda existem chances... - Viola disse - Não desista antes mesmo de tentar.
- Eu já disse que amo vocês? - Falei meio emocionada.
- Não. - Viola riu.
- Pois então, amo vocês.
- E nós todos te amamos . - Lorenzo falou e eles me deram um abraço conjunto.
(...)
Mais do que nunca eu precisava Dele. A noite caiu pesada e extremamente negra, junto com o meu desespero que parecia constantemente crescente. Eu precisava da minha droga favorita, da minha válvula de escape, da única coisa que ainda parecia certa em minha mente. Agradeci aos céus por ter o que tinha, por viver aquela vida, e de quebra, implorei que as coisas ficassem bem. Era só o que eu pedia, não pedia por mim, pedia pelas minhas outras vidas, as que eu mais amo.
A Piazza estava vazia. Me sentei na grade e esperei-o chegar. Os minutos pareciam se arrastar, pareciam estar dobrados, quem sabe até triplicados. Mas não tardou muito e ele apareceu, como sempre entre as sombras e com aquela expressão inatingível.
Levantei-me rapidamente e o vi me observar com uma expressão surpresa. Me aproximei dele e abracei-o. Me segurou firmemente entre seus braços, me deixando segura. Não segurei as lágrimas de choque pela notícia. Nos braços dele eu podia tudo.
Vives esperando un corazón extraño que venga aquí, y saque de tu cuerpo y tu alma lo mejor de ti. Hoy siento que la vida me muestra contigo su lado azul, y es todo lo que pido por ser feliz, ¿qué pides tu?
Éramos ali duas pessoas que dividiam suas vidas uma com a outra, cada uma de seu jeito e com sua forma mais apropriada, e nos ajudávamos, sem nem precisar de palavras. E eu estava certa de que jamais encontraria algo desse tipo.
- Hey minha garota, você está bem? - Ele mexeu em meu cabelo.
- Não... - Falei fracamente.
Sentamo-nos no chão, enquanto ele me colocava em seus braços, aninhando-me como um bebê em seu colo.
- O que houve minha pequena dama?
- Problemas... - Sussurrei.
- E você gostaria de falar sobre isso?
- Eu não entendo sabe... Porque as coisas acontecem conosco em horas que tudo deveria estar bem... E o pior é quando o problema não é você. Você não se importa de sofrer se não machucar os outros, se o problema for só entre você e si mesmo. O problema surge quando as circunstâncias só te levam a tomar decisões que podem te matar por dentro e matar as pessoas você mais ama e contrariar todos os seus princípios, trocando as prioridades. Não só as suas, como as de quem você nem gostaria de mencionar contando a partir do fato de que você terá de machucá-la para chegar aonde precisa.
- Eu acho que não seria capaz de machucar a pessoa que eu mais amo...
- Mas se você tivesse que sacrificar ela por outras que você não ama mais do que ela, ama igual, mas que são prioridade...
- Acho que o faria. Depende sabe... Às vezes é realmente necessário sacrificar um por outro...
O som começou a ficar cada vez mais baixo, e aos poucos, sonhos e imagens sem nexo algum começaram a tomar conta de minha mente. Seu perfume me entorpecia, e o calor de seus braços me lembrava lar. Meus pensamentos começaram a vagar, e meus olhos já estavam fechados.
(...)
Acordei com uma luz tocando minhas pálpebras cerradas. O meu corpo estava bem posicionado, envolvido por um manto quente enorme e que se movia, como respiração. Abri meus olhos lentamente, e vi o sol da manhã invadir minha mente sem piedade. Movi-me e vi que estava deitada em Hades, que estava acomodado ao chão, cuidando-me. Empurrou com uma das patas um papel dobrado, agora meio sujo e rasgado pela pressão com o chão.
- Obrigada Hades... - Passei a mão em sua cabeça.
“ Minha dama... Desculpe tê-la deixado aí, mas tive realmente que ir... Pena não poder ver sua pele ao sol da manhã. Hades está com você, te cuidará em meu lugar. Volte para casa com ele. Com todo amor do mundo, Alfio”
Sorri e guardei o papel em meu bolso. Alfio... Só podia ser coisa dele. Hades levantou-se. Montei nele e fui para casa, com todos que já saíam por aquela hora me observando curiosos.

CAPÍTULO 34



Havia chegado em casa e me deitado. Dormi três horas, pois acordei as 9h da manhã, e estava totalmente descansada, pois havia dormido a noite inteira praticamente. Coloquei a mão no bolso e peguei o papel, escrito em uma caligrafia desajeitada mas charmosa. Um vento fraco, me trouxe a fragrância do perfume dele. Aproximei o papel do meu rosto e senti o cheiro. Estava ali, o perfume dele, mais forte do que nunca. Queria deixá-lo ali para sempre, e me frustrava que com o tempo iria desaparecer, se transformando em milhares de partículas perdidas.
Fui até a estante e abri Venecia. Abri em uma página aleatória e depositei ali o papel. Mas antes de fechá-lo, resolvi ler a frase no rodapé.
“A grande escola é o amor: as exigências do amor levam a grandes heroísmos. Quando o amor é verdadeiro, o sacrifício não dói; o amor faz estimar como bem próprio aquilo que é um dever. (J. L. Lorda)”
Fechei o livro um pouco perturbada. Naquele momento mil idéias encheram minha mente. Mas só uma delas me parecia plausível. Mas era incerta, não envolvia só a mim, e isso já a tornava pior do que era. Não importa o que acontecesse, se tudo desse certo para que eu a colocasse em prática, eu estaria abrindo as mãos, e soltando o que eu guardo de mais precioso quem sabe para sempre.
(...)
Cheguei até a praça com Viola e encontrei meus amigos ali. Devo convir que estava meio insegura pelo que Tommaso gostaria de falar comigo. Temia que fosse o que eu pensava, porque se fosse, minha decisão não teria volta atrás. Teria de fazer aquilo e pronto.
Sentei-me no banco com eles e tentei me distrair de meus pensamentos que estavam me matando por dentro, embora por fora eu parecesse totalmente confortada e conformada. Sorri ao ver gargalhar de seu modo infantil, era lindo, mesmo que eu nem estivesse ouvindo o que eles estavam falando.
Tentei prestar atenção às conversas ao meu redor.
- Por favor Viola, me poupe dos seus comentários sem noção.
- Ah , não implique comigo. Você é o novato aqui. Então você deve me ouvir e ficar quieto.
- Como se você falando fizesse alguma coisa a não ser um som irritante.
- , não ouse falar isso de mim! Você não sabe com quem está se metendo!
- Eu ri. Faz-me rir Viola, você acha que manda e não manda em nada. - Ele fez uma careta engraçada.
- ... Você... - Ela quase rosnou - Eu o-d-i-e-i te conhecer. Porque você não volta para baixo da sua pedra? De onde nem deveria ter saído!
- Acho que vou voltar para Los Angeles mesmo. Pelo menos a minha pedra é bem melhor que a sua.
- Olha aqui meu querido, Gênova é linda ok?! E outra,mil vezes eu do que você! Você vai para Los Angeles, eu agradeço e nunca cogito a opção de ir lá. Bom para você?
- E se eu não quiser sair daqui?
- Você vai sair. - Ela estava espumando, enquanto ria, sarcástico.
- Os incomodados que se retirem.
- Vá embora logo!
- E eu estou incomodado? Não. Se você não se importa, ficarei aqui!
- , eu vou te matar!
- Chega vocês dois! - Gritei - Mas que coisa! Não se pode ter um minuto em paz!- Resmunguei alto.
Depois daquilo me dei conta de que havia aproximado polaridades iguais, ambas não suportam proximidade uma da outra sem tentar se repelir. Olhei para frente e vi os rostos de todos com uma expressão de espanto.
- Vão ficar me olhando agora? - Resmunguei mais.
- Desculpa... - disse.
- Não dá nada, contanto que por favor parem de se alfinetar!
- Pararemos... - Viola baixou a cabeça - , Tommaso está vindo.
- Merda. - Mordi o lábio, nervosa.
Olhei para trás como quem não quer nada e ali estava ele, a me observar virar.
- Boa tarde Tommy! - Eu disse.
- Boa tarde minha pequena. - Ele abaixou-se e me deu um selinho - Você se importa se conversarmos a sós?
- Hum, claro que não, vamos.
Me levantei, enquanto nos dirigíamos ao meio da praça, onde todos nos viam mas não podiam nos ouvir.
- Bom pequena, é o seguinte. Você sabe da mudança e tudo mais, mas tem coisas que você pode até imaginar mas ainda não sabe.
- Tommaso, eu...
- Não fale, por favor, só ouça. Desde que eu te conheci minha vida nunca mais foi a mesma. Os meus dias se tornaram mais coloridos, e eu passei a ver algumas coisas de um modo diferente, eu passei a ver meu futuro de um modo diferente. Sabe , você é diferente de todas as garotas que eu há conheci, de todos os sorrisos que eu já vi. E eu acho que está na hora de eu tomar uma decisão. Na verdade está em cima da hora, esta decisão iria ficar para mais tarde, se eu não estivesse sendo pressionado pelas circunstâncias.
Ele respirou fundo. Eu engoli a seco, e acho que ele ouviu o ruído de minha garganta.
- , eu te amo. E eu não posso mais esperar para te dizer isso. Eu te quero comigo, e você é o único motivo pelo qual eu ainda estou aqui.
- Me ouça Tommaso, eu...
- Não fale, de você eu quero uma única palavra. Ei, todo mundo, aqui! - Ele começou a gritar - Quero que vocês sejam testemunhas!
Todos se voltaram para nós e se aproximaram, inclusive meus amigos. Meu rosto corou violentamente, e pela primeira vez eu temi o segundo seguinte.
- , eu te amo! Eu te amo e não vou mais esconder isso! - Ele se ajoelhou em minha frente, liberando minha visão. Viola via meus olhos desesperados escondidos atrás de um sorriso falso.
- A decisão é sua! Você diz sim, eu fico, você diz não, eu vou. - Ele se ajoelhou e pegou minha mão- Aceita ser só minha? Aceita namorar comigo?
Fiquei em completo silêncio. Só eu e meus amigos sabíamos o que eu estava passando, e o que eu estava sentindo só deus sabe. Meu olhar perdido se voltou para uma árvore. Atrás dela mais precisamente. Stephen me observava, sem notar que estava sendo visto.
- Aceito! - Eu gritei.
Stephen fez uma cara estranha e saiu a correr. Quem sabe me deixasse em paz. Mas ao aceitar aquele namoro, eu estava automaticamente autenticando a decisão que havia tomado bem antes de esse desastre acontecer.
(...)
A noite caiu severa. A culpa me pesava violentamente, eu estava me sentindo um lixo. Necessitava dele como um desidratado precisa de água.
Quando cheguei até a Piazza ele estava lá. Sentado com um papel, uma caneta e um violão em mãos. Tocava aquela melodia, e parecia colocar algumas palavras.
- Boa noite minha dama. - Ele disse sem nem olhar para ver se realmente eu estava me aproximando.
- Você tem olhos ao lado da cabeça?
- Não, é você que não é discreta. - Ele riu.
- Ah ok, boa noite. - Disse me sentando ao lado dele - Compondo músicas?
- Colocando a letra naquela melodia vazia. Ou melhor, tentando.
- Qual o nome?
- When you look me in the eyes. Quer ouvir um pedaço? Só consegui o refrão. - Riu.
- Sim!
When you look me in the eyes, and tell me that you love me... Everything's all right, when you're right here by my side. When you look me in the eyes, I catch a glimpse of heaven. I find my paradise, when you look me in the eyes.
A voz dele era maravilhosa. E sem comentários sobre a música, era incrivelmente bonita, mas realmente não parecia o garoto que eu conhecia. Ele passava uma emoção que normalmente ele não costumava passar, talvez possuísse problemas de expressão.
- É...Linda. Incrível.
- Hum, que bom que você gostou. É sua mesmo.
- Minha?
- É, eu estou fazendo ela pra você.
Problemas de expressão? Opção descartada.
- Para mim?
- É. Quer que eu repita que é sua mais quantas vezes?
- Não... Não precisa. Não sei o que dizer... Acho que obrigada. - Sorri.
- Só obrigada?
Ele fez uma carinha pidona e me beijou. Preciso descrever o que eu senti? Não, estou certa de que isso já está mais que óbvio.
- Sabe... - Eu disse - Nunca ninguém fez uma música para mim...
- Pelo que você saiba não.
- Pois é.
- Hum, então sou o pioneiro. - Ele riu.
- É... E acho que se mais alguém tivesse feito, se o mundo inteiro tivesse feito, eu só continuaria achando a sua linda.
- Porque você diz isso?
- Qual a graça eu veria na de outras pessoas, se eu nem mais me importo de vê-las?
- É mesmo! Acho que temos mais um ponto em comum.
Beijou-me docemente. Me levantei e voltei para casa, não sei porque, estava me sentindo cansada.

CAPÍTULO 35



Acordei levemente, embalada por um cheiro bom e um vento no rosto. Senti algo se mexer a meu lado.
- AAAAAH! - Gritei alto e longamente.
- Mas que? Eu me arrumei poxa! - Tommaso gritou.
- Como você entrou aqui? - Gritei.
- Com a chave extra!
Fiz outro asterisco mental de lembrar de trocar a chave extra de lugar.
- Você quase me matou. - Disse sentando-me na cama.
- Ok, desculpe. Já volto.
Sumiu. Me arrumei na cama enquanto olhava o nada. Um minuto depois, Tommaso entrava pela porta do meu quarto com uma bandeja com algo que se parecia meu café da manhã.
- Seu café da manhã! - Ele disse sorridente.
Pois é, acertei. Capuccino extra chocolate, torradas com manteiga muito bem feitas e para final, uma maçã tão vermelha que parecia aqueles carros americanos. Comi e me fartei. Estava delicioso, era incrível, ele era realmente ótimo na cozinha.
- Muito obrigada Tommy, este café da manhã estava incrível!
- Vá se acostumando! - Ele riu.
Ah, é, agora eu tinha um namorado.
(...)
Tommaso foi embora ao meio dia. Mas antes fez questão de me preparar um almoço digno de restaurantes caros. Ele seria um ótimo chef, com certeza.
Meus pensamentos estavam a mil. Cair na realidade /Tommaso me fez lembrar da minha decisão. Talvez devesse repensar ela, talvez não. Primeiro, porque se conseguisse um trabalho, meu dia ia ter de acabar cedo. Segundo, que se eu quisesse ajuda de Tommaso, precisaria me envolver com a causa de corpo e alma.
(...)
Cheguei correndo até a praça. Precisava, necessitava falar com meus amigos sobre o ocorrido. Mas antes, troquei a chave extra de lugar.
- Oi gente. - Disse me aproximando.
- Oi ! - disse sorrindo.
- A gente, uma coisa, caso alguém queira entrar na minha casa, a chave extra está em baixo da madeira solta da minha janela.
- Porque você trocou? - Viola pareceu confusa.
- Porque o Tommaso invadiu minha casa pela manhã. Não quero inconvenientes de ser vista de micro camisola, atirada na cama.
- Hum, eu sim. Vou invadir a sua casa em breve. - riu.
- Tarado. Ok, você pode.
- Já que você diz... - Ele gargalhou.
Ficamos conversando enquanto meu tempo passava cada vez mais rápido. Enfim, alguns momentos de diversão no meio daquilo tudo.
(...)
A noite estava clara. Clara e sorridente. Uma lua esplendorosa brilhava no céu, quase arredondada. Uma noite linda, devo convir. A minha mente estava confusa demais para pensar em algo que não as próximas noites, quantas mais minha decisão atrasasse. Eu era fraca, fraca para decidir sozinha. Fraca para abrir mão de meu coração, sacrificando um por outros.
Cheguei até a Piazza e estava vazia. Apoiei-me na grade e fiquei olhando o nada, literalmente. Vi o reflexo dele na água, e estava se aproximando.
- Bon soir. - Eu disse.
- Hey garota, como você sabia que eu estava aqui?
Apontei para o reflexo na água e ele riu.
- Ah é, o nosso grande espelho. - Ele parou a meu lado - Ficamos bonitos nele, não acha? - Ele fazia poses estranhas.
- Hum, você é bonito. Mas no espelho até ficava com você. - Ri.
- Idem. - Ele riu - Mas você até que dá pro gasto.
Ele tacou a mão na minha bunda. Foi um momento digamos que bem... Estranho.
- Outch! O que foi isso?!
- Você quer que eu desenhe ou faça de novo?
- Não precisa nenhum dos dois, foi apenas uma expressão.
- Ah sim, mas eu posso fazer de novo? - Ele fez uma cara fofa.
- Não! - Eu gritei e ri.
Maldita a hora que eu fui gritar. Ouvi passos que corriam e senti meu corpo gelar e meu coração disparar. Segurei a mão dele por impulso e ele me abraçou, um abraço de proteção. Assoviou e Hades apareceu. Montamos nele e saímos quase voando pela saída extra da Piazza, o lado estreito do última casa. Hades empinou-se e relinchou alto em frente a figura de Stephen. Ok, confesso, ele não era feio, e seu corpo era perfeitamente esculpido sobre um pano de fundo moreno bronzeado. Mas ainda assim, era de meter medo em qualquer um. Corremos e corremos com Stephen atrás de nós, voando sob seus pés como uma águia. Podia ser bem agradável estar segurada à cintura dele enquanto ele respirava ofegantemente - o que confesso, fazia minha mente libertar seu lado pervertido - mas não era nada agradável estar sendo perseguida por um maníaco lendário.
A minha adrenalina rolava solta nessas perseguições. Era como algo de filme, surrealmente atrativo. Como se cada episódio delas me fizesse mais forte, me desse o algo mais que todos procuram, embora minha vida já corresse grande risco.
Já não conseguíamos mais despistar Stephen. Paramos, descemos do cavalo enquanto Stephen estava fora de vista. Ele assoviou e Hades saiu voando.
- O som da corrida de Hades vai despistar Stephen. - Ele disse.
- E o que fazemos? Não faço idéia de onde estou.
- Mas eu sim. - Ele olhou para o lado - Não funcionou. Corre.
Ele me pegou pela mão e corremos sem fazer barulho antes que Stephen nos localizasse.
- Onde vamos? - Falei trôpega.
- Até a fonte.
Em um empurrão, Ele me atirou em baixo da cascata de água que corria como cachoeira. Paramos atrás da água que caía, muito movimentada para permitir visão. Onde estávamos, a água nos ia até a cintura, e uma lâmina aquosa me perturbava as costas. Ele tapou a minha boca vendo que eu estava prestes a gritar pelo choque térmico, e me segurou com a outra mão pela cintura.
- Shh, vai ficar tudo bem, estou te aquecendo. - Ele sussurrou.
Passou-se em torno de um minuto, e só ouvíamos passos. Um grito de raiva tomou nossos ouvidos, e Stephen havia saído correndo. Esperamos mais dois minutos, e eu já estava começando a esfriar. Ele espiou e saiu na frente, sinalizando para eu esperar. Voltou e depois saímos juntos do meio da água.
Seu cabelo pingava. Sacudiu a cabeça, molhando todo o chão que se estendia a nossa frente. Estava frio e ele me aquecia. Fomos até a Piazza nos gabando de nossa fuga, e por lá ficamos rindo e nos “aquecendo”. Logo depois, o dia ameaçou amanhecer, e eu parti.

CAPÍTULO 36



- Bom Viola, chamei você aqui pois preciso de ajuda e só vocês dois podem me auxiliar.
- Mas o que houve? - Viola perguntou.
- Bom, você sabe do meu problema trágico.
Viola assentiu.
- Então, você sugeriu que Tommaso poderia me ajudar.
- Sim, ele pode. - Ela disse.
- Pois então. Hoje pela manhã conversei com ele, e ele já tratou de me arrumar um emprego. Mas ele ainda não sabe do meu problema e nem vai saber.
- Onde você vai trabalhar? - Viola estava curiosa.
- Com Stefano, na delegacia. - Pisquei para Viola.
- Hum... Boa sorte. - Ela riu.
- Mas esse não é o xis da questão. Eu vou ter de acordar cedo e vou precisar de toda atenção do Tommaso, pois preciso dos contatos dele.
- Tenho um palpite de que você esteja pensando em...
- Exato.
- Pela primeira vez, concordo em todos os pontos com você.
(...)
Conversei com Viola por um bom tempo. Pude averiguar melhor a situação, e decidir de vez o que ia fazer, embora eu ainda estivesse insegura demais. Fui até a minha estante e peguei Venecia. Abri em uma página aleatória e desci o olhar direto para o rodapé da página amarelada.
“Quem decide pode errar, quem não decide já errou.
(Autor desconhecido)”
Conclui após ler, que esse livro estava falando comigo. Ok, talvez isso seja exagero, mas de qualquer forma, isso só me fez pensar mais e mais, mais e mais, ao ponto de achar que minha cabeça ia sinceramente, explodir.
Me joguei na cama e fechei os olhos. Sem a realidade à minha volta eu conseguia pensar mais claramente. Ao fechar os olhos tudo escureceu, e o melhor que eu tinha a fazer era deixar pensamentos sem seqüenciais e aleatórios tomarem conta da minha mente.
Tudo escureceu no que eu fechei os olhos. Imagens sem nexo começaram a tomar conta de minha mente. Um rato, uma cadeira, uma bola, escuridão, uma lua, e mais escuridão.
Ele estava andando em minha direção sorrindo. Um sorriso lindo, branco, esplendoroso. Eu via a cena em 3ª pessoa, podia me ver sorrindo em direção a ele. - Pequena, tenho de te dizer que devo te deixar antes que aconteça o pior e...
A cena mudou. Eu estava em minha cama que não era a minha cama, mas eu sabia que era minha. Estava chorando sem parar, e a sensação que eu sentia era bem mais intensa do que a de uma tristeza comum, era uma dor que parecia que eu sabia que nunca ia acabar. Os meus lençóis eram de seda verde e estavam manchados de sangue. Foi quando eu olhei para o lado e vi um cadáver. Mas não era um cadáver comum, era Dele. Estava esticado na cama, com as mãos a meu lado, frias como gelo. E no centro de seu peito, uma cavidade ensangüentada parecia secar.
Quando me dei por conta a cena era outra. Estávamos na Piazza. Ele passou os braços em volta de mim, abraçando-me. Mas a perspectiva da cena mudou em segundos, quando já via com meus olhos. Apenas vi de seu peito o sangue escorrer, e ele cair com uma faca cravada em suas costas, atravessando seu corpo. Quando ele caiu, uma silhueta se formou. E ali estava Stephen, me olhando, logo após saiu correndo.
Acordei em um salto. Estava desesperada e meus olhos estavam cheios de lágrimas. Eu estava ofegante, e agradeci mais de mil vezes por ter sido apenas um sonho. Estiquei-me e sentei na janela.
É, a decisão agora era irrevogável. Além dos motivos que eu já mantinha, existia o pior, e se eu quisesse evitá-lo, teria de sacrificar meu coração.
(...)
Cheguei na Piazza e ele estava observando o chão, absorto em pensamentos. Ao me ver chegar, levantou o rosto e sorriu sinceramente. Foi de cortar o coração. Ou seja, mais uma noite de covardia. Saí correndo e abracei-o. Talvez não houvessem mais oportunidades após aquela noite.
Me segurou forte, pois meus joelhos fraquejaram antes de eu me soltar nos braços dele sem mais delongas.
- Me diga, sinceramente. Você me ama? - Perguntei.
- Sim, eu te amo.
- Por favor - Eu implorei - Promete que vai me amar além de tudo, e de qualquer bobagem que eu fizer?
- Prometo.
- Me perdoará caso eu fizer algo muito feio?
- Perdoarei, com certeza. Eu sempre vou te amar além do que você fizer e não importa o quanto você me machuque, meu amor nunca vai ir embora.
- Promete?
- Sim! Não tenha dúvidas quanto a isso.
- Promete que quando eu precisar, mesmo que algo entre nós esteja errado, você vai estar aqui sempre para me ajudar?
- Prometo.
- Promete que mesmo que eu seja uma idiota você vai me abraçar depois de tudo?
- Você não é uma idiota. - Ele riu - Mas vá que resolva ser, eu prometo.
- Promete que você vai cumprir todas as promessas?
- Sim. Mas porque todas essas perguntas?
- Em breve você irá entender. - Suspirei - Agora por favor, não fale nada e só fique comigo.
- O que você quiser.
Nos sentamos e ele me abraçou, e ficamos assim em silêncio. Sua respiração era compassada e me deixava muito feliz. Procurei esquecer de tudo, futuro, passado, e passei a só sentir o presente.
Era só tocá-lo e tudo tomava outras dimensões. Para fazer tudo certo, eu teria de ser a pessoa mais forte do mundo todo, mas já estava decidido e eu não ia voltar atrás - pois o que eu menos queria, era arriscar a vida dele e prejudicar a minha família.
Seus lábios estavam em meu pescoço, e sua respiração me eriçava o cabelo na nuca. Me despertava desejos que eu jamais havia possuído, eram desejos muito fortes e amplos. Cortei rapidamente minha linha de pensamentos que estava tomando um rumo muito... Quente.
Toquei meus lábios aos dele sem me mover, mas rapidamente ele passou a me beijar profundamente, praticamente me engolindo. E ok, eu estava gostando. Logo estávamos um em cima do outro no chão, nos beijando violentamente sem nem importar com o que estava acontecendo nem o que ia acontecer. Tudo ok até eu perceber que o céu estava sem lua.
- O... Céu está sem... Lua. - Disse ofegante.
- Oh céus! Venha! - Ele me levantou em um pulo e corremos até montar em Hades. Saímos cavalgando em toda a velocidade que podíamos, passando pelos lugares em um piscar de olhos. Enquanto cavalgávamos, ríamos e falávamos bobagens e conversávamos sobre nada. Era disso que eu gostava, podia só estar com ele, mas junto dele as coisas se resolviam mais facilmente. Mas infelizmente não ia mais ser assim.
Descemos do cavalo e nos abraçamos, em meio a Piazza San Marco.
- Tenho de ir. - Eu disse respirando fundo.
- Tudo bem. - Ele sorriu.
Pulei em cima dele e abracei-o com toda a vontade que eu tinha, segurei seu rosto e o beijei. Abracei-o de novo, tentando manter meus olhos secos.
- Adeus. - Eu disse.
- Você vai embora? - Ele perguntou assustado.
- Digamos que sim.
Sai correndo, não ia agüentar mais.

CAPÍTULO 37



A noite caiu limpa. O meu dia havia sido sacrificante, mais que torturante. Eu tentei dormir o máximo possível, para que voasse e minha mente não mudasse de idéia. A decisão já estava tomada e era o que eu devia fazer. Se Ele realmente me amasse, um dia iria entender que eu tive meus motivos. Mas me parecia tão injusto abrir mão do que eu mais amo para salva-lo, salvar minha família... Mas seria egoísmo se eu não o fizesse.
Estava caminhando o mais lento que podia, tentando atrasar o que eu ia fazer o máximo possível.
Mas eu sabia que teria que fazer isso e que ele não compreenderia... Tão difícil me ver sem ele. Eu senti um pedaço do meu coração se partir, mas quando você está em uma encruzilhada, existe uma escolha que você deverá fazer. Eu acho que será preciso machucar, eu acho que eu tenho que chorar e abrir mão de coisas que amei pra chegar ao outro lado. Eu acho que isso irá me derrubar como uma queda quando você tenta voar. É triste, mas às vezes seguir em frente com o resto da sua vida começa com um adeus.
O meu coração já estava doendo demais. A minha vontade era de chegar lá e sorrir, abraçando-o e beijando-o sem parar. Mas eu não ia dar para trás, pois as decisões são coisas fundamentais, e as mudanças e sacrifícios vem com elas. Olhei para cima e a lua me olhava, piedosa. Era pequena e fina, mas era linda. Depois daquela noite, minhas luas nunca mais seriam tão bonitas.
Entrei na Piazza e ele estava lá, sorrindo ao me ver. Pensei em dar volta como um cão com medo, com o rabo entre as patas, mas empinei a cabeça e fui em direção a ele.
- Boa noite senhorita.
Ele abriu os braços e fez menção de colocá-los em minha volta, mas me esquivei, com dor mas consegui.
Apoiei-me séria na grade, olhando a água, enquanto ele me olhava um pouco surpreso. Tentou me tocar e me esquivei novamente.
- Você está bem? - Ele perguntou preocupado.
- Melhor impossível. - Falei séria.
Tentou tocar em meu cabelo, e joguei sua mão em direção a seu corpo. Assustado, recuou.
- O... O que houve? - Ele perguntou assustado.
- Vou direto ao assunto. Não agüento mais, sabe o que é não agüentar mais fingir?!
- Do que você está falando?
- De você.
Ele engoliu a seco, pude ouvir o som do ar descendo em sua garganta.
- Eu não suporto mais você garoto. Você e esses seus papinhos românticos e cheios de coisa. Sabe, enjoei. Todo esse tempo eu só estive aqui porque precisava de diversão, e agora, não preciso mais, simples! - Sorri vitoriosa.
- O que você está falando? - Ele estava em choque.
- Que eu não quero você.
- E... Eu achei que você me amava.
- Sou uma ótima atriz não acha? - Ri sarcasticamente - Você é um iludido garoto, acha que sabe tudo e não sabe de nada.
- Porque você está falando tudo isso? - Ele gritou.
- Porque eu não agüento mais você!
- Eu não estou entendendo, mas porque? - Ele gritou.
- EU NÃO TE AMO! - Gritei, um som agudo que ecoou por todas as ruas.
Aquilo pareceu ter sido um choque nele. Seu corpo se direcionou para trás, como se minhas palavras tivessem batido em seu corpo como um carro em alta velocidade.
- Você não me ama? - Ele disse em um fio de voz frustrado.
- Não! Está difícil de entender? Você não significa nada para mim, entendeu? Nada. Um zero a esquerda, um ninguém.
- Eu nunca signifiquei nada? - Ele me olhava com olhos de cortar qualquer coração.
- Não.
- Mas e tudo que nós passamos... Você está brincando né? Agora você sorri e vem correndo e me abraça dizendo que era brincadeira, por favor me diz que é isso.
- Eu tenho cara de quem está brincando por acaso? - Esbravejei.
- N...Não. - Ele gaguejou.
- Entenda garoto, você não foi nada além de um passatempo. Você é um covarde, tem medo de mostrar a cara, o que eu ia querer com um covarde, um garotinho que brinca de esconde-esconde?
Eu estava caindo aos pedaços. Doía muito fazer aquilo.
- Olha aqui, acho que quem é covarde aqui não sou eu! Olha o que você está fazendo comigo! - Ele gritou - Está me quebrando em mil pedaços e ainda tem coragem de sorrir. Você está acabando comigo, isso te deixa feliz?! Pois é então queridinha, conseguiu, se o que você queria era me destruir!
Ele gritava com a voz falha e aguda. Senti meu mundo desmoronar quando vi seus olhos avermelhando. Respirei fundo e continuei.
Tão fácil perder-se por dentro, um problema que no momento parece ser tão grande... É como um rio que é muito largo, e engole você inteiro. Enquanto você está pensando sobre o que você não pôde mudar e se preocupando com todas as coisas erradas, tempo está passando, indo rapidamente. Melhor fazer valer a pena, por que você não pode voltar.
- É isso me deixa feliz sim! - Eu gritei autoritariamente - O que eu quero mesmo é me livrar de você! É um estorvo na minha vida, um incômodo!
- Fingida, mentirosa! - Ele gritou - Porque está fazendo isso? Porque meu deus! Porque disse que me amava, por que me pediu para prometer aquele monte de baboseiras ontem?
- Jamais me chame de mentirosa! - Dei um tapa no rosto dele - Eu nunca disse que te amava! Desculpe se você se iludiu achando isso!
Ele tocou seu rosto com a mão, me olhando frustrado. Seus olhos estavam vermelhos e ele parecia segurar choro com muita dificuldade. Tive de manter minha pose séria, mesmo que o que eu quisesse era abraçá-lo e dizer que era tudo mentira. Pois sim, eu o amava mais que tudo.
- Nunca, nunca mesmo esperei isso de você. - Disse ele se recompondo - Eu achei que você fosse diferente, fosse única. Eu achei que pudesse passar o resto da minha vida com você. Mas você é igual a todas as outras, se não pior. Você me dá nojo, nojo!
Não consegui prender minhas lágrimas, meus olhos se inundaram mas eu continuei com minha pose de parede.
- Ah que bonita, agora vai chorar. - Ele riu sarcasticamente - Pois se era o que você queria, conseguiu! Acabou de destruir meu coração, o pouco que ainda restava dele. Acabou com a minha vida garota, acabou. Eu sempre te amei desde que eu te vi pela primeira vez, tão rápido que chegava a ser assustador. E eu prometi e vou cumprir. Eu te amo e sempre vou te amar, mas nunca, entendeu, nunca mais olhe nos meus olhos, nem toque em mim. Esqueça que eu existi, que eu também vou esquecer que você existiu um dia. Para mim, você morreu aqui. Morreu.
- Ótimo! Pior você que nunca existiu. - Falei séria.
O mundo a minha volta caiu como em um baque quando uma lágrima escorreu por seu rosto de feições perfeitas. Atrás dela, vieram outras, que não paravam. Foi aí que eu percebi que havia ido longe demais, e era tarde demais para pedir desculpas.
- Faça o que quiser com isso.
Ele jogou uma caixinha de veludo vermelha no chão, que se abriu, deixando cair um anel dourado com uma espécie de brilhante em forma de rosa. Me deu as costas e foi embora.
- Me... Me desculpe. Eu te amo. - Falei em uma voz quase inaudível e deixei minha culpa ser lavada por lágrimas.
Boa noite meu anjo, é hora de fechar seus olhos, e guardar estas perguntas para outro dia. Eu acho que eu sei o que você quer me perguntar... Eu acho que você sabe o que eu tento dizer. Eu prometi que eu nunca quis deixar você... Então você deve sempre saber, onde quer que você possa ir, não importa onde seja, eu nunca estarei tão longe.

CAPÍTULO 38



Eu estava na cama, o fim de noite havia sido cruel. Eu apenas não conseguia parar de chorar um sequer segundo. Peguei a caixinha que estava no criado mudo e a abri. Puxei o anel do suporte. Era dourado, todo desenhado, e em cima dele, esculpido em algo muito brilhante, uma pequena rosa, intacta mesmo com a queda. E dentro do anel, gravado dizia : “Que la nit es nostra”. Coloquei o anel no dedo imaginando o que ele iria dizer quando me entregasse, imaginando quais eram seus planos para nossa noite. E agora, estava tudo perdido. E mais uma vez, não segurei minhas lágrimas, adormecendo novamente abraçada em meu porta retrato com a nossa foto.
(...)
Quando acordei já era noite. Me levantei com os olhos inchados e ainda chorava. Quando dormi, meus sonhos haviam sido os piores, ou seja, lembranças de nós dois juntos. Estava sendo cruel tudo aquilo, e a culpa era toda minha. Eu me odiava. O que eu tinha feito havia sido muito errado, um equívoco total, e ainda dava tempo de voltar atrás. Pelo menos eu achava isso. Saí de casa um caco, com a mesma roupa da outra noite, com o rosto inchado e uma cara de poucos amigos. Corri com a pouca energia que eu tinha por Veneza. O centro estava vazio, deserto como eu podia imaginar. Nem Stephen estava lá para fazer o favor de me matar.
Cheguei na Piazza quase sem forças, esperando vê-lo lá, me esperando, pronto para me perdoar e para ouvir meus motivos. Para me abraçar, me beijar e me fazer dormir bem.
Mas ele não estava.
Caminhei até a beira da Piazza, onde em cima da grade estava uma rosa vermelha. Peguei-a em minha mão sem dó algum, sentindo os espinhos ferirem minha pele, fazendo-a sangrar, e deixando cair uma gota de sangue sobre o papel branco que caiu meus pés.
“ Em memória”. Era o que dizia, e que me fez morrer por dentro. Meus joelhos afrouxaram e eu caí no chão, sentindo uma dor fraca nas pernas. Naquele momento eu havia me dado conta de que eu havia perdido meu grande amor, quem sabe até para sempre.
Não contive minhas lágrimas, não era possível.
- Desculpe! - Gritei com toda a voz que tinha, ouvindo-a ecoar por todos os cantos - Eu te amo! - Gritei mais alto ainda desesperadamente. Esperava que ele pudesse me ouvir.
Chorei desesperadamente por um bom tempo, e me tornei invisível depois de alguns momentos.
(...)
Meu corpo doía enquanto eu recuperava os movimentos. Uma mão estava em minha nuca, e uma voz doce me chamava, pedia para que eu acordasse, praticamente implorava. Abri os olhos vendo uma imagem borrada. Usava um casaco preto de corte reto, uma camisa branca e um tênis que não pude identificar. Uma roupa que eu conhecia muito bem.
- Eu sabia! Eu sabia que você ia voltar! - Gritei trôpega, chorando novamente sem parar.
Abracei-o em um impulso apertando seu cabelo entre minhas mãos que ardiam quando percebi que havia adormecido esmagando a rosa em minhas mãos, me cortando com os espinhos - Me desculpe, por favor, eu te amo - Falava entre soluços - Eu tive meus motivos, por favor, entenda, eu te amo muito para querer te machucar, eu menti, eu menti - Disse pegando ar - Me perdoa, por favor...
Foi aí que percebi, o perfume não era o mesmo. O cheiro, o toque, eram diferentes. Tudo começou a ficar escuro e girar. Foi aí que eu literalmente desabei.
(...)
Abri os olhos ouvindo cochichos que pareciam preocupados. Tudo estava turvo e eu estava deitada em algo macio e o azul. Foi aqui que as imagens começaram a se organizar e eu percebi que estava na casa da família Jonas, a família de . Eu estava com uma compressa fria na testa e Denise me olhava preocupada. Junto com ela, um homem e .
- , o que houve? - Perguntei com um fio de voz, sem entender nada.
- ... Como você se sente?- Ele perguntou.
- Fraca. - Falei sentindo as lágrimas tentarem voltar.
- Por favor, não chore. - Ele pediu.
- Há quanto tempo você não come querida? - Denise perguntou.
- Acho que dois dias... - Estava muito exausta para fazer as contas.
- Oh meu deus... - Denise disse preocupada.
- O que houve ? Me diz...
Foi nesse momento que eu baixei o rosto e vi a roupa de . Exatamente igual a Dele na primeira vez que o vi. Se é que não era a mesma.
Ou seja, Ele não havia ido me ver. Quem havia ido era , e eu havia implorado desculpas para ele.
Me recuperei lentamente, e fui comer uma sopa e tomar um suco, tudo muito saudável e com tudo que eu precisava. A família deles havia me tratado super bem, e estavam preocupados comigo, visto que em Veneza eu era sozinha. Ah se eu não tivesse amigos... Eu estava acabada, literalmente.
Um tempo passou-se quando eu já me sentia bem e estava a sós com .
- Me diga pequena, o que houve?
- Ah , me desculpe por te agarrar... É que eu te confundi... Mas é mesmo! De onde você tirou essa roupa?
- De algum dos armários... Por quê?
- Eu já conheço essa roupa... Não sei...
- Ah, tanto faz, você já deve ter me visto com essa roupa algum dia. - Ele riu - Mas porque estava chorando?
- Ah , é uma história tão longa...
- Conte.
- Ainda não... Não estou pronta.
- Ok, tudo bem! - Ele sorriu - Agora vem, vamos ver um filme.

CAPÍTULO 39



- Hey Viola. - Eu disse desanimada.
- Entre logo , voe aqui para dentro.
Entrei, pois a chuva estava forte. Pelo menos eu havia conseguido parar de chorar desde o dia anterior.
- O que houve meu amor? Fez o que tinha que fazer?- Perguntou.
Levantei a mão e mostrei a ela o anel.
- Você casou? - Ela gritou assustada.
- Não! - Ri - Bom, eu fiz o que pretendia fazer... E foi muito pior do que eu imaginei. No fim, ele me mandou fazer o que quiser com uma caixa. E dentro dela tinha esse anel...
- Oh deus...
- Aí eu voltei para casa, dormi o dia inteiro, a única maneira de eu não chorar mais. Pensei em voltar atrás, fui até a Piazza e encontrei só uma rosa vermelha. E ao lado dela dizia “em memória”, pois ele repetiu, deixou bem claro que para ele eu havia morrido ali.
- Mas , o que você falou?
- O que eu tive que falar. Mas no fim percebi que peguei um pouco pesado... Mas foi necessário...
Meus olhos começaram a se inundar. Respirei fundo e limpei-os.
- Sabe Viola, eu acho que não deve ser tão difícil assim seguir em frente. A vida se ajeita e as feridas se fecham... Não posso me esquecer de amaldiçoar a pessoa que roubou o dinheiro dos meus pais, ela estragou minha vida... - Ri fracamente.
- É mesmo... Mas agora você se concentra no Tommaso e aproveita os contatos dele para seus fins pessoais...
- E salvo a vida Dele. Me afastando Dele, afasto Stephen... Tive um daqueles pesadelos estranhos, e nele Ele era morto por Stephen...
- Nunca tinha visto por esse lado.
- Mas se Ele me ama deve estar sofrendo... É tudo culpa minha.
- Não se culpe... A parte mais bonita do amor é o sacrifício. Mas me diga, o me falou que te encontrou desmaiada.
- Sim, passei dois dias sem comer... E na saudade fui na Piazza no dia da rosa, e acabei desidratando e adormecendo... Acordei com alguém... Pude jurar que era Ele mas era ... Foi aí que eu suponho que tenha desmaiado.
- Você é louca garota! Você sempre comeu um tanto quanto a mais que nós, seu corpo acostumado a se manter bem cheio e você o esvazia... Ele sente o impacto e reage!
- Ah eu sei Viola... Me sinto uma insana em todos os sentidos... Estou um caco, destruída, cansada, triste...
- Vamos nos entupir de sorvete. Que tal?
- Aceito.
(...)
Já eram 16h quando senti falta do ar feliz que minha casa me trazia. Um ar doce de lar, cheio de lembranças e sonhos dançantes. Agora estava pesado, com cheiro de saudade e arrependimento. O que eu mais tinha vontade, era de sair correndo embora, com malas cheias, sendo recebida por todos os meus amigos, minha casa e minha família. Mas não ia conseguir deixar Veneza assim no mais. Aquele lugar já possuía um quê de casa, um ar familiar, aconchegante.
Olhei para cima da mesa e lá estava a rosa. Nem tudo é paraíso, nem tudo é sempre noite, nem sempre rosas são negras e a cor vermelha não vem só do amor. Olhei para minhas mãos machucadas, que quase não doíam perto do que eu sentia por dentro, mas elas ardiam, como se os espinhos possuíssem veneno.
Cheguei perto da estante e tirei Venecia de lá. Aquele livro era como um diário que eu nem precisava escrever. Coloquei a rosa ali dentro em alguma outra página aleatória. Era um livro realmente enorme, caberia toda minha vida ali. Mas antes de fechar, olhei a frase no rodapé.
“As flores chegam até a perfumar a mão que as esmaga.
(V. Ghilka)”
Peguei a flor e apertei uma de suas pétalas em minha mão. Cheirei minha palma e lá estava, um perfume adocicadamente ácido. Sorri. O que aconteceu não tinha volta, mas eu guardava ótimas lembranças, que regariam meu amor todo o dia. Eu mesma impediria que ele acabasse. Era um equívoco enorme deixar um sentimento tão bonito ir embora, era como deixar que te levassem o corpo que te sustenta. Estava certa de que jamais sentiria isso tudo novamente. Era algo que eu nunca esperei sentir, chegou de surpresa e espero que nunca saia.
A noite caiu com a elegância de um temporal. Raios cortavam o céu violentamente, e a chuva era torrencialmente barulhenta. Coloquei uma camiseta, uma calça e nada nos pés e saí. A chuva purificava até a alma mais poluída. Era como se a culpa que eu sentia estivesse indo por água a baixo. Meus pés tocavam o chão áspero e molhado, me dando arrepios e uma sensação de liberdade. Pouco a pouco, meu corpo se acostumou com a chuva gelada, e eu já estava encharcada. Desde que eu cheguei em Veneza, não havia chovido tão forte nenhuma vez. Parecia que o céu estava compartilhando de minhas lágrimas, e quem sabe até das Dele. Eu o havia ferido, e estava pagando.
E mais uma vez eu me questionava e concluía que eu fiz o certo. Ele podia morrer por mim, eu estaria arriscando a vida Dele, sabendo que ele enfrentaria o Stephen caso ele ameaçasse e não me deixaria ajudar, alegando me proteger. E eu estava certa de que Stephen matava ele com um soco. Essa possibilidade só era falas se Ele tivesse algum super poder ou fosse um vampiro como naquele livro, Crepúsculo. Mas ele me parecia humano até demais.
Senti meu corpo afrouxar mas me mantive de pé. Minhas lágrimas escapulidas se confundiam com a água, mas era possível notar que eu estava chorando. Passei por algumas casas, e ouvi um som de passos por perto de mim. Fiquei aflita e comecei a correr. Pensei ser Stephen, mas cada vez que eu parava, os passos paravam também e uma sombra se escondia em qualquer fresta possível. Eu estava certa que não era Il Cattivo, e sim, Ele. Mais ninguém saía. Mas eu não podia voltar atrás, mesmo que ele estivesse me tentando mais do que imaginava.
- Você não entende! - Eu gritei - Nunca vai entender! Eu imploro, por favor não me siga! Finja que eu nunca existi, faça o quiser, mas não me siga!
Os passos pararam.
- Só nunca esqueça de me amar como eu te amo. - Eu falei em voz normal e voltei para casa. Estava ficando cada vez mais frio.

CAPÍTULO 40



Um bom tempo havia se passado desde aquela noite. Na realidade eu não sei quanto tempo se passou, não olho mais o calendário e nem me importo em olhar. O que eu quero? Contar os dias e viver me lamentando como um preso que risca os dias na parede? Era difícil para mim aceitar tudo que Ela me disse assim sem mais. Muito difícil. Os dias passavam voando desde a última vez que A vi. Era uma noite bem chuvosa, e eu estava vagando por aí na esperança de pelo menos ver Ela. E vi, e sinceramente ela não parecia bem. Até que ela percebeu que havia alguém lá e reclamou ao mundo ao ver que era eu. É, foi aí que eu percebi que me censurar por Ela era errado. Eu devia seguir minha vida de cabeça erguida sem mais delongas. Devia fazer um mês, dois, meio, nem sei, mas fazia um bom tempo já. Parei de sair pela noite, quando saía era só para caminhar pelas redondezas. Se contasse os dias, seria inevitável perceber a falta que Ela me fazia.
Desci as escadas, estava sozinho. Meus irmãos e o resto haviam saído. Eu praticamente nem saía. E eu podia jurar sentir Seu perfume dentro de minha casa com freqüência. Até nas roupas do eu sentia o cheiro Dela. Foi aí que eu conclui que estava ficando paranóico e voltei com minha ex namorada, que eu havia terminado quando A conheci. E naquele momento ela havia acabado de chegar. Mas eu ainda A amava, e isso eu não ia tentar colocar para fora, evitar ou esconder.
(...)
Alessia era o tipo de garota loira bronzeada que anda se rebolando por aí. Rica de boa família e um ótimo emprego, com talento. Mas esnobe, convencida e extremamente cheia de si, mesmo caindo a meus pés sempre que eu a chamava quando estava sozinho e havia dispensado-a pela 35ª vez. Como se fosse uma quebra galho, uma segunda opção. E ela não se importava de ser assim, acho que até gostava, andava me exibindo por aí como um troféu. Mas eu temia seriamente o momento em que ela se cansasse e resolvesse usar de seu poder e revolta para me destruir. Acho que o brinquedinho no fim das contas era eu. Que ela usava e antes de botar no lixo ia arrancar pecinha por pecinha para ninguém mais reaproveitar, típico de crianças egoístas. Ela faz faculdade de moda, então acha que todos devem andar bem vestidos. Me recordo da última vez que nos vimos sem ser naquele dia, que ela elogiou sem parar as roupas da Dama Dourada, alegando serem muito bonitas. Até sugeriu que iria pesquisar para ver se descobria quem era a garota pois tinha um corpo bom e podia desfilar. Mas eis o problema: Nem eu sabia. E como eu ri na hora e ela não entendeu.
(...)
A minha família havia chego em casa com muito barulho. As vozes de meus pais se misturando com a de meus irmãos. Mas duas vozes se diferenciavam. Eram femininas, doces e jovens. E nenhuma delas era a Alessia. Gelei ao sentir ter ouvido a voz Dela. Não ia descer para ver. Desde uns bons 4 meses só saio de meu quarto para comer, prefiro estar em silêncio sempre, em paz. Tocando alguma música, compondo, vendo TV, dormindo... Fora que eu dormia o dia inteiro.
Segundos depois as vozes sumiram e eu me pendurei na janela vendo uma garota sair. Pude jurar que ao lado da porta estava Ela. Mas não tinha certeza, pois jamais havia visto seus cabelos e sua pele à luz do sol.
Desci as escadas quase voando, deixando a porta do quarto no meio do caminho. Na sala estava sentado junto de uma garota meio ruiva, de olhos verdes e uma cara... Bonitinha, que sorriu ao me ver descer as escadas correndo.
- , quem é essa garota? - Perguntei quase gritando.
- Vi...Viola. - Ele disse assustado - Ela é a Viola. - Ele apontou para o lado.
- Não ela! A outra!
- ... Por quê?
De que me adiantava, não sabia o nome Dela mesmo. Me contentei a olhar para os dois frustrado.
- Ah, valeu. - Disse desanimado.
- Por que cara, se interessou? - riu.
- Acho que eu conheço ela... - Falei.
- De onde? - A tal Viola parecia curiosa.
- Ah sabe... Da vida... Por aí...
- O que você esconde? - me perguntou.
- Eu? Nada oras. - Me justifiquei.
- Hum... Sei. - A garota se intrometeu - Mas porque nunca te vi aqui antes?
- Eu fico sempre no meu quarto.
- Ah, ok então. É cada um que me aparece... Podia sair conosco. - Sugeriu.
- Não, obrigada, estou bem em casa e com a minha namorada.
- Você tem namorada e estava olhando a ! Safado! - A garota me tirou para palhaço.
- E olha que isso é negócio recente! - Meu irmão ria contando a minha vida - Desde que levou um fora de uma garota misteriosa anda pelos cantos assim grosseiro... Aí voltou com a metidinha.
- Ela não é metidinha. - Defendi.
- Até você sabe que é cara.
E ele tinha razão, eu sabia muito bem.
- Ah cara! - Ele me chamou rindo - A é namorada do Tommaso, acho que você devia conhecê-la! - Ele riu mais ainda.
- Ah , cale a boca e faça o que você faz de melhor, ficar em silêncio. - Resmunguei.
- Seja lá quem você for garoto, mandou bem, te respeito. - A garota riu para mim e eu pisquei para ela e subi as escadas, voltando para o meu mundo para enfim terminar a minha música. Ou pelo menos uma parte dela.
Peguei o violão e me encostei na porta. Foi inevitável ouvir as conversas dos dois, então fiquei a prestar atenção.
- ... Você sabe como a está... Não sei se sua idéia de apresenta-la a seu irmão é boa. Estou quase certa de que ela vai rejeitá-lo como faz a todos.
- Eles são perfeitos um para o outro. Tem os gostos parecidos...
- Não sei... Desde que os pais dela perderam tudo e ela teve que abrir mão do que mais amava, ela anda parecendo um robô. Fica mimando o Tommaso e trabalhando sem parar. O Stefano está achando ela programada, como se tivesse em seus circuitos somente fazer o certo.
- Nossa... Nunca percebi isso... Quer dizer, mais ou menos. Mas ela faria muito bem a ele e vice-versa.
Apresentá-la a mim? Quem seria essa garota que me faria tão bem? Se não fosse Ela, ninguém mais faria. Resolvi parar de ouvir a conversa e tocar meu violão.

CAPÍTULO 41



Um mês. Fazia um pouco mais de um mês de tudo aquilo. Eu estava trabalhando na delegacia, ganhando um equivalente a 10.000 reais. E é claro, depositando tudo na conta de meus pais. Desde que comecei a trabalhar, já havia posto 20.000 na conta. Um bônus inicial e um mês de trabalho. Minha família estava se estabilizando após o choque. Havíamos reposto mais da metade do dinheiro.
Havia voltado da casa de há pouco tempo, nada de mais, pois havia pedido uma folga. Outro ponto que devo contar, é que não agüentava mais o Tommaso. A minha aliança prata pesava no dedo, visto que talvez colocasse a dourada, que não tinha lugar pois o anel Dele ocupava a vaga e ele definitivamente não iria sair dali. Tommaso é uma ótima pessoa, devo todo o sucesso na missão de recuperar dinheiro a ele e seus bons contatos que conseguiram dinheiro rapidamente para mim, embora ele não saiba que eu estive passando por problemas monetários. Se soubesse acho que dividia sua fortuna comigo ou me oferecia ela inteira de mãos abertas. Ele sempre foi muito querido e amável, mas estava perturbando minha vida. No momento que recebesse a notícia que o dinheiro havia sido recuperado, terminaria logo com ele, me prometi.
(...) O tempo passou lerdo enquanto eu comia marshmellows no palito de dente e derretia com o isqueiro sem parar sozinha e assistindo TV. O telefone tocou e me deu um susto, como sempre. Ele quase nunca tocava. Quando tocava ou era mais uma tragédia ou era o Tommaso, ou seja, tudo tragédia.
- Alô? - Atendi.
- Minha filha! - Minha mãe gritou.
- Sou eu mãe. - Me assustei.
- Que horas são... Er... 17h, perfeito.
- Por quê? - Estava confusa.
- Bom minha filha, tenho notícias! - Ela riu.
- O que? Ai deus.
- O dinheiro sabe... Foi recuperado! - Ela gritou.
Abri um sorriso quilométrico, que me trouxe uma felicidade incontavelmente grande. Quem sabe depois daquilo eu pudesse voltar a minha antiga vida, que não era tão antiga, mas parecia que eu vivia nela há séculos.
- Isso é ótimo! - Eu gritei.
- Agora vá na frente da sua casa, tem algo que você deve ver, me ligue depois.
Ela desligou o telefone na minha cara. Pensei no que ela pudesse estar planejando e abri a porta da frente. O grito foi inevitável. Saí pulando que nem uma louca, o que fez Viola sair assustada de casa e ficar pulando comigo.
- A sua scooter! - Ela gritou.
- Recuperaram o dinheiro Viola! Está tudo bem! - Saltitei.
- Que ótimo! - Ela gritou extremamente feliz.
- É! Já volto, vou ligar pra minha mãe e depois terminar com o Tommaso! Viva! - Gritei pulando e entrei em casa.
(...)
A campainha tocou. Tommaso havia chegado. Respirei fundo e abri a porta, dando passagem a ele e apontando o sofá para que sentasse.
- Bom Tommy, vou direto ao assunto.
- Fale meu amor.
- Não me leve a mal, por favor, não se chateie comigo mas eu estou terminando o nosso namoro. Não me bata por favor. - Eu ri.
- É sério isso?
- Sim... É que assim Tommaso... Eu acho que não sinto por você o que você sente por mim. E acho que não seria nada justo isso. Então, estou terminando.
- Mas por quê? Eu não me importo que seja injusto.
- Pois eu sim... - Falei - Por favor, não fique chateado comigo... Eu imploro.
- Ok... Se é isso que você quer... Não posso fazer nada. - Ele sorriu fracamente.
- Por favor, não me odeie!
- Não te odeio pequena. Não tenho motivos, pelo menos você foi sincera comigo, sem ressentimentos.
- Ah, fico tão feliz. - Me aliviei - E cá pra nós, mulher para você não falta. Olha, eu sei de cada coisa. - Eu ri. - Na realidade não me importa o resto, mas vou fazer o possível para me apaixonar de novo.
- Fico feliz por você ter entendido tranquilamente Tommy, eu sinceramente, te admiro, de verdade.
(...)
Noites escuras, era só o que eu via depois da última noite clara que vi, quando coloquei a lua em baixo da água, bem no fundo, onde não poderia vê-la, mas saberia que estava ali. Fazia muito tempo que eu não saía, que eu nem sabia mais o que se ocorria por aquelas noites.
A noite estava vazia. Na vida às vezes é assim. Só falta uma pessoa e tudo parece vazio, despovoado, deserto. A única coisa que eu queria era ter uma oportunidade de me desculpar, mas estava quase certa de que não teria.
Pero si tu no estás, si tu te vas la luna mengua y desaparece, y las estrellas la encontrarán y descubrirán que mis lagrimas mece en algún lugar, sin más amparo que mi propia soledad. Puede que mañana veas en mi rostro la luz del alba o puede que ya no sientas nada, pero te aseguro que si hay algo de lo que no dudo es que mi amor no encuentra fronteras en este mundo. As coisas na Piazza não pareciam as mesmas. Talvez por que o que tornava aquele lugar mais bonito era a presença dele. Agora sem ele, a Piazza parecia só mais um quadrado na beira da água. Mas que me trazia grandes, enormes lembranças.
Ouvi passos, e não eram de Stephen. Eram leves e receosos. Olhei para o lado.
- Viola? - Eu gritei.
- O...Oi. - Ela sorriu meio assustada.
- O que faz aqui? - Eu ri da cara dela.
- Eu passei em sua casa e você não estava... Vim ver você aqui. Tomei liberdade e fechei a sua casa inteira, coloquei a scooter na garagem da casa do meu vizinho, pode ter certeza, ele é confiável. - Ela riu.
- Mas por que isso?
- Deu até na televisão, está vindo uma enorme massa de nuvens, junto com um pequeno ciclone. Ou seja, está vindo uma enorme tempestade, um verdadeiro dilúvio, e eu penso que você vá preferir passar ele dentro de casa.
Uma gota caiu na minha testa, e elas começaram a cair sobre nós.
- E acho que está começando. Vamos! - Ela me puxou e só conseguimos ir até o início do corredor entre as casas, pois parei bruscamente.
- Vamos! - Ela disse.
- Não, pare, silêncio! - Eu cochichei e “farejei” o ar - Droga! - Resmunguei baixo - Não vamos para casa tão cedo!
- Por quê? - Ela se assustou.
- Não temos tempo. Corre! - Eu gritei.
Saímos correndo pela saída do canto da Piazza. Passamos ao lado de Stephen, que ao nos ver, deu um pulo e saiu atrás de nós. Então Ele ainda me amava. Menos mal.
Corríamos a toda velocidade que podíamos, enquanto a chuva começava a apertar e o vento a gemer por dentre as casas e ruelas.
- Quem é? - Viola gritou, olhando um pouco para trás e continuando a correr.
- Te apresento, ele é o tão falado Stephen! - Gritei e ri.
- Oh deus, e você ainda ri!
Corremos mais, ela sempre me seguindo e ele atrás de nós. Em um impulso coloquei um pé na beira de uma grade baixa, e como eu estava em movimento, voei até o outro lado, caindo em um pequeno estrondo. Viola fez o mesmo, porém quase caindo antes da outra grade. Stephen parou de pronto. Ele não pularia, teria que fazer toda a volta, ou seja, ganhamos tempo.
Não paramos de correr, até que avistei ao longe uma mancha preta.
- Hades! - Gritei e assoviei, de pronto ele estava em nossa frente - O que você está fazendo aqui querido? Hum, não me olhe com essa cara, sei que devo explicações a seu dono. Mas obrigada pela ajuda!
Dei-lhe um beijo no pêlo molhado e em um pulo voei para cima dele. Segurei a mão de Viola e ela subiu junto. Um relâmpago enorme atravessou o céu, Hades empinou de susto e nós saímos voando, cortando Veneza como o raio cortou o céu.

CAPÍTULO 42



Acordei sorridente. Eram 14h quando eu vi o céu azul pós tempestade. Havia chovido demais e por milagre eu não havia acordado febril nem com o nariz molhado.
Não fazia idéia de como Hades havia ido parar lá. Não sei, talvez Ele o tivesse mandado ou Hades tivesse fugido. Dizem que esses animais tem um sexto sentido bem maior que o nosso. Vai saber.
Imaginava o quanto Viola não devia ter ficado traumatizada. Se há uma coisa que eu me lembro bem é dos olhos arregalados de Viola enquanto cortávamos Veneza em mil pedacinhos ao som de trovões e relâmpagos, com a roupas e cabelos pingando, sob um cavalo que nos fazia sentir o vendaval ainda mais forte.
(...)
Apitei a campainha da casa de Viola e ela saiu, com uma cara estranhíssima, os cabelos presos, um jeans velho, tênis e um moletom.
- Que cara é essa meu deus? - Peguntei.
- Sono e espanto, conhece? Estou oficialmente traumatizada.
- Suspeitei desde o princípio.
- É claro! O que foi aquilo deus?
- Foi uma das noites mais divertidas da minha vida. Nossa, muito bom.
Fomos as duas em direção a delegacia.
- Divertida? Você chama aquilo de algo divertido? Oh deus, eu senti a morte falar comigo.
- Deixe de ser boba Viola, a adrenalina é o melhor que há.
- Faz de conta. Só imagino você e Ele! Se merecem!
- Não mais. - Baixei o rosto.
- Ah! Falando em se merecer, conheci o tal irmão do . Ele é muito bonito, nossa. E o quer apresentar ele a você.
- Apresentar a mim? Olha onde eu me meto meu senhor.
- Ele é um bom negócio, aí vai a dica. Acho que seu nome é... . Ou apelido, não sei.
- Se seu apelido é , deve ter um nome normal. Teremos mais o que fazer na delegacia hoje.
(...)
Chegamos na delegacia e fomos direto ao meu departamento. Stefano chegaria em breve, teríamos de ser rápidas. Liguei os computadores, enquanto Viola abria os arquivos buscando e pegando toda e qualquer informação sobre Stephen.
- Me diga, de onde você tem todo esse conhecimento policial?
- Meu pai trabalhava aqui um tempo... Quando ele voltou para Gênova, eu fiquei.
- Ah sim...
Comecei a mexer nos programas de informações sem parar, imprimindo e excluindo tudo que encontrava sobre Stephen. Seria mais fácil se apenas eu possuísse as informações sobre ele. Viola pegava tudo e colocava dentro de uma pasta plástica grande e cheia de corações. Ninguém jamais iria imaginar que ali estava toda a existência de um ser.
Excluí tudo que vi sobre ele, até em fichas de outras pessoas, como se ele jamais tivesse existido. Ninguém lembraria dele, estava certa disso.
Terminamos tudo, foi quando parti para a segunda fase do que eu pretendia fazer. Digitei o nome “Jonas” e me apareceu uma família. Procurei entre os nomes e achei algo que se parecia com . Cliquei e abriu o perfil.
- Droga de foto que não quer ser rápida.
- Olhe logo , Stefano está chegando! - Viola olhava pelo vedo da porta.
- Não quer carregar, não carrega! - Resmunguei.
- Desligue! - Viola gritou, e com o pé, desliguei todos os computadores direto da chave de luz.
- Bom dia garotas. - Stefano sorria.
- Bom dia Stef! - Eu disse - Bem, só vim aqui para pegar umas coisas e me despedir de você.
- Você vai embora?
- Estou pedindo demissão! - Sorri feliz e dei-lhe um beijo no rosto - Foi um prazer trabalhar com você!
E assim, saímos da delegacia quase correndo e saltitando.
(...)
Uma noite até que clarinha. Mas nada me fazia conseguir parar de sentir falta dele e de querer sentir seus lábios, seu braços. Não passava um dia que eu não me martirizava por aquela maldita noite.
Where'd you go? I miss you so. Seems like it's been forever, that you've been gone.
Ainda estava em casa quando abri Venecia. Aquele livro era praticamente uma caixa de recordações. Como sempre uma página aleatória. A página onde Mardina chorava as dores da separação com Martín. E no rodapé, uma daquelas frases que sempre fazem sentido.
“Nunca está mais escuro do que quando está para chegar a manhã.
(Autor desconhecido)”
Assim esperava, que a manhã estivesse a só uma noite de mim. As coisas pareciam voltar a se acertar, mas tudo seria eternamente escuridão enquanto eu não tivesse a minha luz de volta. Coloquei de volta o livro na garupa da moto e saí. Coloquei meu capacete e uma jaqueta, pois naquela noite pretendia voar por Veneza, deslizando sem medo nenhum.
Subi na moto e dei partida, cantando pneus pela velocidade com que a moto partiu.
A velocidade me fazia sentir bem. Arriscar minha vida parecia uma forma legal de diversão, desde aquela noite, não sabia mais o que era me sentir completa. Cheguei na Piazza, minha primeira parada. Desci da moto, peguei Venecia e larguei-o ali no chão, com tudo dentro. A rosa negra, a vermelha, o bilhete, o convite, algumas letras de música... Subi na moto e saí de lá, na esperança de que o livro caísse nas mãos Certas.

CAPÍTULO 43



Pelo menos um dia com algo diferente para começar. Acordei, abri a janela e peguei aquele livro que estava em cima de minha escrivaninha. Finalmente havia tomado coragem de olhar. Venecia era seu nome. Talvez num passe de mágica, o livro que eu sempre procurei havia ido parar lá, logo lá. A continuação, ou melhor, o começo daquela fantástica história estava no lugar que mais marcou minha vida. E como, eu estava prestes a descobrir.
Abri ele com o coração na mão. Percebi que algumas páginas estavam mais abertas e que nele haviam coisas. Olhei a página inicial, que estava cheia de corações e assinaturas de várias pessoas. Abri na primeira página marcada. Ali estava, uma rosa negra, dobrada que não havia perdido a cor. E por mais estranho que parecesse, eu a conhecia muito bem. Na pressa abri a outra página. Um convite para o baile, junto com o bilhete que eu mesmo escrevi para Ela, que estava junto com o colar. Passei para a outra, onde estava o bilhete que deixei enquanto ela dormia. E em outra a rosa vermelha e o bilhete do “Em memória”, com uma pequena mancha de... Sangue. Meu estômago rolou ao pensar de onde havia caído aquela gota de sangue. A rosa estava com o caule verde manchado de marrom avermelhado. Mais sangue. Meus olhos se fecharam na intenção de amenizar a dor que eu senti. Em outras páginas, estavam músicas, com o que suponho ser a letra Dela. Estavam todas cifradas e com o ritmo em cima. Peguei-as e comecei a tocá-las em meu violão, finalmente sentindo Sua presença junto a mim depois de tanto tempo.
(...)
Uma coisa acima de todas me deixou mais confuso do que qualquer outra: Ela ainda gostava de mim? O que as músicas me indicavam era que sim. Se ela havia terminado tudo comigo alegando não me amar, quais seriam as possíveis razões para que ela o fizesse se ainda me amasse? Não sei, mas talvez houvesse algum jeito de descobrir, mas ele não vinha em minha mente de jeito algum.
(...)
- Ah cara, não tenho mais nada pra fazer. - Me joguei no sofá ao lado de .
- Finalmente saiu do castelo princesa.
Dei um tapa na cabeça dele.
- Fica quieto cara.
- Eu tenho uma idéia do que você pode fazer. Vá até a delegacia e leve um sanduíche para a . Diga que é meu irmão e que eu te disse para ir lá pois você tinha tédio.
- Ok, já que você quer tanto que eu conheça ela...
Saí de casa meio lerdo. Sabe como é estar acostumado a não fazer nada e ter de fazer algo assim do nada. Nem deu tempo de eu fazer um alongamento que já tinha me arremessado para fora de casa. Passei em uma lancheria, na realidade um bistrô e peguei um sanduíche em um saco de papel pardo. Eu tinha fixação por papel pardo, não sei se um dia acharia meu par perfeito que adorasse papel pardo. Ainda mais legal que papel pardo eram envelopes pardos. Se eu pudesse enfiava aquele sanduíche num grande envelope e levava em baixo do braço como um homem de negócios segurando um envelope super importante com um papel que tem cheiro de doce. Um dia Ela apareceu com um envelope de papel pardo. Foi aí que eu percebi que poderia passar o resto da minha vida com ela. Droga, tudo me lembrava ela.
(...)
Cheguei na delegacia e pedi o setor de identidades. Me indicaram um corredor longo cheio de portas, onde a última era a dela. As paredes eram sujas, mofadas e descascavam. As portas azul envelhecido me lembravam casa de avós. E daqueles bem chatos que obrigam todo mundo a tomar chá com suas porcelanas importadas do sul da Malásia.
A última porta, que supus ser a dela era preta. Me aproximei e bati na porta. Nada aconteceu. Repeti o ato e nada. Tomei parte e abri a porta. Estava tudo vazio. Entrei e me sentei em uma cadeira. A sala tinha luzes amareladas nos cantos das paredes. Era escura, talvez por trabalharem com materiais antigos que se decompõem mais rápido com a luz.
Apoiei meu rosto no punho e fiquei olhando o nada. A porta se abriu e um homem me olhou assustado, sacou uma arma da calça e apontou para mim.
- O que faz aqui? Devolva o que roubou se não eu atiro!
- Calma cara, eu vim trazer um sanduíche para a . A sala estava vazia e eu entrei.
- Oh, desculpe. - Ele baixou a arma e fechou a porta. - Bem, não sei o que você é dela, mas ela se demitiu ontem. Ou seja, coma esse sanduíche sozinho e eu lamento. - Ele riu.
- Ah, droga. - Resmunguei.
- Por acaso você é o garoto que ela deu o fora? Porque ela me contou de um cara que ela chutou esses dias por não gostar mais dele... Um garotinho. - O cara riu - Bem, se for eu não deveria contar, ordens dela.
- Eu? - Senti meu estômago embrulhar ao perceber que ela podia ser realmente Ela.
- Não, acho que não. Você é Tommaso?
- Não. - Respondi aliviado - Sou .
- Não é você. - Ele pareceu tão aliviado quanto eu - Ela não vai me matar. Mas enfim, desculpe-me a curiosidade, mas o que é dela?
- Nada mais que um mero possível conhecedor.
- O que?
- Nada. Estou indo, muito obrigada.
Saí de lá comendo o sanduíche. Ótimo, sai de casa pra visitar uma pessoa que se demitiu no trabalho dela.

(...)
- . Eu vou te matar.
- Cara, desculpa, não sabia que ela tinha se demitido. Enquanto você saiu ela esteve aqui para me contar de sua demissão entre outras coisas... Se você não tivesse ido você...
- Eu nada . Não é para eu conhecer ela mesmo, tudo ocorre ao contrário.
- Hum, verdade. - concordou - Ah, Alessia está no seu quarto.
- Droga.
(...)
A noite estava bonita quando eu saí. Resolvi não me demorar muito, a noite não me trazia alegrias. Sim, me trazia boas lembranças, mas me atiçava mais o amor que eu levava comigo onde quer que eu fosse. Pensar nela não me fazia sentir nada bem.
Cheguei na Piazza e larguei ali o meu livro, esperando que ele somente caísse nas mãos Certas, deixando isso por conta do destino.

CAPÍTULO 44



Hum, outro dia inútil. Levantei com Viola gritando por não ter achado a chave extra. Tive que socorrê-la na porta como um bombeiro salva um gatinho em cima de um poste. Comemos e ficamos fazendo nada a manhã inteira. Quando começou a tarde, saímos, pois estava chegando o carnaval, que sem ser no próximo dia era no outro. Eu andava tão a parte de tudo nesses momentos que nem sabia de nada. Mas eu iria vestida de Dama Dourada, sendo que qualquer pessoa em sã consciência me reconheceria, pois aquele vestido era único e os soberanos eram sempre lembrados. Idéia de Viola.
Saímos para encontrar uma roupa adequada para ela usar no carnaval. Estava disposta a gastar muito dinheiro em sua roupa se gostasse dela. Andamos revirando todas as lojas até que ela encontrou algo que lhe agradou. Um vestido enorme, extremamente armado, de cor bordô e cheio de detalhes prateados. A máscara era branca com traços em preto e prata, as luvas prata e os sapatos prata. Incrivelmente linda e inacreditavelmente cara. Mas ela foi lá e comprou. Ficou extasiaste, irreal, parecia uma boneca de porcelana que se cair vai quebrar em mil pedacinhos. Imaginei o modo que eu iria me sentir quando saísse e toda a cidade estivesse imersa em 1700.
(...)
A porta da casa de se abriu e lá estava ele sorridente.
- Ops. - Ele riu.
- O que houve?
- Meu irmão foi levar um sanduíche pra você na delegacia... E você está aqui. Ele vai me matar.
- Vim te contar sobre isso.
Entrei e sentamos no sofá.
- Bem , tenho que te contar as novas. Número 1, o dinheiro foi recuperado. Número 2, me demiti da delegacia. Número 3, terminei com o Tommaso.
- Oh deus! Que reviravolta! Terminou com o Tommaso?
- Claro! Depois que eu recebi o dinheiro de volta eu terminei com ele, não precisava mais de suas vantagens. E você sabe que eu nunca gostei dele na verdade.
- É como meu irmão. Vai terminar de novo com a Alessia, não gosta dela de verdade. Estávamos conversando e ele disse que talvez tivesse o que era dele de volta, então ia dispensar ela. Por sinal vou parar de falar alto que ela está ali na cozinha.
- Você é louco de falar um negócio desses alto? - Eu ri.
- Sim, não gosto dela. Bem, ela era namorada do Tommaso.
- Alessia... Uma loira?
- Sim!
- Ela estava falando com ele no baile... E bem... Ele não parecia muito confortável.
- Hum, a Barbie Califórnia deve ter traumatizado ele.
- Quem sabe. Agora a Barbie zero a esquerda também traumatizou. - Eu ri.
- Ele levou na boa?
- Sim, aparentemente sim, ele é um anjo de pessoa. - Sorri - Pena que eu não gosto dele, gosto da pessoa errada.
- E quem é o tal?
- Sabe que é uma grande coincidência que eu também não sei?!
- Como assim não sabe?
- Ah , um dia eu te explico. Quem sabe amanhã, ou talvez nunca, tudo depende eu não sei o que acontecer.
- Estou confuso.
- Pois é, eu sinceramente gostaria de também estar.
(...)
Saí de casa quando a noite já estava no meio. Meia noite. Dizem os antigos que é depois da meia noite que o meio da noite é como o início de uma aventura: Abre as portas de um mundo completamente escuro e novo, onde moram os maiores perigos e tentações. É aquele típico: Ah, são recém 11:59. Mas quando passa da meia noite, parece que as coisas se tornam mais perigosas e emocionantes. E estou certíssima de que não sou só eu que penso isso. Estava indo até a Piazza para ver que fim meu livro havia tomado. Se Ele o havia visto, ou se alguma pessoa aleatória havia pego na intenção de ver uma grande história de amor. Se Ele houvesse pego, com certeza deixaria algo indicando, pois direto entenderia que era meu, eu sabia que Ele me conhecia melhor que qualquer pessoa nesse mundo.
Cheguei a Piazza e procurei. Ali estava meu livro, intacto. Me aproximei e me inclinei para pega-lo. Foi aí que eu percebi que aquele não era o livro que no momento eu procurava, mas sim o que eu sempre procurei.
Mi Dulce Venecia. Ali estava ele, idêntico ao meu mas com o título diferente. A mesma capa, a mesma aparência. No exato momento, lembrei-me da velha senhora da loja de antiguidades.
- Ah, me diga, você já ouviu falar do livro Venecia?
- Ah, claro que ouvi!
- Você sabe por favor onde está e qual é a continuação dele?
- Mi dulce Venecia é o nome. Vendi há uns bons anos.
- Ah, é o destino conspirando para que eu não o encontre!
- Você tem Venecia?
- Sim!
- Nossa, menina de sorte. Estou certa de que o livro ainda está aqui em Veneza, se souber onde procurar vai encontrar! Ah, e se quiser, dê uma olhadinha na nossa seção de livros, temos ótimos clássicos! – Ela piscou e sumiu no corredor.

Peguei-o em minhas mãos ainda desacreditada. Seja lá quem tinha pego meu livro tinha a continuação. Um pelo outro. Corri para casa.
(...)
Sentei-me na sacada com o livro nas mãos e os pés na grade. Senti um cheiro extremamente familiar e farejei o livro. No momento o que eu quis foi me atirar da sacada. Sim, o livro havia parado nas mãos certas. Ainda sem saber se era só impressão, abri o livro. Duas partes pareciam mais abertas, ou seja, havia algo ali.
Abri na primeira parte.
- Oh deus.
Senti meu coração palpitar e meus olhos arderem passageiramente. Era When you look me in the eyes, a música que ele fez pra mim. E tinha uma parte diferente.
How long will I be waiting, to be with you again? I'm gonna tell you that I love you, in the best way that I can. I can't take a day without you here, you're the light that make my darkness disappear.
Fechei aquela parte e abri a outra que estava mais abertinha. Um envelope preto aveludado se sobressaía entre as páginas amareladas.

CAPÍTULO 45



Acordei cansado. Fazer uma maratona de leitura é algo realmente fatigante. Passei o dia inteiro lendo Venecia, e foi realmente estranho ter lido o fim primeiro e depois o início. A partir daquele momento haviam alguns detalhes que eu passei a entender. Ou seja, todos precisam de algo que os complete.
Fui lanchar, já era de tarde, e dei de cara com e aquela garota com a cara bonitinha. Viola. Ela estava mostrando um vestido enorme e cheio de coisas para ele, bordô com prata. Enquanto ele tirava algo de uma sacola que estava em baixo do sofá. Uma roupa como a dela, com uma máscara, umas meias que iam até em cima e um sapatinho de duende. Duende? Oh deus.
- O que é isso ? Que sapatinho de duende é esse? - Perguntei rindo.
- Isso não é um sapato de duende. - Ele se defendeu e a garota riu.
- Que roupas são essas? - Perguntei brincando.
- Você não vai? - Viola de curiosa de novo.
- Vou onde?
- No carnaval ora onde?! - Ela gritou.
- Ah, o carnaval! Nem lembrava disso.
Eu realmente nem lembrava, e obviamente não deixaria de ir, era um dos tempos mais divertidos em Veneza. Onde a cidade ficava imersa em 1700 e alguma coisa.
- Como não lembrar garoto, só podia ser irmão do , Er... ?
- É, . Mas eu vou! - Exclamei rindo.
- Você nem tem fantasia cara!
- Tenho sim! - Gritei no intento de que ele se recordasse.
- Não tem não! Você não comprou.
- Mas eu tenho. - Falei rindo.
- Você já tem? - Viola me olhou com uma cara... Estranha.
- Sim, eu tenho. - Reclamei.
- De onde? - ainda não lembrava - De outros carnavais?
- Não cara, do baile.
- Ah! - se lembrou.
- Do baile? Mas o temas são diferentes. E as pessoas não repetem roupas.
- Eu sou uma exceção meu bem. - Eu ri da cara de desentendida dela.
- E qual o nome da sua fantasia? - Ela estava confusa.
- O Cavaleiro negro.
- O mesmo nome da do soberano, nossa, que falta de criatividade. - Ela ria.
- Er... Viola, eu sou o Cavaleiro negro.
- Não é não. - Ela ria - Esses sem criatividade... Ainda fica querendo roubar o lugar do tal.
- Viola, ele foi soberano nesse baile. - estava sério.
- Hum, vai brincando. - Ela ria.
Fui até o meu quarto e peguei a fantasia. Desci e estendi-a na frente da garota. pegou o porta retratos em que estávamos eu e Ela e colocou na frente de Viola.
- Bem igual a fantasia e... - Ela parou, estática.
Alguns segundos se passaram e ela continuava estática.
- Você está bem? - Perguntei.
- Oh deus. - Ela disse com a boca aberta, me olhando pasma.
- O que? - parecia preocupado.
- Eu não acredito. - Ela dizia inconformada.
- O que houve? - já estava impaciente.
- É você! - Viola apontou para , horrorizada.
- Eu o que?
- Você, você! - Ela continuava a apontar para mim com feições horrorizadas.
- O que eu fiz? - Eu estava confuso.
- Tenho que ir, agora!
Ela colocava o vestido apressadamente na sacola.
- Mas antes tenho algo a dizer para você. - Ela estava apoiada no batente da porta - Você sabe o que faz, mesmo que nem sua família saiba e ninguém imagine. Eu sei o que você faz... Ela sabe o que você faz. Eu sei o que Ela fez e o que você queria fazer. Eu quero você saiba, que Ela sente o mesmo que você, mesmo que você não vá acreditar em mim. Eu sei mais do que você pensa ou sonha em imaginar. E só te dou um conselho, você tem pouco tempo. Sabe onde encontrá-la melhor do que qualquer pessoa, antes que seja tarde e Ela não queira mais encontrar você. Ela vai estar lá e você sabe como reconhecê-la.
Ela bateu a porta e eu fiquei estático no meio da sala.
- Tem algo que você queira me contar ? Você esconde algo?
- Sim, eu escondo algo. E não , não tem nada que eu queira te contar.
Subi as escadas correndo, chocado. Era certo demais para ser uma confusão ou uma coincidência. Ela sabia do meu segredo, ela sabia de tudo, e conhecia Ela. Estava em choque para pensar em qualquer coisa. Abri Venecia em uma página aleatória e olhei a mensagem do rodapé.
“O amor é uma flor delicada, mas é preciso ter coragem de ir colhê-la à beira de um precipício. (Sthendal)”
Era o que eu ia fazer, colhe-la na beira do precipício mesmo que isso significasse cair no nada.

CAPÍTULO 46



Respirei fundo mil vezes sem parar antes de abrir o envelope. Peguei-o, tocando calmamente o selo dourado que fechava ele. Levantei o selo levemente e o papel se descolou. Coloquei a mão dentro do envelope, e ali estava um papel. Puxei-o. Era amarelado, parecia antigo. Estava dobrado. Abri-o. Era uma espécie de carta, escrita com caneta de tinta fresca. E eu conhecia bem aquela letra, e pelo cheiro que exalava do papel, ela havia sido escrita a pouco tempo.
“Teus beijos são tímidos como de menina culpada, como uma flor que se abre... Pouquinho a pouco, beijinho a beijo. Tuas linhas se acomodam às linhas de minhas mãos. E o medo se vai escapando, por uma esquina de nosso abraço. Te abraço e sinto tua alma abraçar a minha.
E a noite vai, nos deixando sozinhos. E cada metade, se aproxima a seu modo. E dizem as ruas de tua Barcelona, que a noite é nossa, que la nit es nostra. A velha cidade, vestida de luzes, de espuma de mar, de amores e cruzes. E eu só peço, que nunca amanheça, que a noite é nossa, que la nit es nostra.
Canções, quantas canções, morrem pela manhã. Nem tudo o que se sente chega tão puro à madrugada... Nem tudo o que se sente vem da alma. E a noite vai, nos deixando sozinhos. E cada metade, se aproxima a seu modo. E dizem as ruas de tua Barcelona, que a noite é nossa, que la nit es nostra.”
(Barcelona- Bacilos, música tema da fanfiction.)
Era só isso que dizia. Parecia uma música... Mas realmente não me importava. Uma lágrima triste e emocionada caiu sob o papel, deixando uma mancha logo abaixo do fim.
(...)
Acordei cansada. Véspera de carnaval e eu estava totalmente sem vontade de sair de casa no outro dia. Foi quando eu levantei e olhei o calendário. Bati a mão na testa em sinal de desespero. Eu só tinha mais 2 dias em Veneza. Dois dias e tudo acabaria, eu voltaria para o Brasil e sentiria falta de tudo. Minha casa, meus amigos, meu amor e minha Veneza. Eu sentia como se lá fosse minha verdadeira casa. Eu podia morar lá para sempre. Conhecia a cidade muito melhor do que muitas pessoas que haviam nascido lá. Mas além do físico, havia o sentimental. Eu guardaria eternamente todas aventuras que eu vivi lá em minha mente, tudo que eu passei. Os sorrisos, as lágrimas, os bailes, as danças, as noites... As gotas de chuva brilhando à luz da lua, o som da água balançando com o vento, a brisa esfumaçada pairando sob os canais infinitos de Veneza... Coisas pequenas que tem grandes significados.
O dia em que saí de Iate com Tommaso, o primeiro dia que O vi, o dia em que Ele falou comigo...
(...)
Havia passado a tarde inteira lendo Mi Dulce Venecia. A cada segundo mais aquele livro me impressionava, era encantador e eu passei a me dar conta das semelhanças com minha vida. Seriam aqueles livros algo fora do comum? Que fora fabricada apenas uma edição de cada e lançado em duas partes do mundo para que os donos se encontrassem? Para que nós nos encontrássemos? Aqueles livros possuíam muitas assinaturas, ou seja, pertencera a muitas pessoas diferentes, desde muito tempo. Teriam elas vivido grandes histórias de amor? Teriam os livros se trocado por algo maior que apenas coincidência? Seria o destino traçado por alguma mágica?
Isso é algo que eu estou certa de que vou morrer sem saber.
(...)
Estava comendo quando Viola entrou em minha casa voando, com os olhos arregalados e uma expressão horrorizada.
- ! - Disse ela ofegante - Vim o mais rápido que pude!
- O que houve?
- Eu... Estou em choque.
- Por quê?
- Você conhece o irmão do ? Não, não é?
- Não, não conheço. O destino não quer que nós nos conheçamos de jeito algum... Ele foi na delegacia me levar um sanduíche logo depois que eu me demiti... Quando estou lá ele não está em casa... Quando almoço lá ele saiu para almoçar com a namorada... Quando saia com ele eu estava trabalhando... Realmente não é para eu conhecer ele.

Viola ficou pensativa, mesmo que ainda estivesse com feições estranhas.
- E se eu te dissesse que conheço Ele?
- E... Ele?
- Sim, Ele.
- Eu diria que é improvável ou até impossível.
- Vá no Carnaval amanhã comigo. Eu passo aqui para te pegar as 15h. Esteja vestida, com o anel e o colar. Ele estará lá.
- Como você sabe disso Viola?
- Me diga , quem sou eu para interferir a ordem natural das coisas? Uma reles mortal? Não posso dizer isso, só te garanto que ainda há tempo. Uma batalha foi perdida, mas não a guerra. Ela me sorriu fraco, como um pedido de desculpas. Saiu porta a fora com uma cara confusa. Às vezes, ou melhor, ela sempre me surpreendia. Fiquei pensativa sobre o que ela perguntou e o que ela disse. Talvez pudesse ter alguma relação...
- A não ser que... Não. Isso é impossível. - Resmunguei e voltei a comer e ver TV.

CAPÍTULO 47



Colocar aquela roupa me dava uma tristeza imensa. Fechei os botões da camisa como se fechasse feridas abertas com linha e agulha sem anestesia. Arrumei os sapatos, a calça. Coloquei minha capa preta. Coloquei meu cinto novo, e nele, uma espada de prata que era de meu avô, meu mais novo adorno, deixaria a fantasia mais real e mais charmosa. Coloquei a máscara e senti o tempo voltar. Era como se ela me levasse de volta aos momentos em que eu mais gostaria de voltar, aqueles, em que Ela era minha, estava em meus braços, frente a todo mundo, mil flashes em nosso rosto e uma luz enorme que parecia iluminar meu caminho. Aquele vestido dourado, aquela máscara brilhante, aqueles olhos coloridos, aquele sorriso transparente... Coloquei meu chapéu e me senti lá de novo. Era chegada a hora de fazer o tempo voltar mesmo que pra isso eu tivesse que fazer o mundo girar ao contrário.
(...)
Veneza parecia menor do que uma sala de estar. Estava lotada, e quando digo lotada é de mal poder caminhar. Mas normalmente os mascarados não precisavam se esmagar, pois o caminho era livre. Me fotografavam demais, além de ser mascarado por eu ser o soberano. Qualquer pessoa reconheceria a fantasia pois jamais se fabricavam duas iguais. Eu era observado, comentado, as pessoas pediam para tirar fotos comigo e algumas “Damas Douradas” pediam beijos alegando ser Ela. Eu a reconheceria facilmente e ela definitivamente não era nenhuma daquelas.
A meu lado estava , que parecia um duende, e estava saindo comigo nas fotos. O cavaleiro negro e seu duende escudeiro.
Andei, andei e andei, e acabei dando de cara com aquela garota da cara bonitinha, Viola.
- Oi . - Ela disse. Não sei se estava sorrindo, a máscara cobria a boca.
- Oi Viola. - Sorri por baixo da máscara.
olhou Viola de cima a baixo, me dando a impressão de que ele gostava dela.
- Pra que esse espada? - Ela riu.
- Charme de fantasia, sabe como é. - Ri.
- E a Douradinha? - perguntou.
- Alugaram ela para fotos, e como eu vi vocês vim para cá. Ela deve estar ali.
Ela apontou para um espaço vazio. Foi aí que ela percebeu que havia se perdido da amiga.
- Cadê a ela? - Ela perguntou desesperada.
- Acalme-se Viola, você sabe que não é difícil de achá-la. - riu.
- Quem é a douradinha? - Perguntei com flashes de respostas óbvias em mente.
- Ora quem?! - Viola deveria estar com uma careta enorme - a Dama Dourada.
- Qual das mil?
- Ora qual das mil , a única. - falou convicto.
- E...Ela está aqui?
- Sim, está. - Viola disse - Estaria aqui comigo se não houvesse sumido. Deve ter se perdido.
- Ela não deve ter ido tão longe! - Falei exasperado.
- Vocês se conhecem? - perguntou confuso.
- Não, só fomos os soberanos, não nos conhecemos. - Ironizei.
- Achei que não a conhecia... - Ele baixou o tom de voz.
- Depende do ponto de vista . - Viola completou.
- Como assim?
- Não temos tempo para explicações. , você tem pouco tempo, ela vai embora depois de amanhã. Ela só tem mais o próximo dia. Ela só tem hoje praticamente.
- Nós também. - Eu disse engolindo um nó em minha garganta.
- Então está esperando o que? Corra! Vá atrás dela antes que o tempo esgote, ela também está atrás de você!
- Vocês sabem como me encontrar! - Gritei.
Saí correndo a toda velocidade que consegui. As pessoas me olhavam sem parar, mas eu tinha o caminho aberto por todos queriam olhar o soberano do ano.
Vi um fio dourado passar voando atrás de um túnel. E depois, pude jurar ter visto Stephen passar correndo atrás desse fio dourado.
- Oh não, ele não, tudo menos ele!
Corri na direção deles. Lá estava Ela, correndo a toda velocidade com Stephen atrás dela, e eu atrás dele. Todos paravam para olhar a grande “encenação” , que na verdade de brincadeira não possuía nada. Ela olhou para trás e parou seu rosto em minha direção. Foi aí que uma multidão de pessoas se embolou em nossa volta, fazendo todos sumirem. Perdi-a de vista, idem Stephen. As pessoas se esmagavam como algo agonizando, sem parar, freneticamente.
Minha respiração estava falha, meu pulmões não puxavam o ar suficiente. Senti uma falta de ar enorme. Me recuperei rápido, e saí empurrando as pessoas sem dó. Algumas não me davam licença. Puxei a espada e ela fez um som de lâmina no ferro, todos me olharam. Coloquei-a de volta e saí correndo o mais rápido que pude mas não a vi.
Corri mais e mais, olhando cada máscara e cada rosto. O cansaço e a neblina estavam me cegando. Parecia que eu estava ficando louco, as pessoas estavam tortas, os flashes me deixavam tonto, as imagens estavam turvas, pessoas estranhas me olhavam, parecia um sonho, onde a cidade é fantasiosa e loucos caminham pela rua. Entrei em um beco fino e escuro, onde haviam várias mulheres e homens, passei correndo, mas eles me tocavam, me puxavam, como se eu estivesse sendo sugado por algo que se assemelhava a meu pior pesadelo. Eu não fazia idéia de onde estava, estava começando a ver coisas que estava certo de que não existia. Minha mente estava falhando, mente alguma suporta tanta informação ao mesmo tempo. Um misto de imagens e visões reais e irreais, sensações e luzes, sons e coisas se misturavam. Mas tudo parou quando eu não consegui parar e acabei me chocando com uma grade de um canal. Senti uma dor em minhas costelas e caí no chão, exausto e sem noção alguma.
(...)
Estava caminhando devagar, sentindo o peso mental daquele momento insano que vivi. Não saberia descrever o que passei, tudo pareceu como um sonho, me lembro de coisas desconexas e turvas. Olhei para o lado e jurei ter visto-a, mas em um segundo já não havia mais nada. Corri naquela direção e vários vultos dourados começaram a passar sem parar, as pessoas começaram a passar em alta velocidade, eu estava tendo outra daquelas sensações estranhas. O calor humano exagerado, os sorrisos demais, imagens demais, medo demais, amor demais, insanidade demais. Tudo que é demais acaba nos fazendo acreditar que estamos vivendo uma loucura. E não era só o que parecia, eu estava vivendo uma loucura. A mente é um instrumento muito poderoso, pode tornar o céu um inferno, ou fazer do inferno um céu. Foi aí que eu comecei a canalizar meus pensamentos e tudo pareceu clarear. Me fixei no meu objetivo e voltei a correr, e dessa vez, tudo parecia tão simples como um zero. Também foi quando eu me dei conta do meu papel naquela trama. Não era só em contos de fadas em que existia o príncipe, o herói, o justiceiro. Naquela história, era eu quem ia salvar a princesa do homem mau, ou quem sabe morrer com ela. Romeu e Julieta seria uma história feliz se eu acabasse morrendo junto com minha Dama, pois além de morrer, faríamos parte de um culto sobrenatural em que ele beberia nosso sangue. “Dama Dourada e Cavaleiro Negro morrem misteriosamente”. Não, muito obrigada.
(...)
Com Hades tudo parecia mais fácil. As pessoas abriam espaço pois ele sempre empinava quando havia multidões. Fotos e mais fotos me desesperavam.
“ Olhe, o cavaleiro negro!” Era o que eu ouvia constantemente quando passavam correndo com Hades. Parecia quem em achavam um personagem de histórias, um ator de filme, um herói, uma lenda.
Enxerguei Stephen logo a frente com ela correndo logo a frente, ofegante. Emparelhei com Stephen.
- Hey! - Gritei.
Ele olhou e eu direcionei Hades para cima dele, fazendo-o mudar de direção. Ela seguiu correndo, e estendeu a mão no ar, em direção a mim. Quis segura-la e nunca mais soltar. Mas ou era ela, ou sua vida.
(...)
Havia perdido Stephen de vista e não a enxergava mais também. Deixei Hades com e Viola e segui a procurá-la. ainda parecia não saber de nada, estava pasmo como aquela Viola guardava esse segredo tão bem.
Entrei em um corredor fino, um túnel úmido que no fim fechava em beco com um canal. Senti meu mundo desmoronar e meu estômago dar mil voltas quando vi o que estava ocorrendo em minha frente. Em um impulso estendi a espada em direção a ele. Estava na hora de mostrar que quem vencia no fim era eu.

CAPÍTULO 48



Colocar aquele vestido era prazeroso e triste. Era como se nele houvessem milhões de lâminas que me cortavam por dentro, mas que me traziam uma sensação de lembrança, como se eu estivesse voltando no tempo. Esperava que essa segunda vez com o vestido fosse tão boa quanto a primeira. Começou mal e terminou bem. Começamos separados e terminamos juntos. Certamente se eu o vendesse valeria muito dinheiro, mas eu não venderia nem por um milhão de reais. Era um tesouro que eu levaria eternamente.
Viola chegou em minha casa pontualmente, estava linda. Saímos. Uns dois passos depois começaram os comentários sem parar e as fotos. Tínhamos caminho livre, enquanto eu me sentia uma princesa em uma época passada incrivelmente linda.
Um grupo de pessoas parou eu e Viola. Jogaram ela para o lado e me engoliram em milhões de flashes estonteantes, que faziam qualquer garota se sentir a mais linda do mundo todo. Mas infelizmente ali eu não era eu para mais ninguém a não ser Ele.
Viola me acenou e foi para onde e outro rapaz estavam, enquanto eu tirava foto com as diversas pessoas de todas as nacionalidades possíveis ali, mas que incrivelmente sabiam reconhecer a Dama Dourada. Foi quando direcionei meu olhar a eles e vi que ao lado de e Viola estava o Cavaleiro Negro. Imponente como sempre, pressuponho que olhando para algo distante. Senti meu coração palpitar ao vê-lo novamente depois de todo aquele tempo. Sorri em baixo da máscara e dei um passo para ir em direção a Ele, quando uma multidão furiosa me engoliu e me levou por um caminho que eu não faço idéia de qual seja.
(...)
A multidão sumiu e eu fiquei estática sozinha em uma rua deserta. Ou mehor, eu adoraria que fosse deserta. Ouvi passos e olhei para trás. Com um punhal em mãos, estava ali Stephen, me olhando como quem olha alguma comida, e sorrindo com um olhar diabolicamente enfurecido. Comecei a correr em desespero, sem parar, em linha reta e depois dobrei na intenção de encontrar pessoas, mas estava mais vazio ainda. Meu estômago doía, meu coração estava acelerado, a respiração ofegante me rasgava os pulmões. O salto parecia ser para o lado oposto, parecia estar furando meus pés sem piedade. Eu sentia o impacto nos ossos, no sangue, na mente cansada.
- Vamos lá , a dor e o cansaço são psicológicos.
Pensei alto e respirei fundo, correndo ainda mais rápido, já sentindo o punhal em minhas costas, manchando o dourado de vermelho, deixando uma tonalidade bordô disforme.
Cheguei até uma multidão, que infelizmente se abriu para deixar eu e Stephen correndo. Ouvi mais passos correndo além de Stephen. Olhei para trás e a única coisa que vi foi Ele. Corria atrás de Stephen um os punhos cerrados e a capa ao vento, parecendo algo como um filme. Pena que não era um filme. Mas aí que uma multidão se fechou em nossa volta, nos apertando e me dando tempo para fugir de Stephen, sem Ele.
(...)
Estava eu em um bequinho escuro, bem mal iluminado e aberto com algumas pessoas na volta, brincando de serem quem não são, fingindo serem grandes assassinos.
Me joguei na parede ofegante, me sentando um pouco para acalmar os ânimos e respirar fundo. Tirei os sapatos massageando os pés. Todos me olhavam pasmos. Um garoto tirou a máscara desacreditado.
- ? - Lorenzo perguntou.
- Oi Lore. - Disse em um fio de voz.
- O que houve?
- Uma longa história...
Todos ali me olhavam, pasmos por descobrirem qual o nome da soberana.
- Precisa de ajuda ? - Um outro cara perguntou.
- Ah se vocês pudessem me ajudar... - Suspirei - Mas não dá. De qualquer forma muito obrigada.
Alguns segundos depois uma pessoa passou correndo. Pude jurar que vi tudo lento, pois tive tempo de ver que era Ele. Segurei sua perna na intenção de pará-lo, mas ele seguiu convicto e correndo, até que não o vi mais. Senti a primeira lágrima daquilo tudo correr embaixo da minha máscara. Ou Ele não queria me ver, ou não tinha me visto.
(...)
Caminhei devagar em meio as pessoas e de novo mais flashes e flashes. Tirei algumas fotos com turistas, para fotógrafos, com os nativos...
Só que acabei me passando de ruas e fui parar em outra rua vazia, um pequeno nucleozinho de casas caindo aos pedaços, que me lembrou onde fomos visitar a mãe de Stephen. Me virei para dar a volta e em um impulso disparei correndo, porque com apenas um cm de distância o punhal de Stephen passou em frente à minha cintura.
Comecei a correr de novo, mas dessa vez concentrada em viver e não em dor e cansaço. Passei por muitas ruas, não saberia dizer quantas e nem sabia onde eu havia pisado. Segui correndo sem parar, ofegante e com os pulmões querendo falhar, mas mantive o foco em frente e a respiração coordenada. Meu coração pulou dentro de meu peito quando ouvi galopes um pouco atrás de mim, olhei para trás e ao lado de Stephen estava Ele junto com Hades. Ele colocou Hades por cima de Ceifem e o fez mudar sua direção. Me fixei em seu rosto mascarado e estendi minha mão em sua direção na intenção de ver sua reação e da vontade que eu tinha de tê-lo comigo... Mas ele dobrou e sumiu com Stephen.
(...)
Eu estava caminhando por dentre umas casas, ainda tentando achar o lugar onde eu estava e um jeito de chegar até a Piazza San Marco. Convirei, Veneza é um lugar extremamente fácil de se perder, os canais as passagens... São muitas, confundem qualquer pessoa.
Parei no meio de um tunelzinho cheio de musgo e umidade para descansar. Algo tocou minhas costas, e senti ser de ponta, não tive coragem de olhar, já sabia o que era. O braço de Stephen me envolveu o pescoço me segurando. Colocou o punhal em minha garganta.
- Você é ágil mocinha... - Ele tinha uma voz grossa e extremamente bonita - Você e seu rapazinho. Já mencionei que você merecia algo melhor... Algo... Maior. - Ele pressionou sua “área de perigo” em minhas costas e arrancou minha máscara, dando a sentir algo rígido como pedra.
- Você é nojento. - Respondi.
- Pense o que quiser mocinha, em breve serás minha e não vai ter escolha. Vou te usar para o que eu quiser e você sabe o que eu quero. E depois, terás um maior que esse. - Ele me passou o punhal na beira do rosto, me abrindo um corte que breve começou a escorrer.
- Seu sangue... Vou ter seu sangue.
- Isso é o que você acha. Nessa história, não é você que vence. - Rosnei.
Olhei para frente e lá estava Ele. Estendeu a espada que refletiu meu rosto, deixando-me ver meus olhos aflitos e o sangue na beira de meu vestido, refletiu o meu maior medo.

CAPÍTULO 49



Stephen largou uma gargalhada gutural que me arrepiou inteira.
- Quem diria, falando do seu garotinho aí está ele! Achando que pode lhe defender com essa espadinha brilhante.
Ele rosnou tão alto que eu cheguei a ouvir. Arrancou a máscara e jogou-a no chão. Mas foi quando olhei para baixo que senti o choque de uma grande descoberta.
- Oh, que lindo é o amor não acham? - Stephen ironizava - Agora o príncipe encantado tenta me matar para salvar sua amada que lhe mandou embora. - Riu.
- Largue ela, se não... - Ele disse.
- Se não o que? Você vai me estapear? Faz-me rir garotinho. Você até é metido a corajoso... De todos que já vi o mais esquentado. - Stephen estava prestes a me tirar o ar.
- Largue ela e pegue a mim. - Ele falou baixando a espada.
- Não pense nisso. - Eu disse olhando para Ele.
- Concordo com a mocinha. Além do mais, ela pode matar minha sede de tudo. - Stephen levantou a saia de meu vestido, apertou e depois passou a faca em minha coxa.
- Você me dá repulsa. - Assoviei cravando as unhas no braço de Stephen.
Minha perna e meu rosto ardiam demais. O corte era enorme, de uns 20 cm e mais ou menos superficial. Meu vestido estava manchado de sangue, e o cheiro estava me nauseando.
- O que te leva a fazer isso? A crença idiota e sem noção de que nosso sangue vai te dar nosso amor? Não, ele não vai. - Ele levantou a espada de novo, arfando de fúria que queimava em seus olhos - Amor não se compra, não se rouba. Você nunca vai ter isso, nunca! Se um dia houvesse a chance, não há mais, eu acabo de rogar uma praga a você maldito! - Ele gritava.
- Eu terei amor sim. - Stephen devia estar sorrindo de canto - E com a sua amada, sua mulher. Ela será minha, toda minha, seu corpo, alma e sangue. Vou possuí-la de um modo que você jamais fez e jamais fará, e nenhum de vocês dois tem escolha.
- Você duvida de nós? - Ele sorria com o canto da boca - Estou certo de que você jamais viu algo assim. Nós não somos vítimas fáceis e eu juro por minha vida que acabo com a sua.
- Você é realmente um garotinho iludido. - Stephen olhava para Ele com desprezo.
- Vá. - Eu disse, fazendo-o olhar surpreso para mim - Eu fico só, vamos sacrificar uma vida só. - Falei chorosa e pisquei para ele, gesticulando com meus dedos e a boca para que ele fosse pela retaguarda.
- Se é isso que você quer... - Ele baixou o rosto e apertou os olhos. - Eu ainda te amo e sempre vou amar... Adeus.
Ele deu as costas e eu fiquei novamente só com Stephen.
- Vocês são iguais a todos. - Ele passava a mão sob meu corpo - Não tenho tempo, quero minha presa bem viva.
Stephen mordeu meu pescoço com toda a força e minha pele se tornou roxa e dolorida. Suas mãos me tocavam sem pudor, e era totalmente frustrante e agonizante não poder fazer nada para evitar isso. O punhal estava encostado em meu peito e qualquer movimento seria fatal.
Olhei para trás de Stephen discretamente e O vi lá. Estendi minhas mãos e comecei a tocar Stephen como se o desejasse. Empurrei a mão com o punhal para trás, mordendo de leve seu braço e dando sinal para Ele.
Em um salto, Ele bateu com a espada no punhal e o mesmo saiu voando. Quando passou, a lâmina abriu um corte enorme nas costas de Stephen que urrou de dor.
Estendeu os braços para me pegar, me matar, sei eu fazer o que. Recuei e dei-lhe um chute no estômago. Algumas aulas de luta com uma amiga lutadora são algo que pode ser útil. Ele o pegou pelos braços e segurava com muito sacrifício, Stephen era forte demais. Tirei meu sapato, de salto agulha e plataforma alta e comecei a bater em Stephen. Ele reclamava e eu ria, era bem divertido.
- Isso... Não está... Adiantando! - Disse Ele sendo levado por Stephen.
Puxei a saia do vestido para cima, peguei impulso e deu um chute o mais forte possível na cabeça dele. Stephen caiu imóvel, desacordado.
- Bom chute. - Ele disse sério.
- Obrigada. - Sorri fracamente sentindo dor por a pele esticar.
- Você está bem? Os cortes estão sangrando?
Levantei a saia e olhei minha coxa. Estava toda banhada em sangue seco e o corte fechado.
- Bem não estou, mas eu agüento. - Sorri fracamente.
- Tem certeza?
- Claro. O que faremos? - Perguntei insegura.
- A única coisa que temos a fazer, acabar com ele.
- Mas como?
Lembrei da profecia.
- A profecia. - Falei em um sussurro.
- Exato.
Esticamos o corpo de Stephen entre nós dois. Ele deu um soco no rosto dele para certificar que ficaria desacordado durante o ritual. Já estava quase noite, a luz das lâmpadas douradas refletindo na lâmina da espada.
Ele colocou a espada deitada sob ele e me olhou indecifravelmente.
- É agora ou nunca. - Falei.
Ele respirou fundo, levantou o rosto e olhou para mim, logo após, levantou nossas mãos, ambos segurando a o cabo da espada agora levantada em direção ao céu.
- A contratio sensu, a fortiori, a non domino. Ab irato, aberratio ictus. Alea jacta est. In vino veritas.
Pela razão contrária, com a mais forte razão, que não vem do dono. No ímpeto da ira, que se faz a um e atinge outro. A sorte foi lançada. No vinho a verdade.
Larguei a espada. Abri a boca de Stephen. Ele passou a espada em sua mão e deixou uma gota de sangue cair na garganta de Stephen que pareceu sentir. Logo depois, peguei a espada e fiz o mesmo. Apertei minha mão sentindo a dor do corte aberto. Encostamos a espada onde estaria o coração dele e ambos seguramos o cabo.
- Dare et remittere paria sunt. Datio in solutum ad causam, ad corpus, ad infinitum... Damnatio, exequatur! Dura lex, sed lex, est modus in rebus. Ex aecquo et bono... Fiat lux! Hic et nunc, homo hominis lupos. Idem per idem. - Ele olhou para o céu, buscando tornar as frases mais verdadeiras e me olhou para que terminássemos juntos.
Dar e perdoar são coisas iguais. Dê e pague pela causa, por inteiro, ao infinito. Condenado, execute-se! A lei é dura, mas é lei, há um limite entre todas as coisas. Segundo a equidade e o bem... Faça-se a luz! Aqui e agora, o homem é o lobo do homem. O mesmo pelo mesmo.
- Cum laude, bona fide, - Falamos juntos - amor omnia vinciti, in hoc signo vinces, otium cum dignitate.
Com louvor, boa fé, o amor vence tudo, com esse sinal vencerás, o descanso honrado.
Nos olhamos e juntos empurramos com força a espada que perfurou o corpo de Stephen. O som de algo se partindo foi desesperador e horrendo. Stephen começou a se contorcer e o sangue de seu corpo a escorrer.
Me aproximei Dele com os olhos arregalados e coração batendo forte demais. Stephen abriu os olhos, arregalou-os e mexeu suas mãos em direção ao peito. Puxou a espada e jogou-a ao chão, em nossa frente. Olhou para nossos olhos com uma expressão de dor e agradecimento. As luzes da rua hesitaram, piscando, e logo seu rosto perdeu a expressão.
Ele baixou as pálpebras de Stephen fazendo seus olhos se fecharem. Logo após me abraçou.
- Acalme-se, acabou. Isso foi o fim, estamos a salvo, vai ficar tudo bem.
Me aconcheguei em seu peito esquecendo de tudo que passou.
- Pegue Hades e vá para casa. - Ele disse - Eu levo ele e o coloco onde sempre deveria estar. Pode ficar tranqüila, você precisa descansar.
- Não vou! Eu não posso ir, mas e nós e... - Meus olhos se encheram de lágrimas.
Ele engoliu a seco quando falei em nós.
- Nos vemos amanhã, você sabe onde. - Ele disse.
Subi em Hades e corri para casa após uma jornada surreal.

CAPÍTULO 50



O dia havia passado voando. Acordei meio tarde e muito cansada. Havia ido nas casas de meus amigos me despedir e pedir - diga-se implorar - para que não perdêssemos o contato. Fiz minhas malas, peguei meus papéis, comi, chorei de saudade antecipada e sofri com antecedência. Ainda estava meio chocada pelo que havia acontecido na noite anterior. Eu matei um homem junto com o amor da minha vida. Ele tentou me matar, mas eu ainda havia matado ele.
A noite caiu clara como as outras. O céu parecia ter ganhado toda a sua luz de novo, seu brilho. Era noite de lua cheia, enorme no céu, junto com mil estrelinhas pequenas e cintilantes. Peguei Mi Dulce Venecia da estante. Coloquei um chapéu, uma roupa mais bonitinha, segurei o livro e saí.
O vento forte me lembrava o primeiro dia que O vi. A brisa, o cheiro. Tudo me lembrava sorrisos, beijos, aventuras inacreditáveis e fantásticas as quais eu viveria mais quantas vezes fosse preciso. Risadas, choros, brigas, tropeções, quedas, e tudo mais. E se pudesse viveria a vida inteira com Ele.
Caminhei calmamente aproveitando cada segundo que eu tinha lá. Respirei fundo, sentindo o cheiro de meu novo lar, que eu estava deixando para trás, que ficaria apenas em minha memória e em meus desejos.
Cheguei na Piazza e lá estava Ele. Não há como explicar a intensidade da falta que eu senti daquilo. Me abaixei entre as casas e fiquei espiando-O. Estava com um casaco tweed com um suéter preto. Uma calça jeans escura e um lenço vermelho pequeno amarrado no pescoço. Estonteante. A seu lado, seu violão.
Levantei-me e fui em sua direção lentamente, mas na metade do caminho já estava correndo. Abracei-me a Ele com toda a vontade que havia guardado por tanto tempo. Ele não fechou os braços em minha volta, só ficou me observando e sentindo abraçar Ele.
- Eu senti tanto a sua falta... - Falei.
- Por quê? - Ele falou sério.
- Simples, eu te amo.
- E porque você acha que eu vou acreditar nisso?
- Por que eu tenho uma explicação.
- Pois bem, sou todo ouvidos.
Sentei no chão e Ele sentou a meu lado.
- Eu menti. Menti o tempo todo, eu te amo demais, não me importo com mais nada. Eu precisei fazer aquilo, você precisa me entender. Minha família havia perdido todo o dinheiro que tinha, e eu precisava de um emprego e dos favores de meu ex-namorado Tommaso. Não podia terminar com ele e ele tinha que ter uma certa preferência. Consegui um emprego n delegacia e tinha que acordar cedo. E tive um sonho horrível em que Stephen te matava por minha causa. Pensei poupar sua vida se te deixasse.
- Isso é... Verdade? - Ele estava confuso.
- Não, estou mentindo para você por que preciso de favores. Claro que é verdade! Você acha que estaria falando tudo isso se não te amasse? Não tenho nenhum interesse em você além de apenas você. Nós só sentimos amor de verdade quando não precisamos da pessoa para fins pessoais. Eu tive que fazer uma escolha... Ou você, ou minha família. Como diria minha amiga Viola, a parte mais bonita do amor é o sacrifício.
- Eu nem sei o que dizer... - Ele baixou a cabeça.
- Me perdoa, só diz que me perdoa.
- Eu... Eu... - Os olhos dele marejaram - Não sei se consigo.
- Eu imploro. Por favor.
- Ah, isso é golpe baixo. Óbvio que eu te perdôo minha Dama.
Nos abraçamos. Quer dizer, eu pulei em cima dele. Ele me segurou pelo rosto, e fomos ficando próximos e próximos... Tocamos nossos lábios calmamente.
Aquele gosto. Jamais havia provado tão saboroso. Minha boca já estranhava a falta dele, já sentia uma saudade enorme de estar na Dele. Era tão macia e receptiva...
Seu perfume me invadia a mente me deixando perturbada e me acendendo mais ainda o amor que eu já mantinha em cativeiro dentro de mim, que jamais ia deixar que fosse embora. Eu sentia por Ele algo que jamais havia sentido por nenhuma pessoa, era diferente de amor de família, de mãe e filha, de você por si mesmo. Era maior, e tão bom...
Procurei em seus olhos a razão que eu sempre tive para manter a cabeça erguida, procurei meu eu ali. E encontrei. Era Nele e com Ele que eu via meu futuro, que eu imaginava-me casando, tendo filhos e... Não importa.
- Mas senhorita... Você mencionou a Viola, não mencionou?
- Sim, você a conhece?
- Ah sim, conheço sim. - Ele riu - A garota da cara bonitinha.
- Então quando ela disse que Te conhecia era verdade. - Sorri, confirmando minha suspeita.
- Pois é! - Ele sorriu - Sabe, quando estivemos distantes, eu não sei se eu estava ficando louco mas podia sentir seu perfume até dentro de minha casa, nas roupas de meu irmão...
- É mesmo?
- Sim!
- Bem, acho que não fomos devidamente apresentados. Prazer, . - Sorri de canto.
- Eu sou , e o prazer é meu. - Ele piscou.
- Por que não diz seu sobrenome, Jonas?
- Como você sabe meu sobrenome?! - Ele arregalou os olhos.
- Você não estava louco quando sentiu meu perfume em sua casa. Eu realmente passava metade do meu tempo lá.
- Como eu não vi isso antes? - Ele bateu a mão na testa - Você é a melhor amiga do ! A garota da delegacia, dos jantares e... Oh meu deus. Como você me descobriu?
- Primeiro, o usava suas roupas. Segundo, o seu sapato ontem. Ah e tem a Viola também, ela deu dicas quando descobriu. Eles queriam me apresentar a você. - Ri.
- Idem. - Ele riu - E eu devia ter aceitado.
- Isso importa agora?
- Er... Não.
- Bem... - Eu abri o casaco e tirei o livro dali - Isso é seu.
Estiquei o braço e entreguei o livro a ele. Logo ele tirou do lado do violão o meu livro e me estendeu.
- Isso é incrível. - Eu estava encantada.
- Realmente... Não entendo a complexidade dessas coisas...
- Logo você? O rei das complexidades e palavras complicadas, pensamentos bonitos e sorrisos misteriosos...
- Eu nem me dou cona quando faço isso.
- Você é bipolar.
- Isso importa agora?
- Er... Não. - Ri.
- Me diga, porque você guardava tudo aquilo?
- Porque aquilo é importante para mim . Por que tinha seu perfume, por que veio de você.
- Eu... Não sei o que dizer...
Ele me abraçou em um instante e no outro estava deitado no meu colo. Comecei a mexer em seus cabelos.
- Me diga uma coisa... - Perguntei - Como Hades veio parar aqui em uma noite dessas?
- Ele começou a relinchar e se debater. Larguei ele e eu deixei partir, pois era o que queria.
- Tenho de agradecer ele ainda. - Sorri - Tem tantas coisas que eu quero saber...
- Bem, vamos começar. Da primeira vez que te vi te achei encantadoramente misteriosa. E assim até hoje. Quando fomos soberanos eu já estava louco por você. Eu estranhei quando Hades deixou você montar nele, foi quando eu percebi que ele também gostava de você como eu. Quando você trouxe um envelope de papel pardo eu quis casar com você. E eu não vou dizer mais nada pois temos que ter um motivo para nos vermos novamente.
- E já não basta motivo maior do que o que sentimos?
- Mas precisamos ter assunto. - Ele riu, e sua risada era como a de um bebê quando estava deitado.
- Eu não quero ir embora, eu não quero que isso acabe, eu não quero perder você de vista.
- Desde quando a distância foi algum problema? Jamais soubemos que estávamos tão perto, só tínhamos a esperança de nos encontrar e se mantermos isso, seremos eternos .
- Seremos eternos?
- Sim, seremos eternos.
- Promete? Promete que mesmo que não nos vejamos mais você vai sempre me amar?
- Prometo. Promete que vai se casar comigo quando nos vermos de novo?
Meu estômago chegou na garganta. Meu coração acelerou, minhas mãos gelaram e eu estava certa de que havia ficado mais pálida que papel. Eu podia ouvir o som de meu coração batendo quase fugindo do corpo. Ele fazia meu coração bater mais forte.
- Você está bem? - Ele tocou meu rosto.
Abri um sorriso pouco a pouco. Ele era enorme e ia de um lado ao outro de meu rosto.
- Melhor do que nunca. Prometo. Juro, faço o que quiser. - Uma lágrima de felicidade caiu e molhou meu rosto. - Você é incrível.
- Você é perfeita.
- Mas continua sendo um frouxo.
- Não diga isso... - Ele fez uma cara safada e me beijou.
(...)
Ele pegou seu violão e o colocou no colo.
- Antes que vá, tem algo que eu gostaria que ouvisse. É uma música que eu gosto muito, que me lembra nós e que fala tudo que eu gostaria que você ouvisse e lembrasse para sempre... Caso eu não possa lembrar a você todos os dias. - Ele sorriu.
When you look back on times we had, I hope you smile. And know that through the good and through the bad, I was on your side when nobody could hold us down . We claimed the brightest star, and we, we came so far... And no they won't forget.
Quando você olhar pra trás, nos tempos que tivemos, eu espero que você sorria. E saiba que através do bom e do ruim, eu estava do seu lado quando ninguém podia nos derrubar. Reivindicamos a estrela a mais brilhante, e nós, nós viemos assim distante... E não, eles não esquecerão.
Whenever you remember times gone by, remember how we held our heads so high, when all this world was there for us and we believe that we could touch the sky. Whenever you remember, I'll be there, remember how we reached that dream together... Whenever you remember.
Sempre que lembrar dos tempos de se foram, lembre como mantínhamos assim nossas cabeças erguidas, quando todo este mundo estava lá por nós e acreditávamos poder tocar o céu. Sempre que lembrar, eu estarei lá, lembre como alcançamos aquele sonho juntos... Sempre que lembrar.
When you think back on all we've done, I hope you're proud. When you look back and see how far we've come. It was our time to shine, and nobody could hold us down. They thought they'd see us fall, but we, we stood so tall... And no we won't forget.
Quando você repensar em tudo o que fizemos, eu espero que você fique orgulhoso. Quando você olhar pra trás e ver o quão longe nós viemos. Era nosso tempo de brilhar, e ninguém poderia nos derrubar. Eles pensaram ter visto-nos cair, mas nós, nós continuávamos tão altos... E não, nós não esqueceremos.
Whenever you remember times gone by, remember how we held our heads so high, when all this world was there for us and we believe that we could touch the sky. Whenever you remember, I'll be there, remember how we reached that dream together... Whenever you remember.
Sempre que lembrar dos tempos de se foram, lembre como mantínhamos assim nossas cabeças erguidas, quando todo este mundo estava lá por nós e acreditávamos poder tocar o céu. Sempre que lembrar, eu estarei lá, lembre como alcançamos aquele sonho juntos... Sempre que lembrar.
We claimed the brightest star, and we, we came so far... And no they won't forget.
Reivindicamos a estrela a mais brilhante, e nós, nós viemos assim distante... E não, eles não esquecerão.
Whenever you remember times gone by, remember how we held our heads so high, when all this world was there for us and we believe that we could touch the sky. Whenever you remember, I'll be there, remember how we reached that dream together... Whenever you remember.
Sempre que lembrar dos tempos de se foram, lembre como mantínhamos assim nossas cabeças erguidas, quando todo este mundo estava lá por nós e acreditávamos poder tocar o céu. Sempre que lembrar, eu estarei lá, lembre como alcançamos aquele sonho juntos... Sempre que lembrar.
(Whenever you remember - Carrie Underwood)
Eu dei meu melhor sorriso. Já de pé, abri os braços e Ele levantou e me abraçou. Nos beijamos como quem não quer se deixar ir. Olhei para Ele com dor e me virei para ir embora. Ele puxou minha mão me pedindo para esperar. Desamarrou o lenço vermelho do pescoço. Levantou-o em direção ao céu. Movimentou-o, e ele se transformou em uma rosa. Me entregou. Senti seu perfume, dei o último olhar e fui embora.

EPÍLOGO


- Vá se arrumar logo Margherita, vamos nos atrasar se você não for rápida!
Minha mãe era apressada demais, de uns tempos adiante ela andava querendo tudo na hora e sendo extremamente pontual para não dizer adiantada.
Subi as escadas correndo e cheguei a meu quarto. Em cima da cama estava o vestido que eu usaria no baile, que minha mãe havia usado em vários anos consecutivos, e agora ele era meu. Desde pequena eu sempre adorei ele, sempre sonhei em vestir. Era verde com prata, muito bonito. Devo convir que minha mãe com ele parecia uma princesa, não sei, algo fantástico. Naquele ano ela ia usar um novo, não sei de que cor. Me obrigou a ir junto com ela comprar, mas nem prestei atenção, nunca reparei em nada. Detalhes e coisas óbvias me passavam despercebidos.
(...)
O baile estava lindo. Era meu primeiro baile, como se fosse uma debutante do mundo real, recém começando a tomar parte do que acontecia por lá. As estrelas prata, as decorações bordos. A orquestra e tudo, era mais que coisas de sonho, era quase irreal de tão lindo.
Fugi de minha mãe e meus “tios” - amigos de família de longa data que já são considerados parte - e fui dar uma olhada em um espelho enorme do outro lado do salão, que ficava ao lado da parede dos soberanos.
- Não, você não vai ficar longe de mim! - Minha mãe esperneava.
- Ah mãe!
- Viola, deixe sua filha ir, ela não é mais uma garotinha! - Minha tia me defendeu sorridente - Vá logo antes que ela mude de idéia!
Minha tia era uma mulher linda. Seus olhos eram expressivos, seu sorriso branco e estava sempre feliz, embora eu não saiba quase nada sobre ela e meu tio. Ela estava com um vestido preto. Meu tio era um homem bonito, estilo galã de filme. Ah se fosse mais novo...
Eu estava linda com o vestido de minha mãe. Toquei-o em meu corpo no espelho, agora preso em minhas curvas recém ganhas com minha idade que avançava. Estava quase do tamanho de minha mãe, que era baixa, mas eu não me importava. Mesmo que me irritasse com ela, ela era linda e meu sonho era ser como ela.
Eu sentia aquele vestido como uma relíquia, algo passado de mãe para filha, que devia ser algo especialíssimo e era. Eu estava me sentindo ela mesmo há alguns tempos atrás, nos tempos em que ela vivia sua juventude e aproveitava sem medir fronteiras.
Passei ao lado para olhar a parede dos soberanos. Eram lindos, as fotos eram chamativas, os sorrisos, as histórias... Parei no quadro do centro e olhei a inscrição gravada na moldura dourada. Ah... A Dama Dourada e o Cavaleiro Negro. Minha mãe me conta sobre eles desde que eu era pequeninha... Pra falar a verdade não só ela como toda a cidade. É Uma história passada de pais pra filhos, avós para netos, amigos para amigos... Minha mãe até hoje não sabe como se dispersou tão rápido.
É bem grande, mas bem, vou lhes contar.
Reza uma lenda média, nova, tanto faz, uma história sobre esses soberanos. Bem, vamos começar do início. Ambos não eram daqui. Ninguém por aqui em Veneza sai de noite desde o século passado eu acho. Eles saíram e acabaram se encontrando e se apaixonando. Se amaram demais, loucamente, que acabaram por atrair os fatos em torno de si.
Dizem que o primeiro beijo dos dois foi num baile como esse, onde eles estavam desentendidos por alguns motivos que eu não faço idéia. Mas ela usava um cordão com uma rosa que algumas boas bocas dizem que ele mesmo havia feito para ela, mas não sei se é verdade. Aí eles se beijaram e voltaram a ficar bem. Ele tinha um cavalo, Hades. Era negro e lindo.
Aí, eles foram escolhidos como soberanos e dançaram a valsa juntos, ganhando os pseudônimos de Dama Dourada e Cavaleiro negro, com um grande acaso de acabarem juntos. Mas ninguém nunca descobriu quem eram esses dois, não se sabe se estão vivos ou mortos, não se sabe.
Mas essa história não está nem perto do fim. Todo e qualquer cidadão de Veneza já ouviu falar de Il Cattivo.
Os dois se amavam tanto que atraíram a atenção desse bizarro ser que os perseguiu com tudo que podia, todos seus truques e seus perigos. Alguns dizem que essa criatura nunca existiu, mas minha mãe garante que o viu com os próprios olhos, e dela eu não duvido.
Minha mãe me conta sempre que eles haviam brigado seriamente, quando ela mentiu para ele que não o amava mais. Mas havia perdido tudo o que tinha, e namorava um dos filhos de Aurora Vasallo, a falecida dona da empresa dos Vasallo que foi a falência. Bem, tudo em ordem. Ela precisava de uns favores de Tommaso, acho que esse é o nome dele. Começou a trabalhar na delegacia, mas ninguém lá sabe quem é a tal que se escondeu também que a polícia nunca descobriu.
Aí em um carnaval, um pouco antes de ela e ele irem embora cada um para um lado, eles mataram Il cattivo. Esse é o grande feito deles, algo que ninguém jamais havia feito, que resistiu por milhares de séculos. Eles acabaram com o maldito, executaram a profecia e ele foi eliminado. Muitas pessoas estavam lá para agradecer para eles pelo que fizeram. É o que eu mais esperava, ver a lenda viva na minha frente. Pelo menos eu achava que era verdade, isso foi um boato que rolou a cidade inteira, mas não houve comunicado oficial, era uma suposição apenas.
Prosseguindo... Após isso eles se separaram pois cada um foi para sua verdadeira casa. Quando voltaram, algo como uns 6 anos depois, se encontraram por acaso em uma noite na Piazza. Ela havia mudado e ele também. Ela tinha namorado e ele estava noivo, haviam praticamente deixado um ao outro, já tinham perdido a esperança de se reverem. Ela já havia se formado na faculdade e ele estava trabalhando, já haviam passado seus livros adiante - essa é uma parte da história que eu não sei. Ao se verem, despertaram o amor que estava adormecido e voltaram a ficar juntos. Acabaram seus compromissos no mesmo dia e acabaram ficando juntos de novo. Mas, como nada é inteiramente perfeito, eles foram intimados pela polícia, graças à denuncia de homicídio culposo exercido pelos dois. Uma vez, Alessia, ex-namorada do Cavaleiro, ouviu a dama conversando com o irmão dele sobre ter matado alguém. Se uniu com Tommaso, ex-namorado da dama e ex-namorado dela, sabendo que a dama esteve com ele apenas por interesse e resolveram por denunciá-los. Outro fato que os tornou lenda foi mexer com a polícia de todos os cantos, cada um com seus conhecidos e fazer com que o caso fosse totalmente privado para que não estragassem suas carreiras. Minha mãe disse que essa foi a parte mais fantástica da história. Tommaso, sendo um dos Vasallo, colocou toda a sua influência para culpá-los junto com Alessia. Mas sabe-se lá como, não haviam registros da existência desse ser na delegacia, nem nos documentos novos, nem nos antigos. Referências em outros perfis, nada. Ou seja, provas concretas não haviam, era como se ele nunca houvesse existido. Foi aberto o caixão do tal e ele estava lá, e tinha sido assassinado conforme a descrição de Tommaso e Alessia. Como eles sabiam de tudo, e a polícia não podia levar em conta lendas, apenas provas concretas, Tommaso e Alessia foram presos pela morte do ser desconhecido, que mais adiante fora reconhecido como Stephen, o maldito. Dizem que Tommaso perseguiu a dama por anos antes. Depois do escândalo, a empresa dos Vasallo foi a falência e ninguém mais soube nada sobre eles até aquele dia, e também, quem iria querer saber? Enfim, O Cavaleiro e a Dama acabaram se casando. Mas ninguém, ninguém sabe quem são. Algumas senhoras dizem ver eles andando a cavalo por aí até hoje, varando a noite e deixando mensagens em locais onde as pessoas pudessem ver. Um homem muito velho do hospício que foi liberado anda gritando por aí pelas ruas que eles são os heróis da nossa cidade. Mas se tudo isso é verdade? Eu não faço idéia.
Voltei para onde estava, junto com minha mãe e meus tios que já estavam preocupados - minha mãe estava enfartando enquanto meus tios riam da cara dela.
Meus outros “parentes” estavam junto. Olhei para Frankie e sorri. Ele era muito bonito, um garoto lindo, mas um pouco bem mais velho que eu. Ele me sorriu de volta e eu lembrei de perguntar uma coisa para minha mãe.
- Mãe, - Quando eu falei todos me olharam - você conheceu a dama dourada?
- Ah minha filha - Ela riu - Fomos grandes amigas.
Todos ali riram e se entreolharam. Fiquei sem entender nada, mas tive minha onda confusa acabada com o homem que começou a falar no palco.
- E agora senhoras e senhores, a grande surpresa da noite! Vocês obviamente já ouviram falar da Dama Dourada e do Cavaleiro Negro, não ouviram?
A massa inteira disse um “sim” comprido e certo. Então era verdade, eles realmente estariam lá.
- Então... Eles estão aqui essa noite, eles existem! E posso garantir que são os mesmos.
Todos fizeram um “Ah” surpreso e longo.
- Então quero que dêem as boas-vindas aos soberanos das noites de Veneza! A Dama Dourada e o Cavaleiro negro!
Uma capa preta caiu do vestido de minha tia, ela estava de dourado. Meu tio estendeu a mão a ela, ela segurou. O holofote principal se dirigiu a eles e uma salva de palmas invadiu o salão. Quando eles já estavam uns passos adiante de nós, ela olhou para trás, baixou a máscara, deu um sorrisinho e piscou para mim. Foi aí que eu percebi que a lenda sempre esteve viva diante de meus olhos.

FIM. Fim?


Tus Besos, son tímidos, como de niña culpable, como una flor que se abre...
Uma onda quente percorreu meu corpo, senti sua mão tocar minha cintura, e uma respiração quente próxima ao meu pescoço. Não sabia o que estava havendo comigo, sentia meu estômago revirar e algo tomar conta da minha mente, me deixando insana e com o coração acelerado, sem me dar conta do risco que corria, me deixando envolver por um estranho. Como impulso me virei de frente para ele, ficando sem querer com os rostos colados. Senti os seus lábios tocarem docemente nos meus, e de novo, não sei por que, corri até desaparecer.

Poquito a poco, besito a beso.
Calmamente, encostou seus lábios nos meus, e estava certa de que nem se o mundo caísse sobre nós, aquele momento deixaria de ser inexplicável. Era como se pedaços do céu e das estrelas chovessem sobre nós, penetrando em minha pele, deixando um brilho enorme dentro de mim.
Seus lábios eram macios, seu sabor era doce e lembrava-me sabor de desejo. Tinha gosto de frio na barriga e de lágrimas emocionadas. Seu beijo calmo, dessa vez sem nada que nos atrapalhasse era como um vício, quanto mais o sentia mais o desejava. O jeito que tocava meus cabelos me hipnotizava, era como se nos encaixassemos perfeitamente, dia e noite. Poderia que acontecesse qualquer coisa, a única que não permitiria é que aquele momento acabasse. Sentia seu doce beijo como um adulto que ganha um brinquedo que pediu desde criança, como um sonho sendo realizado, e para ser mais exata, melhor do que o sonhado. O barulho do vento na água era encantador, as folhas movendo-se, o vento assoviando entre os troncos. Tocamos nossos lábios levemente depois de um beijo que poderia ter durado a eternidade. Enfim compreendi porque o destino nos fez esperar tanto por isso, para ser da forma que foi, para não ser mais um, para ser o melhor, inesquecível e acima de tudo, inexplicável.


Tus Líneas, se le acomodan, a las líneas de mis manos.
- Não tenha medo, você não está sozinha. – Ele sorriu e segurou minha mão que estava apoiada na beira da grade.
- Mas ela estava vindo na nossa direção...
- Se você não demonstrar perigo, ela vai não vai lhe fazer mal algum. – Ele falou baixo, e subiu sua mão por meu braço, chegando até meu ombro.
- Isso é o que você acha... Talvez não saiba nada sobre ela.
Segurei sua mão e coloquei-a na grade. Segurei a rosa, sorri para ele, e desapareci por entre as passagens, como sempre fazia.


Y el miedo se va escapando, por una esquina de nuestro abrazo.
- Me...Medo. – Foi a única coisa que consegui dizer.
- Vem.
Ele me pegou pela mão, me levou até uma janela que ali havia. Me segurou pela cintura, me levantando e me colocando sentada na janela, sentando junto comigo e me abraçando de lado.
- O que houve senhorita? – Era impressionante como sempre era cortês.
- Bom... – Respirei fundo buscando ânimo – No jornal... O garoto morto, eu achei que era v... Valente!
- Valente? – Ele pareceu confuso.
- Eu achei que foi valente da parte dele sair pela noite... – Desconversei mas não funcionou – Enfim, achei que era você.
- Nossa... – Ele fez uma expressão estranha – Mas não é... – Ele apertou o abraço.
- E...Eu fui seguida. – Senti minha voz estremecer ao falar sobre isso.
- Foi? – Ele arregalou os olhos.
- Sim... Cheguei a pensar que era você, mas achei que não levaria tão a sério ao ponto de me machucar...
- Você se machucou? Está bem? O que você tem?
Sorri de canto ao ver que se preocupava comigo.

Te abrazo y siento tu alma abrazar la mia.
Ele desceu da janela e foi. Caminhava a passos inseguros mas certos. Olhou em cada canto, recuou um pouco ao ouvir mais ruídos de passos. Voltou até onde eu estava, me segurou e me colocou no chão.
- Vá! Está perigoso, não quero que você se arrisque.
- Mas...
- Sem mas.
- Obrigada. – Abracei-o.
- Por quê?
- Por tudo. – Sorri.
Nos aproximamos um pouco mais. Os rostos começaram a se tocar calmamente, as respirações a se encontrarem. Cerrei os olhos, deixando-me levar, sentindo seus lábios quase tocarem nos meus. Sua mão acariciou meu pescoço docemente. Um estalo fez-me acordar de tudo, abrindo os olhos um pouco envergonhada.

Y la noche va, dejándonos solos...
Fui até a sacada onde podia ver a noite, e abri a caixa aveludada e extremamente perfumada. Apoiei-me na grade e abri.
Senti meu queixo cair e meus olhos se encherem de lágrimas. De emoção. Era um pingente, em formato de rosa, algo que eu nunca havia visto. As formas, tudo perfeitamente esculpido em prata visivelmente pura.
Coloquei-o, dei-lhe um beijo. Levantei a parte aveludada de apoio para ver o que estava escrito. Peguei o papel, olhei. Senti como se houvessem me apunhalado, e minhas lágrimas emocionadas se tornaram odiosas e tristes.
“ Para uma pessoa especial... Em uma noite mágica.” Dizia no convite que ali estava, gravado em letras douradas. E no papel, com uma caligrafia desajeitada mas charmosa dizia: “ Espero que possamos tornar a noite mais mágica do que pode ser. Com você, posso fazer do impossível realidade. Se resolver ir, na Piazza, as 21h30min.”
Meus olhos se inundaram inteiros, borraram a minha visão. Ele estava todo o tempo falando de mim, todo tempo insinuando que queria ir comigo, e eu retrucando. Me sentia uma boba, débil, sem sensibilidade. E além de tudo, havia desperdiçado a chance que eu mais queria. As oportunidades sempre vem, mas nem sempre somos espertos o suficiente para pegá-las e não as deixar irem embora. Acima de tudo, somos humanos, humanos às vezes extremamente idiotas.
Fui até meu quarto, joguei o vestido no chão, me joguei na cama, e ainda chorando, adormeci.

Y cada mitad se acerca a su modo...
Um vulto correu por entre as casas. Senti um pouco de medo, confesso. Ninguém é inteira coragem. Ouvi passos mais altos. Resolvi olhar quem era, mas não vi ninguém, só ouvia passos. Voltei para onde estava, e fiquei a observar o céu. Ouvi passos altos, e estes com certeza não queriam se esconder. Senti alguém se aproximar e nem me movi.
- Não precisa fugir. – Aquela voz me disse, baixo.
Senti meu corpo estremecer. Não queria fugir, obviamente, mas achei que deveria. Resolvi por ficar ali e me arriscar. Ele se apoiou na grade ao meu lado.


Y dicen las calles, de tu Barcelona, que la Noche es nuestra...
- Nossa, parece que esse lugar é só seu.
- Não é só meu, vejo que é nosso.
Senti meu corpo estremecer de cima a baixo. Ele sorriu e eu entrei em estado de choque.
- É mesmo, só nós gostamos de vir aqui. – Tentei não transparecer a euforia que tomava conta de mim.
- A cidade inteira à noite é só nossa, pode ter certeza. Somos donos de tudo isso, e podemos fazer o que quisermos.
- Nossa, isso me parece bem atraente! – Tentei novamente disfarçar a minha felicidade com um tom sarcástico.

Que la nit es nostra.
Hades, grego. Deus do submundo e das riquezas dos mortos. Seu nome em grego significa O invisível, supus que andasse muito rápido. Deus das sombras, um significado justo vindo Dele.
Em um pulo subiu no cavalo imperceptivelmente. Estendeu-me a mão, e com um pouco de esforço juntei-me a ele.
- Segure-se em mim, não é a toa que ele pode ser considerado invisível.
Segurei-me em sua cintura. Bateu delicadamente o pé ao lado do cavalo, que levantou-se, relinchando em som alto, como cena de filmes. Se não houvesse sentindo uma pontada de medo, diria que estava em algum livro de romance antigo.
Saímos andando rapidamente, podia ver as ruas passando a meu lado. Vi uma senhora olhar pela janela alarmada, parecia temer um assassino alado, ou alguma lenda ressucitada.
Era maravilhosa a sensação de andar por Veneza a cavalo. Pode parecer estranho, e realmente era estranho, mas era perfeito. Me imaginei sendo protagonista de um filme medieval, andando a cavalo com o príncipe, ou até quem sabe o vilão. Depois Viola me perguntava por que eu preferia Ele a Tommaso.
Andamos por bastante tempo, por quase toda a cidade. Ele parava, me apresentava os bairros, os becos, lugares que eu nunca imaginava existir. Mostrou-me a parte mais antiga e obscura da cidade, considerada perigosa, mas incrivelmente atraente.

La vieja Ciudad, Vestida de luces, de espuma de mar, de amores y cruces.
Era tudo vazio a noite. O vento batia pelos becos e esquinas dos pequenos corredores, dando a ouvir um assovio leve e em parte assustador. Não entendia a causa a qual fazia as pessoas não saírem de casa. Lendas urbanas não me eram suficientes ao ponto de me impedir de sair. Mil vezes a noite ao dia, é pela noite que as coisas acontecem, por mais que lá isso se parecesse totalmente errado. Segui a caminhar por pontes e calçadas claras e escuras. O que mais me chamava atenção era o fato de existir água por todos os lados, dando um ar misterioso e extremamente atraente ao lugar. Aquilo me trazia uma paz enorme na alma, uma tranqüilidade, uma sensação que eu só sentia às vezes e que eu nunca soube explicar. Caminhei mais e mais, por entre casas e corredores, pontes e canais. A cidade estava deserta, literalmente, desde que havia saído de casa não via nada, sendo que já eram 00h.

Y yo solo pido que nunca amanezca, que la noche es nuestra, que la nit es nostra.
Acordei com uma luz tocando minhas pálpebras cerradas. O meu corpo estava bem posicionado, envolvido por um manto quente enorme e que se movia, como respiração. Abri meus olhos lentamente, e vi o sol da manhã invadir minha mente sem piedade. Movi-me e vi que estava deitada em Hades, que estava acomodado ao chão, cuidando-me. Empurrou com uma das patas um papel dobrado, agora meio sujo e rasgado pela pressão com o chão.
- Obrigada Hades... - Passei a mão em sua cabeça.
“ Minha dama... Desculpe tê-la deixado aí, mas tive realmente que ir... Pena não poder ver sua pele ao sol da manhã. Hades está com você, te cuidará em meu lugar. Volte para casa com ele. Com todo amor do mundo, Alfio”
Sorri e guardei o papel em meu bolso. Alfio... Só podia ser coisa dele. Hades levantou-se. Montei nele e fui para casa, com todos que já saíam por aquela hora me observando curiosos.

Canciones, cuántas canciones, se mueren por la mañana.
Saí de casa, pelo caminho de costume. A noite estava nublada, ao que tudo indicava iria chover. Cheguei na Piazza e lá estava ele, sentado a beira da grade, com seu violão no colo, tocando aquela melodia vazia. Fiquei onde havia ficado quando o espiava, e fiquei somente observando-o. Era tão gracioso, tão gracioso, mas ao mesmo tempo me passava decisão e força. Fui amarrar meus tênis, levantei meu pé e caí sentada no chão, fazendo com que ele me notasse. Ele me olhou e sorriu bonito. Senti meu rosto corar, deve ter percebido que eu estava ali há um bom tempo.
- Boa noite! – Ele disse alto.
- Bo...Boa noite. – Coloquei uma mecha do meu cabelo para trás da orelha e baixei o rosto.

No todo lo que se siente, llega tan puro, a la madrugada.
- EU NÃO TE AMO! - Gritei, um som agudo que ecoou por todas as ruas.
Aquilo pareceu ter sido um choque nele. Seu corpo se direcionou para trás, como se minhas palavras tivessem batido em seu corpo como um carro em alta velocidade.
- Você não me ama? - Ele disse em um fio de voz frustrado.
- Não! Está difícil de entender? Você não significa nada para mim, entendeu? Nada. Um zero a esquerda, um ninguém.
- Eu nunca signifiquei nada? - Ele me olhava com olhos de cortar qualquer coração.
- Não.
- Mas e tudo que nós passamos... Você está brincando né? Agora você sorri e vem correndo e me abraça dizendo que era brincadeira, por favor me diz que é isso.
- Eu tenho cara de quem está brincando por acaso? - Esbravejei.
- N...Não. - Ele gaguejou.
- Entenda garoto, você não foi nada além de um passatempo. Você é um covarde, tem medo de mostrar a cara, o que eu ia querer com um covarde, um garotinho que brinca de esconde-esconde?
Eu estava caindo aos pedaços. Doía muito fazer aquilo.
- Olha aqui, acho que quem é covarde aqui não sou eu! Olha o que você está fazendo comigo! - Ele gritou - Está me quebrando em mil pedaços e ainda tem coragem de sorrir. Você está acabando comigo, isso te deixa feliz?! Pois é então queridinha, conseguiu, se o que você queria era me destruir!

No todo lo que se siente, viene del alma...
Me aproximei Dele com os olhos arregalados e coração batendo forte demais. Stephen abriu os olhos, arregalou-os e mexeu suas mãos em direção ao peito. Puxou a espada e jogou-a ao chão, em nossa frente. Olhou para nossos olhos com uma expressão de dor e agradecimento. As luzes da rua hesitaram, piscando, e logo seu rosto perdeu a expressão.
Ele baixou as pálpebras de Stephen fazendo seus olhos se fecharem. Logo após me abraçou.
- Acalme-se, acabou. Isso foi o fim, estamos a salvo, vai ficar tudo bem.
Me aconcheguei em seu peito esquecendo de tudo que passou.
- Pegue Hades e vá para casa. - Ele disse - Eu levo ele e o coloco onde sempre deveria estar. Pode ficar tranqüila, você precisa descansar.
- Não vou! Eu não posso ir, mas e nós e... - Meus olhos se encheram de lágrimas.
Ele engoliu a seco quando falei em nós.

Y la noche va, dejándonos solos...
Eu dei meu melhor sorriso. Já de pé, abri os braços e Ele levantou e me abraçou. Nos beijamos como quem não quer se deixar ir. Olhei para Ele com dor e me virei para ir embora. Ele puxou minha mão me pedindo para esperar. Desamarrou o lenço vermelho do pescoço. Levantou-o em direção ao céu. Movimentou-o, e ele se transformou em uma rosa. Me entregou. Senti seu perfume, dei o último olhar e fui embora.

Y cada mitad se acerca a su modo.
Na intenção de vê-lo melhor, resolvi sair de trás de onde estava e passar para o outro lado. Saí lentamente, em passos abertos, procurando não chamar atenção. Tudo ia perfeitamente, ele só ameaçava olhar para trás, mas nada que me preocupasse. Até que dei um passo errado e pisei em um graveto, que quebrou e estalou. Ele olhou para trás instantaneamente, com uma expressão de susto. Certamente pôde me ver. Como impulso, corri e me escondi atrás da casa. Devagar fui voltando para minha primeira posição. Mesmo que fosse rapidamente, pude “fotografar” o rosto dele com a minha mente. Era branco, uma cor clara. Seus olhos pareciam escuros mas esverdeados, de um formato bem desenhado e olhar fugaz. O maxilar bem marcado, com um nariz de traços leves. E sobre a boca sem comentários. A boca dele era linda, como nunca vi igual. Seu cabelo lhe caía levemente sobre a testa, com sobrancelhas bem expressivas.
Penso que se tive tempo de ver tudo isso, ele deve ter me visto congelada observando-o. Após minha reflexão sobre as graciosas formas do garoto, pude observá-lo olhando a noite novamente. Parecia calmo e despreocupado. Fiquei ali vendo seus movimentos. Ele se virou de frente para onde eu estava e se apoiou com os cotovelos na grade, pude confirmar tudo que pensei. Era lindo. Olhou para a lua e sorriu, voltando a virar-se para a água. Ah, o sorriso. Era perfeito, os dentes alinhados. Um sorriso límpido, branco e encantador, ao mesmo tempo parecia pensativo, introspectivo e fechado.
Resolvi tentar passar para o outro lado novamente. E outro passo em falso, quando ele se virou e me viu parada. Senti meu corpo aquecer e quando dei por mim estava correndo e entrando pela rua ao lado de onde ele estava. Corri sem parar e cheguei até em casa. Fechei a porta, encostei-me a ela. Era 01h30 da madrugada. Marquei o horário na minha cabeça, troquei de roupa e dormi.

Y dicen las calles, de tu Barcelona, que la Noche es nuestra...
Puxei o anel do suporte. Era dourado, todo desenhado, e em cima dele, esculpido em algo muito brilhante, uma pequena rosa, intacta mesmo com a queda. E dentro do anel, gravado dizia : “Que la nit es nostra”. Coloquei o anel no dedo imaginando o que ele iria dizer quando me entregasse, imaginando quais eram seus planos para nossa noite. E agora, estava tudo perdido. E mais uma vez, não segurei minhas lágrimas, adormecendo novamente abraçada em meu porta retrato com a nossa foto.

Que la Nit es nostra.
Me segurou forte, pois meus joelhos fraquejaram antes de eu me soltar nos braços dele sem mais delongas.
- Me diga, sinceramente. Você me ama? - Perguntei.
- Sim, eu te amo.
- Por favor - Eu implorei - Promete que vai me amar além de tudo, e de qualquer bobagem que eu fizer?
- Prometo.
- Me perdoará caso eu fizer algo muito feio?
- Perdoarei, com certeza. Eu sempre vou te amar além do que você fizer e não importa o quanto você me machuque, meu amor nunca vai ir embora.
- Promete?
- Sim! Não tenha dúvidas quanto a isso.
- Promete que quando eu precisar, mesmo que algo entre nós esteja errado, você vai estar aqui sempre para me ajudar?
- Prometo.
- Promete que mesmo que eu seja uma idiota você vai me abraçar depois de tudo?
- Você não é uma idiota. - Ele riu - Mas vá que resolva ser, eu prometo.
- Promete que você vai cumprir todas as promessas?
- Sim. Mas porque todas essas perguntas?
- Em breve você irá entender. - Suspirei - Agora por favor, não fale nada e só fique comigo.
- O que você quiser.
Nos sentamos e ele me abraçou, e ficamos assim em silêncio. Sua respiração era compassada e me deixava muito feliz. Procurei esquecer de tudo, futuro, passado, e passei a só sentir o presente.

Nota: Pois é gente. It's over. Minha segunda fanfic terminada. Eu acho que ao mesmo tempo que é gratificante, dói demais dizer que acabou, que eu não vou ter o que postar todo dia nem nada. Ela ia durar bem mais, mas tive que cortar ela, deixando como eram meus planos iniciais, pois está perto do começo das aulas e quando elas começarem eu mal vou ter tempo para mim. Podem ter certeza que vão ver mais fanfics minhas, mas nas próximas férias de fim de ano. Eu vou estar SEMPRE no tópico de venecia para ver vocês e upar a fic. Muito obrigada a todos que leram,vocês são demais, fazem meus dias serem mais bonitos, mais perfeitos. Eu amo vocês muito, muito mesmo. Ah e não vai ter Mi dulce venecia, sem tempo né gente. Não digo breve, mas vão existir mais fics. EU PROMETO, PODEM ME COBRAR E ME ESTAPEAR CASO EU RESOLVER NÃO CUMPRIR. Amo muito tudo isso, e escrever Venecia foi incrível.
Alguns fatos sobre venecia:
- A fic foi criada em um momento de inspiração ouvindo Barcelona-Bacilos. Pode se considerar o tema da fic.
- Pode ser lida com qualquer pessoa, basta que você imagine Ele ao invés do Jonas.
- A Piazza Nero não existe. Pelo menos até onde vão minhas informações. Idem o Beco do Deserto.
- A tão falada praça é real. Seu nome é Campo Santa Margherita.
- As lendas não são verdadeiras, nem a existência do Baile de Veneza.
- Eu não sei falar latim, o verso de execução pode estar errado.
- O cemitério de Veneza é realmente em uma ilha.
- Em Veneza não existem estradas para carros/motos. Mas minha Veneza é adaptada, ficaria muito estranho se Tommaso buscasse Ela de gôndola ou de patinete.
- Eu nunca fui a Veneza. O lugar que eu descrevo, foi o que as fotos me mostraram e que está em minha cabeça.
- As imagens que uso são do Getty Images. Se quiserem ver uma perspectiva boa de Veneza, entrem no site do Getty images e pesquise "Veneza".
- Não sei como, nem nome, nem onde fica o manicômio de Veneza. Nem a delegacia.
- Os livros que eu saiba não existem.
- A dama dourada tem seu vestido quase idêntico a esse: http://viajenaviagem.files.wordpress.com/2007/10/carnevale400.jpg
Confesso, quase tive um filho que não fiz quando vi essa foto.
Bem gente, era isso. Leiam The Orange Diary, minha primeira fic também. Eu amo vocês assim, demais mesmo.
Xoxo, Gabriela Fernandez. PS: Aí o link do tópico, não me abandonem lá. :D
http://www.orkut.com.br/Main#CommMsgs.aspx?cmm=40255170&tid=5282224945580565201&na=1&nst=1

http://gwords.orgfree.com/misteryinc.html MISTERY INC.



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